Abre em uma nova aba
Opções
Clínica e Nutrição Pets e Curiosidades

Dia Mundial da Luta contra a Raiva: Brasil avança, mas por que o alerta continua?

Redução da transmissão por cães mudou o perfil epidemiológico da doença no país, mas circulação de variantes silvestres, especialmente associadas a morcegos, mantém o risco para animais e pessoas

Dia Mundial da Luta contra a Raiva: Brasil avança, mas por que o alerta continua?
Por Stéfani Campos Chagas
28 de setembro de 2026

A redução dos casos de raiva humana transmitida por cães representa uma das principais conquistas brasileiras no controle da doença. No entanto, o avanço não significa que o vírus deixou de circular.

Atualmente, a circulação do vírus entre animais silvestres ganhou maior importância, com destaque para os morcegos e outros mamíferos que podem atuar na manutenção e transmissão do vírus. O alerta chama atenção no Dia Mundial da Luta contra a Raiva, celebrado em 28 de setembro.

Em 2026, a data tem como tema “Stronger Together” (“Mais fortes juntos”), reforçando a necessidade de ações integradas para prevenção, vigilância e eliminação da doença.

Segundo o médico-veterinário Enio Mori, pesquisador científico nível VI do Instituto Pasteur, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o Brasil avançou especialmente na erradicação da transmissão da raiva associada a variantes virais caninas.

“Ao mesmo tempo, o perfil epidemiológico da doença mudou: a circulação de variantes silvestres ganhou maior relevância, com destaque para os morcegos”, afirma.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2016 e 2026, foram confirmados 37 casos de raiva humana no Brasil, todos associados a variantes silvestres. Os morcegos estiveram envolvidos em 22 desses episódios.

Raiva sob controle?

O Brasil não registra, desde 2015, casos humanos causados pelas variantes clássicas associadas aos cães, AgV1 e AgV2.

Em 2026, o país busca a validação junto à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e à Organização Mundial da Saúde (OMS) para o reconhecimento como área livre de raiva humana transmitida por variantes caninas.

A conquista é resultado de décadas de vacinação de cães e gatos, vigilância epidemiológica e laboratorial e atendimento às pessoas expostas a animais suspeitos. A meta internacional é eliminar a raiva humana transmitida por cães nas Américas até 2030.

Apesar disso, Mori ressalta que o controle da circulação urbana não significa o desaparecimento do vírus. Ainda de acordo com ele, é necessário manter a vacinação de cães e gatos, fortalecer a vigilância de morcegos e outros animais silvestres e garantir uma rede laboratorial capaz de identificar rapidamente a circulação viral e suas variantes.

Outro ponto de atenção envolve áreas de fronteira. O pesquisador destaca o risco de reintrodução ou emergência de variantes associadas a cães em regiões próximas a países onde há circulação da AgV1, como Bolívia e Venezuela.

Existe ainda a possibilidade de spillover, ou transbordamento, de variantes mantidas por canídeos silvestres para cães domésticos, principalmente no Nordeste.

O médico-veterinário ressalta, entretanto, que essa possibilidade é hipotética e que, até o momento, não há evidências científicas de reemergência da circulação urbana da raiva no Brasil.

As chamadas áreas silenciosas também exigem atenção. A ausência de registros pode significar que não há circulação do vírus, mas também pode estar relacionada a baixa investigação, poucos animais avaliados ou quantidade reduzida de amostras encaminhadas para diagnóstico.

O risco dos morcegos

Com a eliminação da transmissão pelas variantes caninas, os animais silvestres assumiram papel cada vez mais importante na epidemiologia da doença. Entre eles, os morcegos se destacam tanto pela transmissão direta para seres humanos quanto pelo potencial de levar variantes silvestres para animais domésticos.

Conforme diz Mori, morcegos hematófagos estão mais associados a áreas rurais e periurbanas e podem representar risco principalmente em regiões de difícil acesso, enquanto espécies frugívoras e insetívoras se adaptaram aos ambientes urbanos.

“Além do risco direto para a população humana, esses animais também podem atuar como uma ponte de transmissão entre os ambientes silvestre e doméstico”, pontua.

Nesse cenário, cães e gatos podem se infectar ao tentar capturar morcegos. O risco não se restringe a animais que vivem em casas com acesso à rua ou em propriedades rurais. Um morcego infectado pode entrar em uma residência e ter contato com um animal de companhia.

O Ministério da Saúde reforça que cães e gatos continuam suscetíveis a variantes silvestres, especialmente aquelas associadas a morcegos, o que mantém a vacinação e a vigilância como medidas importantes de prevenção.

