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Canetas emagrecedoras: realidade na rotina veterinária?

Pesquisas avançam no uso de análogos de GLP-1 para tratar diabetes e obesidade em cães e gatos, mas falta de padronização e alertas de órgãos reguladores exigem cautela dos veterinários

Canetas emagrecedoras: realidade na rotina veterinária?
Por Thais Ximenes, Monique Paludetti e Erika Pereira
16 de setembro de 2026

Nos últimos anos, o uso de agonistas GLP-1 vem se tornando cada vez mais conhecido e popular na Medicina Humana, principalmente associado à novas perspectivas no tratamento de diabetes e obesidade podendo, em alguns casos, reduzir ou postergar a necessidade de intervenções mais invasivas, como a cirurgia bariátrica (1). 

O chamado efeito incretina, descrito na década de 1960, refere-se ao fenômeno pelo qual a ingestão oral de glicose provoca uma resposta de secreção de insulina maior do que a observada após a administração intravenosa de uma quantidade equivalente de glicose, mesmo quando os níveis de glicemia são semelhantes. Esse efeito é mediado principalmente pelo polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e pelo peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), hormônios incretínicos produzidos pelo trato gastrointestinal, que encontram-se reduzidos em indivíduos com diabetes mellitus tipo 2 (1,2). 

Além do aumento da secreção de insulina e da supressão do glucagon, as ações do GLP-1 incluem retardo do esvaziamento gástrico e indução de saciedade. Com isso, esses agentes vêm sendo cada vez mais estudados principalmente no que diz respeito ao tratamento de diabetes felina, que se assemelha à diabetes humana tipo 2 (2,3).

Nos gatos, a obesidade crônica é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do diabetes mellitus, através de resistência insulínica persistente, glicotoxicidade e disfunção progressiva de células beta pancreáticas que, eventualmente, passam a deixar de produzir insulina de forma eficiente (4,5). 

Em trabalhos anteriores que estudaram a população de gatos obesos nos Estados Unidos e na Inglaterra, observou-se uma prevalência de 20-40% de obesidade (6,7) ao passo que em estudo conduzido no Brasil indicou uma população de 36% de gatos obesos na população estudada (8). 

Esses dados reforçam a importância de inovações quanto ao manejo da obesidade nos felinos.

Além da redução de apetite que facilita o processo de perda de peso nos gatos (3,9), o uso dos análogos GLP-1 em pacientes felinos já diagnosticados com diabetes pode auxiliar na redução de dose necessária de insulina para manutenção da normoglicemia. Isso acontece devido a ação insulinotrópica glicose dependente dos agonistas de receptores GLP-1 que, mediante aumento de glicemia, estimulam as células beta pancreáticas a secretar insulina, ajudando ainda na preservação dessas células (9,10,11). 

Dessa forma, na espécie felina o possível uso dos agonistas GLP-1 se faz particularmente interessante uma vez que, devido a fisiopatogenia mais comum da doença, parece haver maior chance de remissão diabética e da manutenção dessa remissão, relacionada tanto a perda de peso quanto ao estímulo de produção de insulina pelas células beta pancreáticas (3,18,19).

Efeitos adversos descritos em gatos diabéticos utilizando a medicação incluem inapetência, vômito e perda de peso não intencional (16). Tais efeitos causam preocupação principalmente ao utilizar análogos GLP-1 em animais doentes, pois podem piorar o quadro clínico ou mesmo ocasionar novas urgências, como a lipidose hepática felina relacionada a perda de peso acentuada e abrupta (16,4).

canetas emagrecedoras
Populares na medicina humana, “canetas emagrecedoras” de GLP-1 ganham espaço em pesquisas veterinárias, mas ainda não têm uso rotineiro aprovado no Brasil (Foto: Reprodução)

Quanto aos cães, a diabetes mellitus costuma se apresentar na forma similar à diabetes do tipo 1 em humanos. Diferentemente dos gatos, que desenvolvem diabetes a partir da resistência insulínica, nesses animais o mais comum é a deficiência absoluta ou relativa de insulina, fazendo com que necessitem de insulinoterapia para o controle da condição (12,13). 

Em estudo que avaliou o uso da liraglutida, agonista de GLP-1, tanto em cães saudáveis quanto diabéticos, observou-se no grupo de cães saudáveis valores mais controlados de glicemia no teste de tolerância à glicose. Já os cães diabéticos apresentaram menores concentrações glicêmicas utilizando insulina juntamente com a liraglutida, quando comparados aos cães usando apenas insulina (14). 

Mais recentemente, o potencial dos agonistas de GLP-1 para o manejo da obesidade também começou a ser investigado nesses animais. Em um estudo com cães idosos obesos, o tratamento com liraglutida promoveu redução do apetite e do escore de condição corporal, além de reduções nas concentrações séricas de colesterol e triglicérides, embora a diminuição de peso observada não tenha alcançado significância estatística (15).

Ponto importante de ressalva é que as doses e os intervalos de administração dos agonistas de GLP-1 ainda não são padronizados na Medicina Veterinária. As recomendações para gatos variam entre diferentes princípios ativos, como exenatida e liraglutida. Além disso, para um mesmo medicamento, existem protocolos que descrevem desde aplicações diárias até mensais (17). 

Nos cães, essa incerteza é ainda maior, uma vez que os estudos disponíveis são escassos e utilizaram diferentes esquemas de administração. A liraglutida, por exemplo, foi estudada em cães diabéticos em uma dose ajustada de acordo com o peso corporal, enquanto um estudo mais recente em cães obesos utilizou dose fixa por animal administrada diariamente (14,15). 

Em março de 2026, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), em conjunto com o Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), publicou uma nota técnica sobre o uso de agonistas de GLP-1 na Medicina Veterinária. 

Segundo os órgãos, apesar de já existirem relatos de prescrição desses medicamentos por médicos-veterinários, seu uso na prática veterinária permanece “inabitual”, não havendo, até o momento, “indicações formais aprovadas para uso veterinário”. A nota também destaca que os estudos de segurança disponíveis ainda são incipientes e restritos ao ambiente de pesquisa (18).

Confira o artigo completo “Canetas emagrecedoras: realidade na rotina veterinária?”, na íntegra e sem custo, acessando a página 40 da edição de agosto (nº 325) da Revista Cães e Gatos.

Referências:

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