A alimentação natural para cães e gatos deixou de ser uma tendência de nicho para ganhar espaço na rotina de milhares de responsáveis.
Impulsionada pelas redes sociais e pela busca por mais qualidade de vida, a chamada humanização da alimentação incentiva o uso de ingredientes frescos e dietas personalizadas.
No entanto, quando feita sem orientação profissional, essa prática pode provocar desequilíbrios nutricionais, intoxicações e outros problemas de saúde.
Para a médica-veterinária Bruna Moreno Damiani, responsável pelo setor de Nutrologia do Hospital Veterinário Taquaral, o mais importante não é escolher entre alimentação natural ou industrializada, mas garantir que a dieta atenda às necessidades nutricionais do animal.
“O que determina a qualidade de uma dieta não é o fato de ela ser natural ou industrializada, mas sim se ela é nutricionalmente completa, balanceada, segura e adequada às necessidades individuais do animal”, afirma.
Segundo a profissional, a humanização da alimentação caracteriza-se por aproximar a dieta dos pets dos hábitos alimentares da família. Entre as práticas mais frequentes estão a substituição da ração por alimentos naturais, a oferta de refeições preparadas em casa, a busca por produtos orgânicos e integrais, o uso de suplementos e a adoção de dietas da moda, muitas vezes, baseadas em informações encontradas na internet.
Alimentação natural exige planejamento
Quando planejada por um médico-veterinário com atuação em Nutrologia, a alimentação natural pode trazer benefícios, como maior individualização da dieta, melhor palatabilidade e suporte ao tratamento de doenças renais, hepáticas, gastrointestinais, metabólicas e alergias alimentares.
Entretanto, Bruna alerta que muitas pessoas acreditam, de forma equivocada, que basta oferecer alimentos sem tempero para garantir uma dieta saudável.
“Se o alimento não for completo e balanceado será muito pior do que uma ração de baixa qualidade”, destaca.
O erro mais comum observado na rotina clínica é a elaboração de dietas caseiras sem orientação profissional.
Receitas simples, como arroz, frango e cenoura, costumam apresentar deficiências de minerais, vitaminas e ácidos graxos essenciais, favorecendo alterações ósseas, musculares, imunológicas e metabólicas, principalmente em animais em crescimento.
A profissional também chama atenção para o excesso de petiscos, o uso de suplementos destinados a humanos e a falsa ideia de que todo alimento natural é automaticamente saudável.
Outro ponto importante é que cães e gatos possuem necessidades nutricionais diferentes.
“Uma dieta que pode ser adequada para um cão pode ser insuficiente ou até prejudicial para um gato”, alerta a veterinária.
Enquanto os cães apresentam maior flexibilidade alimentar, os gatos são carnívoros obrigatórios e dependem de nutrientes específicos, como taurina, ácido araquidônico e vitamina A pré-formada.

Alimentos proibidos para pets
Alguns alimentos comuns na alimentação humana jamais devem ser oferecidos aos pets.
Chocolate, uvas, uvas-passas, cebola, alho, produtos com xilitol, bebidas alcoólicas, cafeína, nozes de macadâmia e ossos cozidos estão entre os principais responsáveis por intoxicações e outras complicações graves.
O chocolate contém teobromina e cafeína, substâncias tóxicas para cães e gatos. Já cebola e alho podem provocar anemia hemolítica, enquanto uvas e uvas-passas estão associadas à insuficiência renal aguda em cães.
Sobre o xilitol, presente em diversos produtos dietéticos, a médica-veterinária faz um alerta.
“O xilitol pode provocar hipoglicemia grave e, em alguns casos, insuficiência hepática aguda em cães. Sua ingestão é considerada uma emergência veterinária”, comenta.
Os ossos cozidos também oferecem riscos, pois podem se fragmentar e causar perfurações ou obstruções no trato digestório.
Sinais de desequilíbrio nutricional
Nem sempre uma dieta inadequada provoca sinais imediatos. Segundo Bruna, muitos desequilíbrios permanecem silenciosos durante meses ou anos, sendo identificados apenas em exames laboratoriais ou durante a avaliação clínica.
Entre os principais sinais de alerta estão ganho ou perda de peso, redução da massa muscular, pelagem opaca, dermatites recorrentes, alterações gastrointestinais, mudanças no apetite, menor disposição e maior predisposição a infecções.
“Grande parte dos desequilíbrios nutricionais permanecem subclínicos durante meses ou anos, sendo detectados apenas por meio de exames laboratoriais ou da avaliação clínica”, sustenta.

Mitos sobre alimentação dos pets
Embora as redes sociais tenham despertado maior interesse pela nutrição animal, elas também contribuíram para a disseminação de informações sem respaldo científico.
“Frases como ‘essa ração intoxica’, ‘esse alimento cura doenças’ ou ‘todos os veterinários escondem essa informação’ costumam gerar grande engajamento, mas raramente refletem o consenso científico”, explica a veterinária.
Entre os mitos mais comuns estão a ideia de que toda alimentação natural é superior à industrializada, que toda ração faz mal ou que dietas cruas são sempre mais saudáveis. De acordo com Bruna, essas práticas podem representar riscos quando não há planejamento nutricional e controle sanitário.
A profissional reforça que conceitos populares na alimentação humana, como dietas detox, jejum prolongado ou restrições alimentares, não devem ser aplicados automaticamente a cães e gatos.
Para quem deseja diversificar a alimentação dos pets, a recomendação é buscar orientação profissional antes de qualquer mudança.
“É perfeitamente possível enriquecer a alimentação de cães e gatos com alimentos frescos e diferentes texturas, desde que isso seja feito de forma planejada e respeitando as necessidades nutricionais de cada espécie”, pontua.
Para Bruna, o problema não está em oferecer alimentos frescos, mas em reproduzir hábitos alimentares humanos sem considerar as particularidades fisiológicas de cada espécie.
Um plano alimentar elaborado por um médico-veterinário com atuação em nutrologia é a forma mais segura de promover saúde e longevidade.

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