Quem convive com alergia a cães ganhou uma nova perspectiva na Medicina Veterinária e na biotecnologia. Pesquisadores da empresa norte-americana Kindred Companion Sciences conseguiram, pela primeira vez, utilizar a técnica de edição genética para criar cães nascidos sem a proteína Can f 1, a principal causadora de reações alérgicas em humanos.
A prova de conceito do estudo resultou no nascimento de duas fêmeas da raça Beagle, batizadas de Alfie e Bailey, que vivem de forma saudável com seus responsáveis nos Estados Unidos.
A reação alérgica a caninos não é provocada primariamente pelos pelos, mas sim por proteínas presentes na saliva e nas glândulas sebáceas dos animais. Como os cães se lambem frequentemente, essas substâncias se espalham pela pelagem e pela caspa.
Em pessoas sensíveis, o sistema imunológico identifica a proteína Can f 1 como uma ameaça, gerando anticorpos IgE que desencadeiam espirros, coceira e crises respiratórias. Ao nocautear o gene responsável por essa proteína, a pesquisa atacou a origem do problema.
Entenda a tecnologia CRISPR e o processo de clonagem
Para eliminar o alérgeno, a equipe não realizou modificações em cães adultos nem utilizou cruzamentos seletivos tradicionais. A intervenção ocorreu em células fetais utilizando o CRISPR-Cas9, uma ferramenta biotecnológica que atua como uma tesoura molecular de precisão.
O sistema utilizou uma molécula de RNA para guiar a enzima Cas9 até o trecho exato do DNA do animal, realizando um corte no gene da Can f 1 que impediu a síntese e a fabricação da proteína.
Após a edição genética em nível celular, os cientistas aplicaram a técnica de transferência nuclear de célula somática — a mesma metodologia de clonagem utilizada no histórico caso da ovelha Dolly — para gerar os embriões. As duas filhotes nasceram com peso normal e mantêm desenvolvimento físico e comportamental adequado, sem alterações detectadas nos exames de rotina.

Testes em humanos e os próximos passos para a comercialização
Para comprovar a eficácia da edição, os pesquisadores realizaram testes cutâneos (prick test) utilizando extratos dos animais editados em um voluntário humano com diagnóstico prévio de alergia severa a cães. O teste com a amostra dos animais modificados não gerou nenhuma reação alérgica ou inflamatória na pele do paciente.
Apesar dos resultados promissores e do pedido de patente encaminhado pela empresa, a comunidade científica ressalta que a tecnologia ainda está em fase experimental.
Para que cães hipoalergênicos cheguem ao mercado consumidor, serão necessários novos estudos com amostragem ampliada de voluntários humanos, além do acompanhamento veterinário de longo prazo para garantir a saúde global dos animais clonados.
Fonte: g1, adaptado pela equipe Cães&Gatos.

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