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Esporotricose felina avança e causa alerta sanitário

Zoonose associada principalmente a gatos cresce em diferentes regiões do país e exige prevenção, diagnóstico precoce e manejo adequado

Esporotricose felina avança e causa alerta sanitário
Por Danielle Assis
21 de março de 2026

A esporotricose deixou de ser um problema unicamente veterinário e, devido a sua franca expansão, está causando um alerta à saúde pública. 

Essa zoonose, causada por fungos dimórficos do gênero Sporothrix, pertencentes ao complexo Sporothrix schenckii, costuma estar associada aos felinos domésticos, mas também pode acometer outras espécies de animais e os seres humanos.

“Trata-se de uma doença zoonótica, classificada tradicionalmente como micose cutânea e subcutânea. Porém, é capaz de evoluir para formas extra cutâneas e sistêmicas, com disseminação hematógena ou linfática, podendo acometer órgãos, como pulmões, fígado, baço, ossos e sistema nervoso central”, explica a médica-veterinária pós-graduada em Clínica Médica de Felinos e sócia-proprietária do consultório veterinário exclusivo para gatos My Cat, Nayara Cristina de Oliveira Fazolato.

A esporotricose humana teve um aumento expressivo de casos nos últimos anos, levando o Ministério da Saúde a incluí-la na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública. 

Com essa mudança, tanto a rede pública, quanto a rede privada de saúde, deve realizar a notificação semanal dos casos confirmados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). 

Para Paulo Abílio Varella Lisboa, médico-veterinário, mestre e doutor em Ciências Veterinárias e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Jessika Caroline Ferreira da Silva, médica-veterinária pós-graduada em Medicina Felina e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, e Romeu Luiz de Podestá Júnior, MSc. PhD, médico-veterinário da Secretaria de Meio Ambiente de Vitória (ES), em 2025, houve um crescimento nos casos de esporotricose felina em diversas regiões do Brasil. 

“Os municípios mais afetados foram Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG), considerados hiperendêmicos e, historicamente, epicentros da enfermidade, além das cidades de Manaus (AM), Curitiba (PR), Florianópolis (SC) e, mais recentemente, Canoas e Porto Alegre (RS). O Amazonas registrou quase cinco mil casos no ano passado e em Santa Catarina foram contabilizados mais de 800, entre humanos e felinos”, relatam.  

No entanto, a esporotricose animal não é classificada como doença de notificação obrigatória. Com isso, não é possível definir com precisão o total de casos na Medicina Veterinária. 

De acordo com os profissionais, mesmo assim, alguns estados e municípios adotaram a notificação compulsória por meio de legislação própria. Dentre eles: 

  • Santa Catarina (SC): a notificação de casos em animais é compulsória por legislação estadual; 
  • Sergipe (SE): uma lei estadual sancionada em 2025 torna obrigatória a notificação de casos suspeitos e confirmados de esporotricose em animais aos serviços de vigilância em saúde municipais e estadual;
  • Paraná (PR): o estado possui diretrizes e alertas sobre a doença, com a notificação recomendada ou obrigatória a nível local/regional.
  • São Paulo (SP): no município de São Paulo a notificação de casos de esporotricose animal é obrigatória desde 2022 por meio de nota técnica específica;
  • Espírito Santo (ES): possui protocolos de vigilância e manejo clínico, que preveem a notificação, embora a obrigatoriedade legal possa depender de regulamentações específicas; 
  • Rio de Janeiro (RJ): apesar da notificação ser obrigatória no município do Rio de Janeiro há mais de 10 anos, a notificação no estado somente foi incorporada em 2025.

Independentemente disso, Fazolato relata que há evidências do aumento expressivo de casos nos últimos anos, cenário esse associado à urbanização da doença, à circulação de Sporothrix brasiliensis, ao acesso irrestrito dos gatos à rua, à ausência de castração e ao manejo inadequado dos animais infectados.

Patógenos e seus riscos 

A espécie de fungo do complexo Sporothrix causadora da esporotricose mais comum no Brasil é a Sporothrix brasiliensis.

“Esta espécie é um patógeno emergente e tem sido a principal responsável pela epidemia da doença no país, que se espalhou por quase todos os estados brasileiros, com destaque para a transmissão zoonótica, principalmente por meio de gatos infectados”, citam os médicos-veterinários. 

Embora a Sporothrix schenckii seja classicamente conhecida como a causa global da enfermidade, ao avaliar o contexto brasileiro atual, a S. brasiliensis é a espécie predominante e de maior preocupação para a saúde pública.

Segundo Nayara, a infecção ocorre, principalmente, pela inoculação traumática do fungo na pele através de feridas, arranhões ou mordidas.

“Em felinos, além do contato com o ambiente contaminado, a transmissão direta entre animais é altamente relevante, especialmente durante brigas, devido à elevada concentração de leveduras viáveis nas lesões cutâneas”, explica.

Ainda conforme a veterinária, entre os gatos a transmissão direta durante brigas, mordidas e arranhões é considerada a principal via, devido à elevada carga fúngica presente nas lesões.

Por outro lado, em humanos, a infecção está associada ao manejo de gatos infectados ou suspeitos sem o uso de equipamentos de proteção e, também, pelo ambiente através de solo contaminado.

Logo, dentre os principais riscos e desafios da esporotricose estão: 

  • Alta transmissibilidade, especialmente no ambiente domiciliar e urbano;
  • Evolução para formas disseminadas e sistêmicas;
  • Longo período de tratamento antifúngico;
  • Impacto em saúde pública devido ao caráter zoonótico;
  • Abandono e eutanásia indevida dos animais infectados motivados por desinformação.

Felinos domésticos são a ponta do iceberg 

Nos centros urbanos, o gato doméstico desempenha um papel central na epidemiologia da doença, apresentando alta carga fúngica nas lesões. A maior incidência é em animais de rua ou abandonados em locais públicos. 

As manifestações clínicas variam de acordo com a forma da doença, sendo mais frequentes lesões cutâneas ulceradas, nodulares ou crostosas, que levam a comprometimento predominante de face, plano nasal, pavilhões auriculares e membros.

“Embora a forma mais comum seja a cutânea, considerada benigna e curável, existem outras apresentações mais complexas, que oferecem maiores riscos, como a nasal e a respiratória”, relatam os médicos-veterinários.

Nas formas mais graves pode ocorrer o desenvolvimento de linfadenopatia, sinais sistêmicos, como emagrecimento, apatia e febre, e comprometimento extra cutâneo, incluindo envolvimento respiratório, ósseo e visceral. 

Já em seres humanos, conforme relatam Paulo, Jessika e Romeu, os principais riscos da esporotricose estão relacionados à possibilidade de a infecção se tornar disseminada e afetar órgãos internos, o que pode levar a quadros graves e, em casos raros, ser fatal, especialmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido.

Confira o artigo completo “Esporotricose felina avança e causa alerta sanitário “, na íntegra e sem custo, acessando a página 16 da edição de março (nº 319) da Revista Cães e Gatos.