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Quando tratar deixa de ser o mesmo que cuidar: o lugar dos cuidados paliativos na clínica de pequenos animais

Ainda pouco divulgados no Brasil, os cuidados paliativos em pequenos animais envolvem decisões que afetam emocionalmente tanto a família quanto a equipe veterinária

Quando tratar deixa de ser o mesmo que cuidar: o lugar dos cuidados paliativos na clínica de pequenos animais
Por Juliana Sato
29 de outubro de 2026

Em algum momento da trajetória de um animal com doença crônica ou terminal, a pergunta que circula no consultório muda. Deixa de ser qual tratamento escolher e passa a ser até onde vale a pena continuar. Para o responsável, essa pergunta costuma chegar carregada de culpa; para o médico-veterinário, vem acompanhada de uma formação que pouco o preparou para ela. É nesse ponto que os cuidados paliativos, ainda pouco estudados na Medicina Veterinária brasileira, deixam de ser tema de congresso e se tornam uma necessidade concreta da rotina clínica.

Na saúde humana, o conceito tem definição consolidada. A Organização Mundial da Saúde descreve os cuidados paliativos como uma abordagem que busca melhorar a qualidade de vida de pacientes e de suas famílias diante de doenças que ameaçam a vida, prevenindo e aliviando o sofrimento físico, psicológico, social e espiritual. A organização inclui, entre as atribuições desse cuidado, o apoio às famílias no luto, e aponta como equívoco frequente a ideia de que o paliativo seria reservado às últimas semanas de vida; segundo a OMS, ele é mais efetivo quando considerado cedo no curso da doença.

Na Medicina Veterinária, a transposição desse modelo ainda está em construção. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina Veterinária regulamenta os procedimentos de eutanásia em animais desde 2012 e publicou, no ano seguinte, um guia de boas práticas sobre o tema. Quando se trata de cuidados paliativos, as principais referências disponíveis são estrangeiras, como as diretrizes de cuidados de fim de vida publicadas em 2016 pela American Animal Hospital Association, em parceria com a International Association for Animal Hospice and Palliative Care, elaboradas a partir da realidade norte-americana, com condições de custo, acesso e organização dos serviços bastante diferentes da brasileira.

O que a família precisa para decidir

Na clínica veterinária, há instrumentos criados para ajudar a avaliar a qualidade de vida do animal nessa fase, como a escala desenvolvida pela oncologista veterinária norte-americana Alice Villalobos, difundida a partir de 2004. A avaliação clínica cabe ao médico-veterinário. O que interessa ao olhar da psicologia é outra coisa: o quanto a família consegue participar dessa leitura, e o que acontece com ela quando a decisão chega sem que tenha havido espaço para compreendê-la.

Decidir até onde ir com um animal envolve interpretar o sofrimento de quem não pode descrevê-lo, e essa interpretação é atravessada por tudo o que o responsável traz para ela, da esperança que resiste mesmo quando o quadro já não a sustenta à sensação de que interromper o tratamento equivale a abandonar. Uma linguagem comum entre equipe e família não elimina essa dor, mas tende a tirar a decisão do terreno da culpa solitária e devolvê-la a um percurso compartilhado.

O peso do outro lado da mesa

Se para o responsável a fase paliativa costuma ser vivida como ameaça de perda, para o médico-veterinário ela expõe um tipo específico de sofrimento. Em 2018, um levantamento com 889 veterinários da América do Norte, publicado no Journal of Veterinary Internal Medicine, mostrou que 79% já haviam recebido pedidos para oferecer tratamentos que consideravam inúteis para o animal, e que 71% não tiveram, na formação, nenhuma instrução sobre como lidar com divergências a respeito do melhor cuidado para o paciente. Os autores recorrem ao conceito de sofrimento moral, formulado originalmente na enfermagem nos anos 1980, para nomear a experiência de saber o que seria certo fazer e estar numa situação em que isso é quase impossível. Muitos participantes apontaram as limitações financeiras como o principal obstáculo, e a maioria relatou que as crenças dos responsáveis já haviam dificultado oferecer o cuidado que julgavam adequado.

Os números são estrangeiros e não se aplicam diretamente ao Brasil, mas pesquisas nacionais apontam na mesma direção. Em um levantamento com 549 médicos-veterinários brasileiros, publicado na revista Veterinary Sciences, 91% disseram não ter recebido, na graduação, formação para lidar com o luto, e os que tiveram algum preparo relataram ser menos afetados pela perda de pacientes. Uma revisão de escopo conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo e publicada em 2025 no New Zealand Veterinary Journal reuniu estudos de mais de três décadas e não encontrou nenhum em que os profissionais se declarassem satisfeitos com a formação recebida sobre a morte de pacientes. O resultado é que conversas sobre limites terapêuticos, que exigem tempo e preparo emocional, acabam acontecendo no improviso.

Cuidados paliativos
Cuidados paliativos na veterinária integram controle de dor e acolhimento emocional à família (Foto: Reprodução)

Luto antecipatório

Muitos responsáveis passam a viver a perda desde o diagnóstico, e essa experiência, frequentemente confundida com pessimismo ou com falta de confiança no tratamento, é uma reação legítima a uma ameaça real. As diretrizes norte-americanas de fim de vida incluem entre seus objetivos justamente o reconhecimento do luto antecipatório de quem cuida do animal, e a OMS reconhece a família como destinatária do cuidado paliativo, inclusive no luto. Quando esse luto não é reconhecido, a decisão sobre os limites do tratamento costuma chegar na urgência, no plantão, sem tempo para que a família elabore o que está perdendo; quando é acolhido, a despedida pode ser atravessada com menos culpa e com mais clareza sobre o que foi escolhido.

Talvez a pergunta sobre até onde tentar parta de uma premissa equivocada, a de que tentar significa sempre fazer mais. Em algum ponto, diferente para cada animal e para cada família, a pergunta passa a ser o que ainda faz sentido oferecer, e quem estará presente para sustentar essa escolha.