Discretos e até misteriosos, os felinos demonstram dor de maneira mais sútil do que os cães, mas isso não quer dizer que eles não sofram com sensações dolorosas.
Em situações desconfortáveis, é comum que esses animais apresentem mudanças de comportamento, que nem sempre fazem os responsáveis – e, em alguns casos, os médicos-veterinários – desconfiarem que o problema é, justamente, a dor.
De modo geral, é normal que ao sentir dor os gatos reduzam o nível de atividade, interajam menos com a família, se isolem, modifiquem o padrão de alimentação e deixem de realizar atividades que antes eram parte da rotina, como subir em móveis, explorar o ambiente ou brincar.
O problema é que, muitas vezes, o responsável percebe essas mudanças, mas não as associa à dor, visto que ocorrem de forma gradual.
“Além disso, existem alterações mais sutis que passam despercebidas com facilidade. Mudanças na postura, olhar mais fechado, orelhas lateralizadas, tensão corporal, vocalização diferente do habitual ou até episódios de agressividade são sinais importantes e que precisam ser valorizados na consulta”, afirma Lucas Pimentel Cardoso, médico-veterinário especializado em Anestesiologia Veterinária pela FMVZ-USP e em Tratamento da Dor e Cuidados Paliativos pelo PAV-SP, mestre em Ciências da Saúde e professor de pós-graduação nas áreas de Dor, Anestesiologia e Cuidados Paliativos.
Inclusive, é comum que a dor crônica também se apresente de maneira leve e progressiva. Na prática, segundo o profissional, em muitos casos ela só se torna visível no ambiente domiciliar, ou seja, longe do consultório veterinário.
Durante os atendimentos, o animal ainda consegue ter um comportamento mais próximo do normal, devido ao estresse e a hipervigilância desencadeados pela situação.
Por conta disso, o responsável possui um papel central na identificação precoce dos sinais de dor.
“A literatura reforça que o subdiagnóstico da dor em gatos ainda é um problema relevante, principalmente porque esses sinais são mais discretos e facilmente confundidos com comportamento normal ou com o processo de envelhecimento. Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para oferecer um cuidado adequado a esses pacientes”, afirma Cardoso.

Escalas de dor em gatos
Ao reconhecer os desafios, aos poucos foram surgindo escalas validadas para avaliar a dor em felinos.
Lucas explica que, atualmente, essas ferramentas são direcionadas a dois grandes grupos: escalas aplicadas pelo médico-veterinário e escalas baseadas na percepção do responsável.
Contudo, é preciso destacar que nenhuma escala deve ser utilizada isoladamente.
De acordo com o médico-veterinário, as diretrizes reforçam que a avaliação da dor em gatos deve combinar observação clínica, ferramentas estruturadas e percepção do responsável.
Logo, quando se integra esses três pontos, a chance de reconhecer e tratar a dor de forma adequada aumenta muito.
Dentre as alternativas disponíveis estão a Feline Grimace Scale, a escala multidimensional da UNESP-Botucatu, a Feline Musculoskeletal Pain Index (FMPI), a Client-Specific Outcome Measures (CSOM) e a Musculoskeletal Pain Screening Checklist (MIpsc).
- Feline Grimace Scale: é uma das mais utilizadas na prática clínica, principalmente, para dor aguda. Se baseia na avaliação da expressão facial do animal, analisando cinco unidades de ação: posição das orelhas, fechamento dos olhos, tensão do focinho, posição dos bigodes e posicionamento da cabeça. Se destaca por ser rápida, objetiva e fácil de aplicar no dia a dia;
- Escala multidimensional da UNESP-Botucatu: fornece uma avaliação mais ampla, considerando o comportamento, resposta à palpação, nível de atividade, postura e interação com o ambiente. É considerada mais completa e sensível, sendo útil em pacientes internados, especialmente, no pós-operatório e permite acompanhar a evolução da dor ao longo do tempo, o que auxilia no ajuste terapêutico.
- Feline Musculoskeletal Pain Index (FMPI): é uma das principais escalas e avalia o impacto da dor na função do gato. Possui perguntas relacionadas a mobilidade, capacidade de saltar, subir em móveis e correr e realizar atividades do dia a dia. Consegue captar aspectos que, muitas vezes, não aparecem nas consultas, mas estão evidentes no ambiente domiciliar;
- Client-Specific Outcome Measures (CSOM): segue uma lógica parecida a da FMPI, mas tem o diferencial de ser individualizada. Para executá-la, o responsável pelo felino define quais atividades são relevantes para o seu animal e, a partir disso, acompanha a evolução. Isso torna a avaliação mais personalizada e sensível a mudanças clínicas ao longo do tratamento.
- Musculoskeletal Pain Screening Checklist (MIpsc): é uma ferramenta de triagem, que ajuda a identificar, de forma prática, sinais iniciais de dor musculoesquelética, principalmente em gatos mais velhos. É muito útil na rotina clínica, visto que auxilia pacientes que ainda não possuem um diagnóstico conclusivo.
Analgesia multimodal como ferramenta
A analgesia multimodal consiste no uso combinado de diferentes fármacos e/ou técnicas analgésicas capazes de atuar em pontos distintos da via da dor. Seu objetivo é melhorar o controle analgésico e aumentar a segurança do tratamento.
“Para entender por que isso faz sentido é importante lembrar que a dor não acontece em um único lugar. Ela envolve uma sequência de etapas: começa na periferia com a ativação dos nociceptores, segue pela transmissão do estímulo até a medula espinhal, sofre modulação ao longo desse trajeto e, por fim, é percebida no sistema nervoso central (encéfalo)”, esclarece Cardoso.
Cada uma dessas etapas envolve mediadores e receptores diferentes. Deste modo, ao usar apenas um fármaco atinge-se somente uma parte desse processo. Já na analgesia multimodal, estratégias combinadas atuam em vários níveis ao mesmo tempo.
Lucas comenta que, na prática, pode-se, por exemplo, associar um anti-inflamatório não esteroidal (AINE) para reduzir inflamação periférica, um opioide para modular a percepção central da dor, um anestésico local para bloquear a transmissão do estímulo e, em alguns casos, fármacos, como a gabapentina, para atuar na sensibilização central.
“A finalidade da analgesia multimodal é, justamente, interromper essa cascata em diferentes níveis, proporcionando um controle mais eficaz e mais consistente da dor”, pontua.
Outro benefício da técnica é o chamado efeito poupador. Como nela são utilizados diferentes mecanismos de ação, é possível reduzir a dose individual de cada fármaco. Assim se diminui o risco de efeitos adversos e torna-se o tratamento mais seguro.
O profissional ainda destaca que a abordagem deve ser utilizada de forma precoce. As diretrizes atuais enfatizam que o ideal é um manejo preventivo da dor, ou seja, iniciar analgesia antes ou no início do estímulo nocivo, reduzindo a sensibilização do sistema nervoso e melhorando o desfecho do paciente.
“Ao invés de pensar em um único analgésico, passamos a pensar em quais mecanismos de dor estão envolvidos naquele paciente e como podemos atuar de forma combinada para tratar a dor de maneira mais eficiente”, afirma.
