Causada pelo coronavírus felino (FCOV), a Peritonite Infecciosa Felina (PIF) é uma doença inflamatória sistêmica, ou seja, que acomete vários órgãos ao mesmo tempo.
Mesmo frequentemente observada em gatos jovens, principalmente até um ano de vida, a enfermidade pode se manifestar em qualquer idade, inclusive em felinos idosos.
Inicialmente apresentando sinais discretos e inespecíficos, comuns a diversas doenças, é importante que o responsável observe qualquer mudança no dia a dia do gato, como diminuição de apetite, vômitos, diarreia ou constipação, apatia e/ou febre.
Além disso, se o animal que costumava dormir com o cuidador passar a se isolar ou escolher outro local, é preciso atenção.
Quando falamos dos gatilhos para o desenvolvimento da doença temos a adoção de outro pet, alterações na rotina da casa, mudanças no ambiente, aparecimento de outras enfermidades, cirurgias e internações.
O que por muitas décadas foi considerado uma sentença de morte, agora tem o cenário mudado com o aumento da prescrição do molnupiravir.
“Hoje, o molnupiravir integra o grupo de antivirais que mudou a história natural da enfermidade e fez com que se passasse de uma condição fatal para um cenário em que ocorre resolução dos sinais clínicos, quando o diagnóstico é bem estabelecido e o tratamento é conduzido de forma adequada com acompanhamento veterinário”, explica a médica-veterinária Aline Santana da Hora, docente na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre e doutora em Clínica Veterinária e Epidemiologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP).
Segundo a profissional, durante o tratamento da PIF o monitoramento deve combinar avaliação clínica seriada com exames laboratoriais, que ajudem tanto a avaliar aspectos relativos à doença quanto a identificar precocemente possíveis efeitos adversos da ação.
A seguir, Aline conta mais sobre a enfermidade e a terapia com molnupiravir.

Cães&Gatos: Explique melhor sobre a PIF e a indicação do princípio ativo.
Aline Santana da Hora: Classificada em duas formas, a enfermidade pode ser efusiva (“úmida”) ou não efusiva (“seca”). Na forma úmida, a alteração mais comumente observada é o abdômen aumentado por depósito de líquido (efusão abdominal), ou esse líquido pode se acumular no tórax, sendo mais difícil de observar pelo responsável.
Em casos mais graves, pode-se formar líquido no abdômen e no tórax concomitantemente e a forma efusiva é mais facilmente diagnosticada por meio da amostra para a testagem molecular.
Na PIF seca os indícios tendem a começar de forma mais localizada, geralmente restritos a algum órgão ou sistema orgânico, cursando com sinais mais inespecíficos e de evolução lenta ao longo de semanas a meses.
Um sinal que tem se mostrado bastante comum nesse tipo é a alteração da cor dos olhos e, mais tardiamente, indicativos de comprometimento neurológico, como alterações de movimentos, de comportamento ou até mesmo convulsões.
Nesse caso, as amostras de eleição para o diagnóstico são: humor aquoso, quando há comprometimento ocular, e líquor, em casos de alterações neurológicas. O diagnóstico dessa forma de PIF é obtido pelo conjunto de histórico, sinais clínicos, exames laboratoriais e de imagem.
Quando falamos de tratamento antiviral, ele só deve ser iniciado com o diagnóstico de PIF por exame de RT-PCR. Caso o resultado demore, a amostra deve ser coletada e enviada para o laboratório e o antiviral pode então ser iniciado. Se o resultado for negativo, a medicação deve ser imediatamente suspensa e o felino deve ser avaliado para outras doenças.
Quais parâmetros laboratoriais devem ser monitorados durante o procedimento com molnupiravir?
Os padrões incluem hemograma completo e perfil bioquímico, com especial atenção para possíveis alterações, como anemias, leucopenia por neutropenia e aumento da concentração sérica de alanina aminotransferase (ALT).
Quando encontradas, a anemia e a neutropenia devem ser corrigidas com intervenções terapêuticas. Já o aumento da concentração de ALT não precisa ser manejado. Essas alterações podem não ocorrer em todos os gatos, e as citopenias estão geralmente associadas às doses mais altas. Mas, se qualquer alteração dessas for encontrada, deve-se avaliar a necessidade de retirada do antiviral.
