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Dia do Amigo: o que torna cães e gatos verdadeiros amigos de seus responsáveis?

Mais do que companheiros, os pets constroem vínculos baseados em confiança, afeto e reciprocidade, promovendo benefícios para a saúde física e emocional das pessoas

Dia do Amigo: o que torna cães e gatos verdadeiros amigos de seus responsáveis?
Por Stéfani Campos Chagas
20 de julho de 2026

No Dia do Amigo, celebrado hoje (20 de julho), uma amizade merece destaque especial: a construída entre pessoas e seus cães e gatos.

Muito além da companhia diária, a ciência reconhece que esse vínculo é capaz de promover benefícios físicos, emocionais e sociais para ambos. Baseada na confiança, na convivência e no cuidado, essa relação influencia diretamente a qualidade de vida dos animais e de seus responsáveis.

Segundo Juliana Kawano Sato, psicóloga, mestranda em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), pesquisadora sobre luto prolongado em médicos-veterinários de desastres, primeira brasileira certificada internacionalmente pela Association for Pet Loss and Bereavement (APLB) em luto por animais e organizadora dos livros Luto no Contexto da Medicina Veterinária e Grief in the Veterinary Medicine, a amizade entre humanos e pets possui características próprias, mas é tão legítima quanto qualquer outro vínculo afetivo.

“A ciência do vínculo humano-animal descreve essa relação em termos de apego: o animal funciona como base segura e fonte de conforto, exatamente como acontece em vínculos afetivos entre pessoas. Existe reciprocidade, reconhecimento mútuo, história compartilhada e rotina construída a dois. O que torna essa amizade legítima não é ela imitar a amizade humana, mas ter estrutura própria e produzir efeitos reais na vida de quem a vive”, explica.

Uma amizade construída na confiança

Embora seja diferente das relações entre pessoas, a amizade entre responsáveis e cães ou gatos possui características únicas.

De acordo com Juliana, um dos principais diferenciais está na ausência de julgamentos e na simplicidade da convivência.

“Amizades humanas exigem explicação, contexto e gestão de expectativas. Com um cão ou gato, a presença basta. Ele não pede que você esteja bem, não cobra coerência, não guarda ressentimento pelo que você disse em um dia difícil”, afirma.

Os benefícios desse vínculo vão além do aspecto emocional. A rotina de cuidados ajuda a organizar o dia, incentiva hábitos saudáveis e aumenta a prática de atividades físicas, especialmente por meio dos passeios.

Além disso, a convivência reduz a sensação de solidão, auxilia na regulação das emoções em momentos de estresse e fortalece o senso de propósito, sobretudo durante períodos de perda, adoecimento ou mudanças importantes na vida.

A amizade com cães e gatos também amplia as oportunidades de interação social.

“O animal pode atuar como ponte social. Quem passeia com um cão conversa mais com vizinhos e frequenta mais espaços públicos”, ressalta a psicóloga.

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Segundo a ciência do vínculo, cães e gatos funcionam como uma base segura de conforto e afeto para seus responsáveis (Foto: Reprodução)

Benefícios também para cães e gatos

Se a convivência faz bem para as pessoas, ela também é fundamental para a saúde física e emocional dos animais. Para Juliana, a previsibilidade faz parte do bem-estar animal e está diretamente ligada à confiança construída no dia a dia entre o pet e o responsável.

“Previsibilidade é bem-estar animal. Um animal que confia no responsável vive com menos vigilância, menos estresse crônico e tem mais disposição para explorar e brincar. Um cão ou gato que não confia gasta energia se protegendo, enquanto um que confia gasta energia vivendo”, destaca.

Essa relação de confiança também facilita o manejo veterinário, favorece a adaptação a novos ambientes e contribui para uma recuperação mais tranquila após situações estressantes.

Os sinais desse vínculo costumam aparecer em atitudes simples do cotidiano.

Nos cães, é comum buscar o responsável diante de novidades ou situações de insegurança, relaxar completamente em sua presença e procurar contato espontaneamente.

Já os gatos demonstram confiança ao dormir próximos, piscar lentamente, esfregar a cabeça na pessoa, vocalizar de forma direcionada e permanecer por perto mesmo quando não precisam de alimento ou atenção.

“O sinal mais importante costuma ser o mais discreto: o animal escolhe estar perto quando não precisa de nada”, observa Juliana.

Como fortalecer esse vínculo no dia a dia

A amizade entre pessoas e pets é construída diariamente. Mais do que dedicar longos períodos de tempo, o que realmente fortalece essa relação é a qualidade das interações e a constância dos cuidados.

Segundo Juliana, pequenos momentos de atenção exclusiva podem fazer uma grande diferença.

“Consistência importa mais que quantidade. Dez minutos de atenção plena, sem celular, valem mais que duas horas de presença distraída”, orienta.

Entre as atitudes que fortalecem esse vínculo estão manter horários previsíveis para alimentação e passeios, permitir que o cão explore o ambiente durante a caminhada, respeitar o tempo e a iniciativa dos gatos para o contato e aprender a reconhecer os sinais individuais de conforto e desconforto de cada animal.

Por outro lado, algumas atitudes podem comprometer essa relação, mesmo quando a intenção é positiva. Insistir em interações quando o animal demonstra medo, utilizar punições, estabelecer regras inconsistentes e ignorar as necessidades naturais de cães e gatos podem gerar insegurança e afetar a confiança construída ao longo da convivência.

Além dos cuidados durante toda a convivência, a psicóloga chama atenção para um tema pouco discutido: conversar sobre qualidade de vida, dor crônica e os limites dos tratamentos antes que decisões difíceis precisem ser tomadas.

Segundo ela, esse diálogo faz parte do cuidado responsável e contribui para preservar o bem-estar do animal até o fim da vida.

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A confiança mútua e a previsibilidade na rotina reduzem o estresse crônico e garantem o bem-estar animal (Foto: Reprodução)

Uma amizade que permanece além da despedida

Por mais que a amizade entre pessoas e cães e gatos seja marcada por momentos de alegria, ela também envolve um aspecto inevitável: a despedida.

Como os animais vivem menos do que os seres humanos, compreender o envelhecimento, discutir qualidade de vida e tomar decisões pensando no bem-estar do pet também fazem parte desse vínculo de cuidado.

Conforme relata, evitar essas conversas pode tornar esse momento ainda mais difícil para os responsáveis e contribuir para um processo de luto mais intenso. Com isso, é preciso reconhecer que a importância dessa amizade também significa validar a dor da perda quando ela acontece.

Afinal, quanto mais profundo é o vínculo construído ao longo dos anos, maior tende a ser o impacto da despedida.

“Essa amizade tem tempo. Nossos animais vivem em outra escala, e isso não é um detalhe triste a ser evitado, é parte do que dá densidade ao vínculo. Cuidar bem significa estar presente enquanto dá, prestar atenção no que ele comunica e assumir as decisões difíceis quando chegarem. E quando esse laço se rompe, a dor que vem depois é proporcional ao que foi vivido. Ela merece ser nomeada como luto, sem pedido de licença, sem comparação. Quem amou um animal sabe exatamente do que estou falando”, conclui.