Felina, cinco anos, adulta e castrada, com teste de FIV/FeLV negativo e resgatada em 2021. Pouco tempo depois de chegar ao lar do adotante apresentou lambedura excessiva, ocasionando alopecia em região dorsal.
Em 2023, com mudança de residência, as lambeduras se intensificaram, gerando dermatite. Foi instaurado tratamento com corticoide na dose de 1 mg/kg por sete dias, dipirona 10 mg/kg duas vezes ao dia durante três dias, Regepil uma vez ao dia até remissão da lesão e ração hipoalergênica, sem resolução dos sintomas.
O quadro evoluiu para sinais comportamentais evidentes de medo e reclusão. Foi solicitado raio-x, evidenciando-se alterações degenerativas em vértebras torácicas e alteração morfológica em vértebras dorsais T11-T12.
A prescrição de amitriptilina 1 mg/kg durante 15 dias piorou o quadro e foi suspenso. O tratamento foi trocado para gabapentina na dose de 10 mg/kg duas vezes ao dia e, após 20 dias, notou-se melhora inconsistente do caso, caracterizada por alternância de períodos de melhora e piora.
Após realização de ressonância magnética constatou-se mielopatia compressiva por provável protusão discal em T11-T12 e T12-T13, bem como discopatias não compressivas de T7 a T10, além de degeneração de alguns discos intervertebrais e osteoartrose.
Mesmo com a inclusão de fisioterapia ao tratamento farmacológico, não houve melhora do quadro clínico.
Optou-se pela mudança multimodal do tratamento e foi realizada avaliação pela escala Grimace por médico-veterinário especializado em Neurologia e Ortopedia, no qual a paciente não mostra nenhuma alteração digna de nota, o que é curioso visto que se machuca de tanto lamber e mordiscar a região.
A ração hipoalergênica foi substituída e se iniciou o uso de outras medicações, como pregabalina 2,5 mg/kg duas vezes ao dia, clomipramina 0,3 mg/kg uma vez ao dia por, pelo menos, seis meses e Ograx Artro 5 e Macrogard Pasta de uso contínuo até novas orientações.
Com esse protocolo notou-se melhora significativa do quadro clínico em um período de dois meses. No entanto, passado esse tempo houve recorrência do quadro, sendo incluído no protocolo robenacoxibe 1 mg/kg uma vez ao dia por cinco dias e manutenção com meloxicam 0,05 mg/kg uma vez ao dia até novas orientações.
Em seguida, foi realizada a retirada gradativa da clomipramina e indicado acupuntura. Após as alterações, a paciente segue estável e apresentando melhora há cinco meses.
Discussão
Conforme as alterações, pode-se constatar que a melhora do quadro clínico manteve-se estável somente após a introdução de um tratamento multimodal. De fato, não houve uma mudança consistente a partir de abordagem isolada no contexto farmacológico, nutricional e de reabilitação.
A alopecia psicogênica é um distúrbio bem reconhecido em gatos, no entanto pouco se fala sobre a dor associada a este transtorno. Embora a incidência deste estado de morbidade na população felina seja desconhecida, o mesmo deve ser levado em consideração e abordado de forma multimodal.
A dor crônica é uma preocupação significativa para o bem-estar dos gatos e a dor neuropática é uma subcategoria desse tipo de dor.
Considerando a importante relação entre dor crônica e os aspectos emocionais em felinos gatos, compreender e abordar os fatores emocionais que contribuem para a percepção da dor, e vice- versa, é essencial para um cuidado integral.
Tanto o distresse, quanto a dor mal adaptativa alteram o funcionamento da circuitaria córtico-límbica, afetando os aspectos emocionais, cognitivos e a tomada de decisões.
A dor está intrinsecamente ligada ao bem-estar dos gatos domésticos e pode influenciar de forma direta e indireta como o felino interage com o ambiente.
Conhecer a etologia e fisiologia da espécie, o mecanismo de ação das abordagens medicamentosas e não medicamentosas, bem como suas possíveis interações é primordial para um bom tratamento. Toda abordagem multimodal deve levar em conta as técnicas MEMO, cinco pilares e manejos amigáveis ao gato.
Conclusão
O tratamento integrado a partir da utilização de fármacos apropriados, abordagem nutricional e reabilitação é essencial para o sucesso do tratamento da dor associada ao bem-estar.
Além disso, é importante investigar a influência da dor em casos diagnosticados como alopecia psicogênica, visto que a paciente só teve o quadro estabilizado após intensificação no tratamento de dor, mesmo não apresentando alterações em escala Grimace significativas.
Escrita por Julyenne Christynne Escrivani Frasnelli, médica-veterinária pós-graduada em Medicina Felina pelo Qualittas, veterinária Cat Friendly pela AAFP, profissional certificada Fear Free Professional e em comportamento felino avançado pela ISFM, mestre pela UFSCar e docente de pós-graduação em Medicina Felina
