Apesar de frequentemente serem vistos como pragas ou ameaças, os gambás são, na verdade, grandes aliados da natureza e essenciais para o equilíbrio ambiental.
Conhecer os hábitos e a importância da espécie é fundamental para compreender que esses discretos mamíferos, muitas vezes ignorados ou temidos, são peças-chave na manutenção dos ecossistemas.
Os gambás são mamíferos do gênero Didelphis, pertencentes à ordem Didelphimorphia. Embora pertençam a grupos taxonômicos diferentes, eles são marsupiais, assim como os cangurus e os coalas.
Isso significa que, após o nascimento, os filhotes migram para uma bolsa externa presente nas fêmeas, chamada marsúpio, onde permanecem até completarem o seu desenvolvimento.
Sua anatomia óssea se assemelha à de outros mamíferos, exceto pela presença dos ossos epipúbicos, e acredita- se que uma de suas funções esteja relacionada à proteção do marsúpio.
O nascimento dos filhotes coincide com a época mais favorável do ano – a primavera –devido às condições climáticas e à maior disponibilidade de alimento. Por isso, esse período ficou conhecido como “época de filhotes” entre biólogos, médicos- veterinários e tratadores que trabalham com animais silvestres.
Existem seis espécies descritas no continente americano, quatro delas ocorrem no Brasil e estão presentes em todos os biomas e regiões.
São encontrados do sul do Canadá ao sul da Argentina e o gambá-da-Virgínia (Didelphis virginiana) é a única espécie com ocorrência em regiões temperadas da América do Norte.
Possuem hábitos solitários, arborícolas, predominantemente noturnos e, ocasionalmente, crepusculares. Têm alimentação variada, sendo considerados oportunistas e generalistas.
Esses animais contribuem ativamente para o equilíbrio ecológico, desempenhando um papel importante como dispersores de sementes – atuando no reflorestamento – e controladores de pragas, já que se alimentam de insetos e animais peçonhentos. Além disso, auxiliam na “limpeza” do meio ambiente ao se alimentarem de carcaças.
Os gambás também participam da epidemiologia de diversas doenças parasitárias, atuando como reservatórios e disseminadores de parasitas, como artrópodes, helmintos e protozoários.
Devido às alterações ambientais – como a destruição dos habitats naturais e a expansão desordenada dos centros urbanos – muitos animais silvestres acabam se aproximando das cidades em busca de abrigo e alimento.
Os que conseguem se adaptar a viver em ambientes modificados pelo ser humano são chamados de “animais sinantrópicos”. Essa aproximação aumenta o contato entre a fauna silvestre, os animais domésticos e as pessoas, o que pode facilitar a disseminação de patógenos zoonóticos.
As atividades humanas que causam danos ao meio ambiente também impactam a epidemiologia das doenças infecciosas ao alterar a distribuição geográfica dos vetores responsáveis pela transmissão de patógenos.
Os gambás sofrem considerável pressão antrópica e, devido à sua capacidade de adaptação, são comumente encontrados em ambientes urbanos e periurbanos, como telhados e quintais, onde acabam sofrendo ataques de animais domésticos e das próprias pessoas.
Por isso, estão entre as espécies mais frequentemente resgatadas em centros de triagens e conservação de fauna silvestre.
Rotular os gambás como ameaça é esquecer que a presença deles nas cidades é um reflexo direto das transformações impostas pelo homem à natureza. Somos nós que invadimos seus habitats naturais e os deixamos desabrigados, obrigando-os a se deslocar para centros urbanos em busca de abrigo e alimento.
A adaptação desses animais a tais ambientes revela, ao mesmo tempo, a resiliência da espécie e o desequilíbrio que causamos ao meio ambiente.
Escrita por Stephany Rocha Ribeiro, graduada em Medicina Veterinária pela UNISA e mestra em Animais Selvagens pela UNESP, além de especialista em Manejo e Conservação da Fauna Silvestre pela UNISA. Atua na área de clínica médica e internação de pets não convencionais.
