A escalada das tensões no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o transporte global de petróleo e gás natural, tem levado entidades da indústria pet em diferentes partes do mundo a acompanhar possíveis consequências para os mercados e as cadeias de abastecimento.
No Reino Unido, a associação UK Pet Food informou que monitora a situação de perto, embora não existam, até o momento, sinais de desabastecimento. Já a Federação Europeia da Indústria de Alimentos para Pets (FEDIAF) aponta que um dos primeiros efeitos observados tem sido a pressão sobre os custos de energia.
No Brasil, o cenário também é acompanhado com atenção. Por mais que o risco de falta de produtos seja considerado baixo, a indústria avalia que uma crise prolongada pode aumentar despesas de produção, transporte e distribuição dos alimentos para cães e gatos.
Segundo Ariovaldo Zani, CEO do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), o principal desafio para o setor não está relacionado à escassez imediata de produtos, mas ao encarecimento gradual das operações e à maior instabilidade do mercado global.
“Na avaliação do Sindirações, o principal risco está na combinação de três fatores: aumento dos custos, maior complexidade logística e incerteza sobre a regularidade da oferta de insumos ao longo da cadeia agroindustrial”, afirma.
Apesar de o Brasil possuir uma forte produção de grãos utilizados na alimentação animal, a indústria pet continua conectada ao mercado internacional por meio de insumos estratégicos, fertilizantes, combustíveis e serviços de transporte.
Dependência indireta preocupa setor
Embora a produção nacional de milho e soja seja suficiente para abastecer o mercado interno, parte relevante da estrutura produtiva está ligada a fatores externos.
De acordo com Zani, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira são importados, sendo que parte dos produtos nitrogenados tem origem no Oriente Médio. Uma eventual interrupção ou encarecimento das rotas comerciais pode afetar diretamente os gastos da produção agrícola.
“Mesmo quando a matéria-prima agrícola é produzida no Brasil, ela carrega custos internacionais associados a fertilizantes, câmbio, frete marítimo, fluidez portuária e concentração de fornecedores globais”, explica.
Para a indústria de alimentos para cães e gatos, isso significa que os reflexos podem surgir de forma indireta, por meio da alta nos preços de ingredientes, embalagens, energia e transporte.
Além disso, insumos como gás natural, amônia, ureia e enxofre também podem sofrer influência de restrições logísticas em rotas estratégicas, aumentando a pressão sobre diferentes etapas da produção.

Alta do petróleo e monitoramento do mercado acendem alerta
Outro fator que preocupa o setor é a possibilidade de aumento dos preços internacionais do petróleo. Como o transporte rodoviário é predominante no Brasil, qualquer elevação persistente no valor dos combustíveis tende a repercutir em diversas etapas da atividade econômica.
“O diesel pesa no plantio, na colheita, no transporte das matérias-primas agrícolas e na distribuição dos alimentos industrializados”, destaca Zani.
Segundo ele, os efeitos podem incluir aumento das despesas operacionais, redução das margens das empresas e, dependendo da intensidade do cenário, reajustes nos preços dos alimentos para pets.
Caso isso ocorra, os responsáveis poderão sentir gradualmente os reflexos nas gôndolas, especialmente em produtos que dependem de processos de distribuição mais complexos ou de ingredientes mais suscetíveis às oscilações do mercado internacional.
Apesar do cenário de atenção, o Sindirações afirma que não há sinais de desabastecimento no mercado brasileiro.
A entidade acompanha o comportamento dos preços dos fertilizantes, dos combustíveis, das commodities agrícolas e das rotas marítimas internacionais, buscando identificar eventuais reflexos para a indústria de alimentação animal.
“No caso do pet food, a preocupação específica é evitar que a elevação de custos em etapas anteriores da cadeia comprometa a previsibilidade de produção, a competitividade das empresas e a acessibilidade dos produtos ao consumidor final”, ressalta o executivo.
Atualmente, o cenário ainda combina uma perspectiva favorável para a safra brasileira com riscos relevantes relacionados ao comércio internacional e aos mercados de insumos.
Estratégias para reduzir impactos na cadeia de pet food
Nos últimos anos, especialmente após os desafios enfrentados durante a pandemia de Covid-19 e outras interrupções no comércio global, as empresas do setor passaram a investir mais em planejamento e gestão de riscos.
Entre as principais estratégias adotadas estão a diversificação de fornecedores, a formação de estoques estratégicos, quando viável, o acompanhamento constante dos mercados de grãos e fertilizantes e a busca por alternativas de transporte e abastecimento.
Entretanto, no segmento pet, a substituição de matérias-primas possui limitações técnicas importantes.
“Alimentos para animais de estimação precisam atender parâmetros nutricionais, regulatórios, de segurança e de qualidade. Portanto, qualquer substituição deve preservar o equilíbrio nutricional, a digestibilidade, a palatabilidade e a segurança do alimento”, observa Zani.
Além das medidas adotadas pelas empresas, o CEO do Sindirações destaca a importância de iniciativas estruturais, como a diversificação das origens de fertilizantes, o fortalecimento da produção doméstica desses insumos, a estabilidade macroeconômica, a previsibilidade cambial e a melhoria da logística de importação.
Indústria pet está mais preparada, mas ainda vulnerável a crises globais
Na avaliação do CEO do Sindirações, o setor brasileiro de pet food está hoje mais preparado para enfrentar crises geopolíticas e logísticas do que estava durante a pandemia.

A experiência adquirida nos últimos anos fortaleceu práticas relacionadas ao monitoramento de riscos, gestão de estoques e diversificação de fornecedores.
Dessa forma, expectativa de uma safra robusta de grãos ajuda a reduzir o risco de escassez de matérias-primas.
Segundo Zani, as projeções para a safra 2025/2026 indicam uma oferta elevada de grãos no Brasil, contribuindo para maior segurança de abastecimento da indústria.
“Estar mais preparado não significa estar imune. A agricultura brasileira ainda apresenta vulnerabilidade estrutural pela elevada dependência de fertilizantes importados, pela exposição ao câmbio, pelos custos do frete marítimo, pela concentração de fornecedores globais e pelo peso do transporte rodoviário no mercado doméstico”, afirma.
Para o executivo, o setor aprendeu com crises anteriores e desenvolveu maior capacidade de reação, mas continua exposto a choques geopolíticos prolongados.
“A resiliência dependerá da combinação entre boa gestão empresarial, estabilidade macroeconômica, fluidez logística, diversificação de fornecedores e políticas que fortaleçam a segurança de abastecimento da cadeia agroindustrial”, conclui.
FAQ sobre a crise no Estreito de Ormuz e mercado pet
O Brasil corre risco de faltar ração para cães e gatos?
Não há sinais de desabastecimento no mercado brasileiro. A principal preocupação do setor está relacionada ao aumento dos custos de produção, transporte e distribuição.
Por que um conflito no Oriente Médio pode afetar a indústria pet brasileira?
Porque a cadeia produtiva depende de fatores globais, como fertilizantes importados, combustíveis, energia e transporte marítimo, que podem sofrer impactos em períodos de instabilidade geopolítica.
Os preços dos alimentos para pets podem subir?
Sim. Caso os custos de combustíveis, fertilizantes, energia e logística permaneçam elevados por um período prolongado, a indústria poderá enfrentar pressão para reajustar preços ao consumidor.
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