A microbiota intestinal é uma comunidade complexa de microrganismos essencial à saúde de cães e gatos. Em equilíbrio, participa da digestão e da absorção de nutrientes, contribui para a integridade da barreira intestinal e na modulação de mecanismos imunológicos, metabólicos e inflamatórios.
Contudo, essas funções podem ser comprometidas em situações de disbiose intestinal, condição caracterizada por alterações na composição e na funcionalidade desse ecossistema microbiano.
Na rotina clínica, a disbiose intestinal é frequentemente associada a enfermidades do trato gastrointestinal (TGI) e de órgãos relacionados, como enteropatias crônicas e pancreatite, além de poder ocorrer após o uso de determinados medicamentos, como antibióticos.
No entanto, as evidências atuais indicam que a influência da microbiota intestinal vai além do TGI, como participação em eixos de comunicação entre o intestino e outros sistemas orgânicos.
Um exemplo relevante é a doença renal crônica (DRC). O eixo intestino-rim envolve interações entre o microbioma intestinal, barreira intestinal, metabólitos microbianos e fisiologia renal. Alterações nesse eixo, como as observadas em situações de disbiose intestinal, estão associadas a um maior acúmulo de toxinas urêmicas, à piora da função renal, além de desempenharem um importante papel na patogênese dessa enfermidade.
Essa relação é amplamente descrita na medicina humana e alterações semelhantes também são observadas em cães e gatos, reforçando a importância de uma abordagem integrada nesses pacientes.

Outro distúrbio associado a alterações na microbiota intestinal é a obesidade. Em cães obesos, Macedo e colaboradores (2022) observaram menor diversidade da microbiota fecal em comparação a animais com escore de condição corporal ideal. Após o programa de perda de peso, o perfil microbiano desses cães aproximou-se daquele observado em animais magros, sugerindo que o controle adequado do peso pode contribuir para modular o ecossistema intestinal.
Essa relação é relevante, porque a microbiota intestinal pode influenciar vias ligadas à saciedade, ao metabolismo lipídico, ao gasto energético e à inflamação de baixo grau.

