A introdução da alimentação úmida na rotina de cães e gatos é uma excelente estratégia para aumentar a ingestão hídrica e tornar as refeições mais palatáveis (1,2). No entanto, ao ler o rótulo dos sachês, responsáveis por pets frequentemente se deparam com ingredientes de nomes complexos. Entre eles, está a goma xantana, cujo uso passou recentemente a gerar questionamentos nas redes sociais.
A goma xantana é um polissacarídeo, ou seja, várias moléculas de açúcar unidas, obtido por meio da fermentação de carboidratos realizada por bactérias da espécie Xanthomonas campestris (3).
O debate sobre a segurança do uso da goma xantana ganhou força após a repercussão de um estudo experimental conduzido com ratos por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgado pela Agência FAPESP.
A pesquisa apontou que a ingestão do aditivo em roedores esteve associada a alterações em alguns marcadores relacionados à inflamação intestinal (4). Contudo, há uma distância considerável entre a observação em um modelo experimental e a sua aplicação prática na rotina de cães e gatos saudáveis.
Nas redes sociais, achados experimentais podem se misturar de forma equivocada com um alerta médico real. Alguns autores associaram o desenvolvimento de enterocolite necrosante em neonatos humanos ao consumo de agentes espessantes à base de goma xantana adicionados diretamente a fórmulas infantis (5,6).
Essa correlação surgiu após relatos de casos submetidos à U.S. Food and Drug Administration (FDA) em 2011 de bebês prematuros que desenvolveram enterocolite necrosante tardia após o uso ad libitum do espessante comercial SimplyThick, um produto originalmente desenvolvido para adultos com disfagia que foi administrado de forma off-label nas fórmulas lácteas desses recém-nascidos para controle de refluxo (5).
A hipótese levantada nesses casos clínicos específicos é que a imaturidade do intestino de recém-nascidos prematuros, combinada ao acúmulo de água, açúcares e ácidos graxos de cadeia curta gerados pela fermentação da goma xantana, poderia sobrecarregar o trato digestivo imaturo e desencadear uma cascata inflamatória (5,6).
Contudo, como reforça a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), os casos descritos de enterocolite necrosante não foram relacionados ao uso da goma xantana como aditivo alimentar incorporado durante o processo de fabricação de fórmulas infantis. Os casos envolveram a adição direta do produto espessante que continha goma xantana, seja ao leite materno ou à fórmula, sem quantidades definidas (3).

Avaliações de longo prazo realizadas em animais de laboratório, incluindo um estudo de dois anos em ratos e cães, não identificaram efeitos adversos associados à ingestão de goma xantana em doses de até 1.000 mg/kg de peso corporal por dia, a maior dose testada (7).
Em avaliações técnicas de seu uso como aditivo tecnológico em alimentos para animais, foram relatados níveis de inclusão da ordem de 0,01% a 1,0%, o que corresponderia, por exemplo, a aproximadamente 8,5 a 850 mg em um sachê de 85 g (8,9).
No âmbito regulatório internacional, a EFSA reavalia periodicamente o aditivo e conclui, com base nas evidências disponíveis, que ele não é absorvido de forma intacta pelo trato gastrointestinal, sendo apenas parcialmente fermentado pela microbiota local sem gerar riscos toxicológicos sistêmicos ou genotoxicidade (3).
Inclusive, a Federação Europeia da Indústria de Alimentos para Animais de Companhia (FEDIAF) tem atuado junto à EFSA para coordenar avaliações científicas e garantir a segurança do uso de aditivos como a goma xantana nas formulações comerciais (10).
Vale destacar que o uso da goma xantana é amplamente difundido na alimentação humana há décadas, sendo encontrada em diversos produtos como massas e panificados sem glúten, sorvetes, iogurtes, molhos, sopas instantâneas e produtos de confeitaria, com a finalidade tecnológica de estabilizar e conferir textura (11).
Para cães e gatos saudáveis, portanto, não há evidências disponíveis que indiquem motivo para preocupação com a presença de goma xantana nos alimentos úmidos comerciais, quando utilizada nas concentrações previstas para esses produtos.
Na indústria pet, a goma xantana é utilizada com função tecnológica de agente espessante, emulsificante e estabilizante em sachês e patês, garantindo a homogeneidade do molho e prevenindo a separação dos ingredientes. Nessas condições, seu uso é considerado seguro (8,9,12).
