A esporotricose felina tem se consolidado como um dos principais desafios sanitários urbanos no Brasil, especialmente em regiões com grande número de gatos sem acesso regular a acompanhamento veterinário.
Além do impacto sobre os animais, a enfermidade preocupa por ser zoonose e apresentar alta capacidade de disseminação.
Causada por fungos do gênero Sporothrix, a doença provoca lesões cutâneas que podem evoluir rapidamente.
“É um grave problema de saúde pública. Para se ter uma ideia, o fungo já se tropicalizou e gerou uma espécie 100% nacional, a Sporothrix brasiliensis, que é muito mais transmissível e já está se espalhando para fora do Brasil. A esporotricose é infecciosa e agressiva. Os gatos são as principais vítimas e os potenciais transmissores”, afirma o professor titular de medicina-veterinária da Universidade Paulista (UNIP), Carlos Brunner.
Segundo ele, as lesões costumam iniciar como nódulos e podem evoluir para úlceras abertas com secreção.
“Essas feridas não cicatrizam facilmente e tendem a se espalhar pelo corpo. O tratamento com antifúngico é demorado e muitas vezes não traz os resultados esperados”, explica.
No início deste ano, o Ministério da Saúde incluiu a esporotricose humana na lista de doenças de notificação obrigatória. O controle em animais segue sob responsabilidade das vigilâncias estaduais e municipais.
Na capital paulista, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) divulgou, em 2024, um mapa da doença por bairros. Foram notificados 3.368 casos em gatos, aumento superior a 300% em relação a 2020. Os dados de 2025 ainda não foram publicados.
Custo elevado e impacto social
O avanço da esporotricose também gera impacto financeiro significativo. De acordo com o Instituto Pet Brasil (IPB), o país possui mais de 30 milhões de gatos domésticos. Muitos têm acesso às ruas, ambiente onde a transmissão ocorre com facilidade.
Nelson Castanheira Júnior relata que passou a lidar com a doença ao observar diversos animais com feridas graves no condomínio onde mora, na Granja Viana, em São Paulo.
“Falei com a veterinária que cuidava dos meus animais e ela me explicou sobre a doença, disse que estava fora de controle”, conta.
Ele decidiu acolher e tratar felinos doentes por conta própria.
“Só de medicamentos, cada animal consome cerca de 300 reais por mês. O tratamento leva de quatro a seis meses. Faça a conta e veja quanto isso pesa em um orçamento. Não é à toa que muitos deixam os animais morrerem”, afirma.
Risco de transmissão a humanos
A proximidade com animais infectados também pode resultar em contaminação humana. A pet sitter Thay Ribeiro relata que contraiu a doença após ser mordida por uma gata em tratamento.
“A gatinha era um amor, chamava-se Amora. Ministrei antifúngicos durante um mês, enquanto procuravam algum lugar para acolhê-la. Nesse meio tempo, ela me mordeu e eu contraí a doença”, afirma.
Thay realizou tratamento por vários meses e hoje está curada, embora relate sequelas.
Nova estratégia terapêutica
Diante das limitações da terapia convencional, uma alternativa tecnológica começa a ser utilizada no país.
Um equipamento desenvolvido pela startup brasileira Akko Health Devices, sob liderança de Carlos Brunner, utiliza a técnica de eletroporação para atuar diretamente sobre o fungo.
“Há muitos medicamentos no comércio, alguns funcionam bem e outros nem tanto. Infelizmente isso só é descoberto depois de meses de tentativa de tratamento, com risco de concluir que foi inútil. Cada dia de prolongamento aumenta a chance de transmissão a outros gatos e às pessoas”, explica Brunner.
Segundo o pesquisador, a técnica promove a formação de poros irreversíveis na estrutura celular do fungo, levando-o à morte, enquanto preserva o tecido saudável do animal.
O método exige menor manipulação, pode reduzir o tempo de tratamento e apresenta bons resultados em casos resistentes.
Nelson relata que utilizou o equipamento no tratamento de um de seus gatos.
“Foram duas sessões e o resultado foi incrível, o Gatão ficou curado”, afirma.
Fonte: Totum Comunicação, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre avanço de casos de esporotricose
A esporotricose pode ser transmitida para humanos?
Sim. Trata-se de uma zoonose, especialmente em casos de arranhões ou mordidas.
O tratamento é longo?
Pode durar de quatro a seis meses com antifúngicos convencionais.
Existe alternativa à medicação tradicional?
Sim. Técnicas como a eletroporação vêm sendo utilizadas em casos específicos.