No Nordeste, o cenário também envolve canídeos silvestres, como cachorro-do-mato e raposa. A vigilância desses animais permite identificar áreas de circulação do vírus, acompanhar as variantes envolvidas e reconhecer mudanças na distribuição da doença.

morcego
Mudança no perfil epidemiológico da raiva no Brasil coloca a vigilância sobre morcegos no centro das ações de prevenção (Foto: Reprodução)

Vacinação protege

Mesmo com a erradicação da raiva transmitida pelas variantes clássicas de cães, a vacinação de cães e gatos permanece fundamental. Isso porque os animais domésticos podem entrar em contato com variantes mantidas pela fauna silvestre.

Enio cita cinco casos de raiva humana registrados nos últimos anos em que a transmissão ocorreu a partir de animais de companhia infectados por variantes associadas a morcegos: quatro gatos e um cão.

Por isso, a imunização não deve ser vista como necessária apenas para animais que frequentam a rua.

“Mesmo cães e gatos que vivem exclusivamente em apartamentos precisam estar imunizados. Um morcego infectado pode entrar em uma residência e ter contato com o animal, criando uma situação de risco”, alerta.

Dados do Ministério da Saúde mostram que a vacinação continua como uma das principais estratégias de prevenção. Em 2025, a cobertura da campanha antirrábica no Brasil foi de 78%, considerando as unidades federativas que realizam as campanhas nacionais.

Em decorrência da situação epidemiológica favorável, caracterizada pela ausência de circulação das variantes caninas do vírus da raiva desde 1998, no estado de São Paulo não são realizadas campanhas de vacinação antirrábica de rotina. Contudo, a vacinação é disponibilizada durante todo o ano em postos fixos de vacinação.

Além da vacinação, a população deve evitar o contato com morcegos e outros animais silvestres encontrados mortos, debilitados ou apresentando comportamento incomum.

Ao se deparar com uma dessas situações, a recomendação é afastar crianças e animais domésticos e acionar os serviços municipais de zoonoses, vigilância ambiental ou controle de animais.

“Não se deve tocar, capturar ou tentar manipular o animal, mesmo que ele pareça estar morto, debilitado ou apresente comportamento incomum”, orienta Mori.

Em caso de exposição

Em situações de mordedura, arranhadura ou outro contato que possa representar risco de transmissão da raiva, a orientação é lavar imediatamente o local com água corrente e sabão e procurar um serviço de saúde o mais rápido possível.

No caso de morcegos, a atenção precisa ser redobrada. Uma mordedura pode ser pequena e passar despercebida, de modo que a ausência de uma lesão evidente não elimina necessariamente a possibilidade de exposição.

O profissional de saúde avaliará as características do contato, o animal envolvido e as circunstâncias da exposição para definir a necessidade de profilaxia pós-exposição, que pode incluir vacina e, quando indicada, soro ou imunoglobulina antirrábica.

“A regra principal é simples: não esperar o aparecimento de sintomas. Na raiva, a prevenção precisa ocorrer antes que a doença se manifeste”, reforça o pesquisador.

A rapidez é essencial porque, depois do aparecimento dos sinais clínicos, a doença apresenta letalidade extremamente elevada, quase na totalidade dos casos. Por outro lado, a raiva pode ser prevenida quando as medidas indicadas são adotadas de forma adequada e oportuna.

cão imunizado
Imunização anual de cães e gatos é a principal barreira contra variantes silvestres do vírus da raiva (Foto: Reprodução)

Saúde Única

O controle da raiva é um exemplo direto da aplicação do conceito de Saúde Única, já que a circulação do vírus envolve a interação entre pessoas, animais domésticos, fauna silvestre e ambiente.

Para Mori, o enfrentamento da doença exige a integração entre vigilância epidemiológica, saúde pública, saúde animal, laboratórios e órgãos ambientais. Na prática, isso envolve monitorar o vírus em diferentes espécies, manter cães e gatos vacinados, investigar exposições humanas e realizar o diagnóstico laboratorial.

Nesse contexto, o médico-veterinário ocupa uma posição estratégica. O profissional participa da investigação de casos suspeitos, coleta e encaminhamento de amostras de SNC dos animais com possibilidade da enfermidade que vieram a óbito, vigilância de animais domésticos e silvestres, vacinação e orientação da população.

“A atuação do médico-veterinário ultrapassa o atendimento clínico individual e se consolida como um componente fundamental da vigilância epidemiológica, da prevenção da raiva e da proteção da saúde pública”, destaca Enio.

Para o pesquisador, o principal desafio agora é preservar os avanços obtidos no controle da transmissão por cães sem reduzir a atenção à circulação do vírus silvestres.

“A raiva ainda existe, mas podemos e devemos preveni-la. Manter cães e gatos vacinados, evitar o contato com animais silvestres e procurar imediatamente um serviço de saúde após qualquer possível exposição são atitudes simples, mas que podem fazer toda a diferença”, finaliza.