Em caso de dúvidas sobre rótulos ou se o animal apresenta sensibilidades gastrointestinais particulares, a orientação de um especialista em Nutrição e Nutrologia de cães e gatos é sempre o caminho mais seguro.
Referências:
- Thomas DG, Post M, Bosch G. The effect of changing the moisture levels of dry extruded and wet canned diets on physical activity in cats. J Nutr Sci. 2017 Apr 17;6:e9. doi:10.1017/jns.2017.9
- Kosmal PAL, Shoveller AK, Gillies G, Armstrong LE. Diet format, protein, amino acids, salt, and osmolytes, as well as water viscosity, affect water consumption in domestic cats: a scoping review of 32 publications (published from 1975 to 2025) on water intake, hydration status, and related health outcomes. J Anim Sci. 2026 Jan 8;104. doi:10.1093/jas/skaf434
- Younes M, Aquilina G, Castle L, Degen G, Engel K, Fowler PJ, et al. Re‐evaluation of xanthan gum (E 415) as a food additive in foods for infants below 16 weeks of age and follow‐up of its re‐evaluation as a food additive for uses in foods for all population groups. EFSA Journal. 2023 May 1;21(5). doi:10.2903/j.efsa.2023.7951
- Silva Rischiteli AB, Silva-Neto AF, Maza PK, Boldarine VT, Ribeiro DA, Moura CFG, et al. Xanthan gum intake modifies the colon microbiota profile and causes mild colon inflammation in rats. Alam S, editor. PLoS One. 2026 Apr 15;21(4):e0347232. doi:10.1371/journal.pone.0347232
- Beal J, Silverman B, Bellant J, Young TE, Klontz K. Late Onset Necrotizing Enterocolitis in Infants following Use of a Xanthan Gum-Containing Thickening Agent. J Pediatr. 2012 Aug;161(2):354–6. doi:10.1016/j.jpeds.2012.03.054
- Woods CW, Oliver T, Lewis K, Yang Q. Development of necrotizing enterocolitis in premature infants receiving thickened feeds using SimplyThick®. Journal of Perinatology. 2012 Feb 31;32(2):150–2. doi:10.1038/jp.2011.105
- Woodard G, Woodard ~ M W, Mcneely WH, Kovacs’ And ~ P, Cronin’ MTI, Woodard MW, et al. Xanthan Gum: Safety Evaluation by Two-Year Feeding Studies in Rats and Dogs and a Three- Generation Reproduction Study in Rats Xanthan Gum: Safety Evaluation by Two-Year Feeding Studies in Rats and Dogs and a ThreeiGeneration Reproduction Study in Rats. TOXICOLOGY AND APPLIED PHARMACOLOGY u. 1973.
- Villa RE, Azimonti G, Bonos E, Christensen H, Durjava M, Dusemund B, et al. Safety of a feed additive consisting of xanthan gum (produced with Xanthomonas campestris strains ATCC SD‐7012, DSM 23730, CNCM I‐4861 and ■■■■■ for all animal species with the exception of cats and aquatic species (BIOPOLYMER International). EFSA Journal. 2025 Jun 1;23(6). doi: 10.2903/j.efsa.2025.9466
- Bampidis V, Azimonti G, Bastos M de L, Christensen H, Dusemund B, Fašmon Durjava M, et al. Safety and efficacy of an additive consisting of xanthan gum produced by Xanthomonas campestris strains ■■■■■, ■■■■■ for all animal species (Biopolymer International). EFSA Journal. 2021 Jul 1;19(7). doi:10.2903/j.efsa.2021.6710
- FEDIAF. ANNUAL REPORT 2026 [Internet]. 2026 [cited 2026 Sep 6]. Available from: https://europeanpetfood.org/wp-content/uploads/2026/06/FEDIAF_Annual- Report_2026_WEBv1.1.pdf
- Garcı́a-Ochoa F, Santos VE, Casas JA, Gómez E. Xanthan gum: production, recovery, and properties. Biotechnol Adv. 2000 Nov;18(7):549–79. doi:10.1016/S0734-9750(00)00050-1
- Craig JM. Additives in pet food: are they safe? Journal of Small Animal Practice. 2021 Aug 9;62(8):624–35. doi:10.1111/jsap.13375

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