Não há um padrão estabelecido em termos de frequência da necessidade de exames, devido às complicações da PIF. Mas podem ser necessários intervalos menores, especialmente no início do tratamento. Após a fase crítica, os felinos devem ser reavaliados a cada uma ou duas semanas pelo médico-veterinário.
Os responsáveis podem acompanhar seus animais diariamente ou dia sim, dia não, por meio de pesagem, sempre no mesmo horário. O esperado, quando há sucesso terapêutico, é que, ao longo do tratamento, pelo menos, os felinos mantenham o peso ou até ganhem peso.
Com exceção dos casos de PIF efusiva, nos quais o peso se reduz devido à regressão do acúmulo de líquidos.
A resolução da febre e a redução da velocidade de formação de efusão, dentro de poucos dias, também são indícios de eficácia. A efusão tende a cessar em até duas semanas; caso não resolva nesse prazo, deve-se aumentar a dose.
Qual é a importância do molnupiravir no tratamento da PIF?
Além do impacto clínico, há um ponto ético e prático relevante: quando está disponível por vias regulares (com prescrição e controle), isso favorece uma ação mais segura e rastreável, reduzindo a dependência de produtos de procedência incerta e a condução do tratamento “por conta própria” pelos responsáveis.
O molnupiravir é uma opção importante porque amplia o acesso ao tratamento com antiviral baseado em evidência científica e oferece uma alternativa útil, tanto como terapia primária em cenários selecionados, quanto como resgate, desde que a decisão seja individualizada e conduzida com acompanhamento veterinário.
Quando o antiviral deve ser indicado e quanto tempo dura o tratamento?
No cenário atual brasileiro, em que o molnupiravir é a única opção antiviral com acesso regularizado e maior previsibilidade quanto ao princípio ativo, ele deve ser o único antiviral indicado pelos médicos-veterinários para o tratamento da PIF, tanto em gatos sem tratamento prévio, quanto em situações de recidiva, sempre com acompanhamento veterinário e monitoramento clínico e laboratorial.
Em relação à duração do procedimento, muitos estudos utilizam um protocolo de 84 dias, mas há trabalhos com 42 dias. Em nossa rotina clínica na UFU, frequentemente 42 dias têm sido suficientes para alcançar a remissão. Por isso, a duração do protocolo deve ser definida de forma individualizada.
Quais são os principais efeitos adversos associados ao uso do molnupiravir em felinos com PIF?
Os principais efeitos adversos descritos são, em geral, hematológicos e gastrointestinais, além de alterações cutâneas em alguns casos, especialmente quando se usam doses mais altas.
Entre os achados laboratoriais mais citados está o aumento da atividade sérica de ALT, em geral sem necessidade de intervenção específica e com tendência a normalizar após o término do antiviral. Leucopenia por neutropenia pode ser observada em alguns gatos e, em doses mais altas, anemia também é descrita.
Em menor frequência, foram relatados hiporexia, queda de pelo, perda de vibrissas e dobra das orelhas, novamente com associação mais clara quando doses elevadas são utilizadas e com resolução após a interrupção do medicamento.

FAQ sobre o uso do molnupiravir no tratamento da PIF em gatos
O que é a peritonite infecciosa felina e quais são seus principais sinais clínicos?
A PIF é uma doença inflamatória sistêmica causada pelo coronavírus felino (FCoV), que pode acometer vários órgãos ao mesmo tempo. A enfermidade pode se apresentar na forma efusiva (“úmida”), com acúmulo de líquido no abdômen ou no tórax, ou na forma não efusiva (“seca”), com sinais mais localizados e de evolução lenta.
Quando o molnupiravir deve ser indicado?
O tratamento antiviral só deve ser iniciado com diagnóstico de PIF confirmado por exame de RT-PCR. Em relação à duração do tratamento, muitos estudos utilizam protocolo de 84 dias, mas há trabalhos com 42 dias.
Quais exames devem ser realizados durante o tratamento?
O acompanhamento deve incluir avaliação clínica seriada e exames laboratoriais, como hemograma completo e perfil bioquímico, com atenção para anemia, leucopenia por neutropenia e aumento da alanina aminotransferase (ALT).
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