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Inovação e Mercado Pet Food

O futuro da nutrição pet: viés humano, gatos em alta e novas fontes de proteína redefinem o setor

Mudanças nos hábitos dos responsáveis, avanço na população de felinos e novas tecnologias de ingredientes transformam o mercado de alimentação para pets

O futuro da nutrição pet: viés humano, gatos em alta e novas fontes de proteína redefinem o setor
Por Stéfani Campos Chagas
14 de setembro de 2026

A indústria de pet food passa por uma profunda transformação, impulsionada por mudanças demográficas das famílias e pelas preferências comportamentais dos responsáveis.

Durante o 6th International Pet Meeting Expo 2026, Ananda Félix, docente da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenadora do Laboratório de Estudos em Nutrição Canina (Lenuan), apresentou um panorama completo sobre o setor.

Ela detalhou como as escolhas dos consumidores e o conceito psicológico do viés de confirmação afetam diretamente o desenvolvimento de novos produtos para cães e gatos.

Segundo a pesquisadora, muitas das exigências atuais do mercado não são pautadas em evidências científicas de ganho de longevidade ou saúde animal, mas na projeção das crenças da nutrição humana para os animais de estimação.

“Muitas dessas tendências vêm do que o mercado quer, do que as pessoas buscam, e muitas vezes as nossas preferências são guiadas pelas nossas experiências com a nutrição humana. As pessoas, diante de fatos, vão acabar captando apenas as informações sobre aquele tema que confirmem o que elas já têm pré-definido e o que elas já acreditam”, explicou Ananda Félix durante sua apresentação.

O viés de confirmação e a busca pelo alimento ideal

A projeção de hábitos humanos na alimentação dos animais de companhia tem moldado a tomada de decisão no momento da compra.

Pesquisas recentes aplicando o modelo de escolha alimentar de Moget revelaram que os critérios adotados pelos responsáveis para comprar ração para cães e gatos (incluindo praticidade, preço, apelo visual da embalagem e percepção de prazer do pet) são idênticos aos usados na escolha da própria comida humana.

Essa proximidade de comportamentos explica o avanço de movimentos de mercado no Brasil, como a busca por marcas que retiram ingredientes transgênicos e destacam o uso de antioxidantes naturais.

“A percepção do natural para as pessoas é muito relacionada a não usar transgênicos e aditivos sintéticos, principalmente pelo medo de conservantes. Essas são mudanças bem importantes que estamos vendo no mercado brasileiro e já são realidade em outros países. Eu acredito que é um nicho importante que não tem mais volta”, destacou a docente da UFPR.

A ascensão dos gatos

Do ponto de vista dos animais que consomem os alimentos, a demografia brasileira mudou significativamente.

Embora o Brasil registre cerca de 160 milhões de animais de estimação, com predomínio de cães, a taxa de crescimento da população de gatos e de aves ornamentais supera o ritmo dos caninos.

Esse movimento cria um ambiente propício para a diversificação de linhas de produtos focadas na família multigatos, em cães de pequeno porte e em animais da terceira idade.

O comportamento dos responsáveis em relação à apresentação do alimento também se transformou, impulsionando formatos além do grão seco tradicional.

“A monotonia da dieta é algo que as pessoas não gostam, então elas sempre buscam tentar diversificar a dieta do pet. O lançamento de alimentos úmidos vem crescendo bastante e chama muita atenção. Por mais que sejam completos e balanceados, dificilmente aqui no Brasil temos o hábito de oferecer 100% de alimento úmido, mas as pessoas compram para misturar com o seco e melhorar a palatabilidade”, afirmou a pesquisadora.

população de felinos
O crescimento da população de felinos e a busca por diversificação da dieta impulsionam os lançamentos de alimentos úmidos e sachês (Foto: Reprodução)

Rotulagem transparente e apelos funcionais

A busca por rótulos no conceito Clean Label, caracterizados por listas curtas de ingredientes e nomes compreensíveis, ganha espaço ao lado de alimentos funcionais focados em saúde articular, digestiva e controle de ansiedade.

No entanto, a professora pondera que a indústria ainda enfrenta barreiras de comunicação ao explicar ao público a diferença entre alimentos ultraprocessados humanos e rações extrusadas para pets.

“Cerca de 66% das pessoas acreditam que alimentos processados são menos saudáveis. Essa é uma questão que a indústria pet precisa trabalhar muito na comunicação. As pessoas associam que o alimento ultraprocessado humano traz malefícios por ter alta concentração de açúcar e gordura saturada, e projetam isso para o alimento extrusado de cães e gatos, que é completamente diferente nutricionalmente”, alertou Ananda.

Sustentabilidade em alta

No pilar da sustentabilidade e da busca por fontes de matérias-primas do futuro, o setor de nutrição animal intensifica estudos com farinha de insetos e proteínas unicelulares (Single Cell Proteins) derivadas de fungos, leveduras, microalgas e bactérias.

Essas alternativas apresentam alto teor proteico, excelente digestibilidade e podem ser produzidas em reatores fechados com baixíssimo uso de água e terra, sem depender de condições climáticas.

Apesar do potencial das novas tecnologias, a profissional fez questão de reforçar que o uso das farinhas tradicionais de origem animal continua sendo um pilar de sustentabilidade na atualidade.

“No momento, as farinhas de origem animal atendem muito bem aos requisitos de sustentabilidade, visto que usam resíduos do abate que não seriam destinados à nutrição humana. Transformar essa porcentagem em farinha é extremamente importante do ponto de vista ambiental”, finalizou Ananda Félix.