Uma descoberta científica inédita acaba de redefinir o entendimento sobre a oncologia e a fauna aquática. Pesquisadores identificaram, em bagres do Lago Memphremagog (na fronteira entre Estados Unidos e Canadá), o primeiro registro na história de um câncer contagioso em peixes. As conclusões do trabalho foram publicadas na prestigiada revista científica Nature.
A constatação de que o tumor passa diretamente de um indivíduo para outro veio por meio do mapeamento genético. O sequenciamento de DNA revelou que as células de melanoma presentes na pele dos peixes compartilham cerca de 250 mil marcas genéticas e mutações idênticas. Isso comprova que a doença teve origem em um único peixe fundador e vem circulando como um parasita entre a população aquática há mais de uma década.
Como funciona a propagação e por que não é ambiental
O achado intrigou os cientistas porque os bagres da espécie Ameiurus nebulosus vivem no fundo do lago, no escuro e sem escamas. Como o melanoma é tradicionalmente associado à exposição ao sol, a explicação convencional não se aplicava. A primeira suspeita recaiu sobre a poluição da água após tempestades na região, mas a análise genômica apontou uma direção totalmente diferente: o tumor não nascia dentro de cada peixe, mas sim passava de um corpo para o outro.

Diferente de doenças causadas por vírus (como o HPV em humanos), no caso dos bagres é a própria célula cancerosa doente que migra de hospedeiro em hospedeiro. Este é o quarto grupo animal na natureza em que o fenômeno é documentado — após registros em cães, diabos-da-tasmânia e moluscos bivalves —, sendo o primeiro em uma espécie de peixe e em ambiente de água doce.
Apesar da intrigante descoberta, cientistas e oncologistas garantem que não existe qualquer risco para a saúde humana. O câncer não é uma doença transmissível entre pessoas e a ingestão de peixes doentes não transmite o tumor, pois o sistema digestivo humano degrada completamente as células durante o processo de digestão.
Hipóteses de contágio e utilidade para a medicina
Embora o estudo não tenha determinado o momento exato da transmissão, as principais hipóteses envolvem o comportamento reprodutivo dos peixes. Durante a desova, os bagres se reúnem em aglomerações rasas com contato físico intenso. Como não possuem escamas e raspam o corpo no sedimento do fundo do lago, as células tumorais poderiam entrar através de lesões na pele, boca ou brânquias.
Para a medicina humana, a descoberta traz avanços valiosos sobre o funcionamento do sistema imunológico. Entender como uma célula tumoral vinda de outro corpo consegue desarmar as defesas naturais e proliferar em um organismo estranho pode fornecer pistas importantes para o desenvolvimento de novas imunoterapias contra o câncer.
Fonte: Super Interessante, adaptado pela equipe Cães&Gatos.

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