Com diferentes níveis de gravidade, a pancreatite é uma doença caracterizada pela inflamação do pâncreas exócrino. Essa explicação quem nos dá é a médica-veterinária do Hospital Veterinário Taquaral (HVT), Isabella Amaral.
De acordo com a profissional, o grande ponto de atenção da enfermidade é que ela desencadeia uma cascata de alterações capazes de afetar não apenas o próprio órgão, mas também tecidos vizinhos.
“Nos animais, assim como em humanos, pode se manifestar de forma aguda – quando os sinais aparecem repentinamente – ou crônica, em que há episódios recorrentes e progressivos de inflamação”, pontua.
Inclusive, diversos fatores podem predispor ao desenvolvimento da pancreatite. Dentre eles, Isabella exemplifica:
- Doenças gastrointestinais prévias: aumentam a predisposição inflamatória;
- Hipertrigliceridemia: favorece o acúmulo de gordura e a inflamação pancreática;
- Uso de determinados fármacos: como brometo de potássio e corticosteróides;
- Obesidade: contribui para desregulação metabólica;
- Fatores nutricionais: dietas ricas em gordura ou ingestão de alimentos inapropriados;
- Endocrinopatias: como hiperadrenocorticismo, hipotereoidismo e diabetes mellitus.
Por falar em alimentação, ela é um dos aspectos que mais contribui para o surgimento da pancreatite, especialmente em cães.
“Dietas ricas em gordura ou a ingestão de alimentos inadequados pode desencadear episódios de inflamação pancreática, tanto em animais predispostos quanto naqueles sem histórico prévio. Os alimentos com maior risco para o desenvolvimento da pancreatite são carnes gordurosas, preparações temperadas ou condimentadas, doces e sobremesas”, relata.
Manifestação da doença
Segundo a médica-veterinária, a pancreatite aguda apresenta diferenças importantes entre espécies, sendo mais comum em cães do que em gatos. Nos felinos, é observada com maior frequência na forma crônica.
“Nos cães, a doença tende a acometer animais de meia-idade a idosos, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária. Algumas raças apresentam maior predisposição ao seu desenvolvimento, como o schnauzer miniatura, yorkshire terrier, cocker spaniel, dachshunds e outras raças terrier”, esclarece.
Com relação aos sinais clínicos, Amaral informa que eles são inespecíficos e os animais que possuem a enfermidade podem ter apetite seletivo, letargia, vômito, náusea, diarreia e dor abdominal.
Por conta dessa característica, não é fácil de chegar a um diagnóstico da doença. Ainda segundo a veterinária, o padrão-ouro é a biópsia pancreática, que é capaz de confirmar a presença da doença e distinguir se o quadro é agudo ou crônico.
“Todavia, esse recurso raramente é utilizado na rotina clínica por se tratar de um procedimento invasivo, oneroso e com risco de complicações no pós-operatório. Com isso, no dia a dia, o diagnóstico da pancreatite aguda é estabelecido a partir da avaliação integrada dos sinais clínicos, exame físico, exames laboratoriais de sangue e imagem (ultrassonografia abdominal)”, cita.

Tratamento varia conforme a apresentação clínica
Isabella comenta que o tratamento da pancreatite aguda é baseado em medidas de suporte.
Ele inclui controle da dor, da náusea e dos vômitos, alimentação adequada introduzida de forma gradual com dietas específicas e de fácil digestibilidade e reidratação por meio de fluidoterapia para corrigir desequilíbrios hídricos e eletrolíticos.
“O uso de antibióticos e corticosteroides no tratamento enfermidade deve ser restrito e criterioso. De modo geral, esses fármacos não fazem parte da rotina terapêutica, sendo indicados apenas em situações específicas, como na suspeita de infecção secundária ou diante de comorbidades associadas. A decisão sobre sua utilização deve sempre ser individualizada para cada paciente”, recomenda.
Além disso, em algumas situações pode ser necessária a intervenção cirúrgica. De acordo com a profissional, a cirurgia é indicada em casos de formação de abscessos ou pseudocistos pancreáticos, necrose pancreática extensa com infecção secundária e obstrução do ducto biliar ou do duodeno associada à inflamação.
“Por se tratar de um procedimento invasivo, de alto risco e com prognóstico reservado, a indicação cirúrgica deve ser cuidadosamente avaliada. Muitas vezes, a tomografia computadorizada é fundamental para identificar complicações e definir com precisão a necessidade da intervenção”, afirma.
Dessa forma, Amaral pontua que animais com sintomatologia discreta, mantendo-se estáveis e com boa aceitação alimentar, podem receber tratamento de forma ambulatorial com dieta e hidratação adequadas, uso de medicações e acompanhamento veterinário próximo.
“No entanto, é importante destacar que, na grande maioria dos casos, a pancreatite exige internação, uma vez que a monitorização intensiva e o suporte hospitalar são fundamentais para controlar complicações e garantir a recuperação do paciente”, finaliza.
FAQ sobre a pancreatite em cães e gatos
Como prevenir a doença?
A principal forma de prevenir a pancreatite é o manejo nutricional correto através da oferta de dietas balanceadas e de qualidade, evitando restos de comida caseira, doces e alimentos contra indicados para os pets. Também deve-se manter o animal com peso corporal adequado e realizar check-ups periódicos.
É possível curar a pancreatite?
Quando a doença está associada a fatores predisponentes individuais, como alterações metabólicas, obesidade ou doenças concomitantes, ela não tem cura. Após um episódio, é possível que o animal volte a desenvolver novas crises, principalmente se mantiver hábitos alimentares inadequados ou se houver doenças de base não controladas.
Como deve ser a alimentação dos animais com pancreatite?
Animais com pancreatite aguda, que apresentem anorexia persistente, náuseas intensas ou vômitos recorrentes, podem receber suporte nutricional através de sondas enterais (nasoesofágica ou esofágica). Por outro lado, os que estão comendo por conta própria devem ser alimentados com dietas altamente digestíveis, com proteína de boa qualidade e fracionadas em várias pequenas refeições ao longo do dia.
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