Formar um médico-veterinário é formar um profissional que cuida da saúde de todas as espécies, inclusive a humana. Que atua no controle de zoonoses, na vigilância sanitária, na produção de alimentos seguros, na preservação ambiental, na pesquisa científica e no bem-estar de milhões de animais. Exige conhecimento técnico profundo, responsabilidade ética e habilidades práticas que não podem ser ensinadas por tela.
Diante disso, o avanço do ensino semipresencial e a autorização de cursos a distância em Medicina Veterinária nos impõem uma pergunta inquietante: a quem interessa a formação sem qualidade?
Não interessa à sociedade, que corre o risco de ser atendida por profissionais despreparados. Não interessa aos estudantes, que investem tempo, recursos e sonhos em uma formação precária. Não interessa aos animais, cujas vidas estarão nas mãos de quem talvez nunca pisou em um hospital veterinário. Não interessa ao Brasil, que precisa de profissionais capacitados para atuar nos desafios sanitários, ambientais e produtivos de um país continental.
Apresentamos ao MEC um diagnóstico sobre os cursos de Medicina Veterinária no Brasil. O documento revelou que mais da metade dos cursos apresenta problemas graves de infraestrutura, bibliotecas, laboratórios e quadros docentes. Ainda assim, seguem sendo autorizados.

Hoje, o MEC registra 665 cursos de Medicina Veterinária, sendo que 28 deles já funcionam de forma semipresencial, somando mais de 36 mil vagas. E o quadro pode piorar: dez novas instituições estão autorizadas a ofertar a modalidade híbrida. Duas delas com mais de 8,5 mil vagas cada. Ao todo, 23 mil novas vagas podem ser abertas de imediato. Isso significa que três em cada dez futuros médicos-veterinários no Brasil poderão se formar sem estarem plenamente presentes na prática.
Não somos contra a inovação. Somos contra o improviso. A tecnologia deve ser aliada do ensino, mas jamais substituta da vivência prática. Não se aprende a conter um animal agressivo, a operar, a fazer necropsia ou inspeção sanitária por meio de simuladores ou PDFs. Não podemos admitir que o ensino da Medicina Veterinária seja tratado como commodity. Ensino não é produto. É compromisso com a vida. É um pacto com a saúde coletiva.
Por isso, defendemos a urgente revisão dos critérios de autorização de cursos, o fortalecimento da regulação pública do ensino superior e a proibição da modalidade a distância ou semipresencial para cursos da área da saúde, como já ocorre em países desenvolvidos. O CFMV seguirá vigilante, atuando com base na ética, na ciência e no interesse público. Saúde não espera download. Medicina Veterinária também é Medicina.
