Um possível episódio de Super El Niño voltou a acender o alerta para os impactos das mudanças climáticas no Brasil. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal e intenso das águas do Oceano Pacífico, altera o regime de chuvas e favorece eventos extremos.
Entre as principais preocupações está o aumento do risco de queimadas em diferentes biomas, cenário que pode comprometer a sobrevivência da fauna silvestre e dificultar a recuperação dos ecossistemas.
De acordo com Gustavo Figueirôa, biólogo especializado em manejo e conservação da fauna e diretor de comunicação do Instituto SOS Pantanal, o aquecimento das águas do Pacífico tende a reduzir a umidade do ar, provocar retração dos rios e intensificar as ondas de calor, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.
“Vai deixar regiões mais secas, principalmente o Norte e o Centro-Oeste. É um cenário propício para incêndios florestais e nós estamos muitos preocupados”, destaca.
Impactos vão além da mortalidade direta
Os efeitos das queimadas sobre a fauna começam durante o incêndio, com a morte de animais e a fuga daqueles que conseguem escapar em busca de água e alimento. No entanto, os prejuízos continuam mesmo após o fogo ser controlado.
Segundo Figueirôa, a repetição desses eventos reduz a capacidade de recuperação dos ecossistemas e compromete o crescimento das populações de diversas espécies.
“Quanto mais frequentes são os incêndios, mais o ecossistema perde a capacidade de manter essas populações de animais”, afirma.

Biomas respondem de formas diferentes
Os impactos variam entre os biomas brasileiros. Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga tendem a enfrentar secas mais severas, redução da disponibilidade de água e alimento e maior risco de incêndios florestais.
Com o ambiente já fragilizado pelo déficit hídrico, as queimadas ampliam os danos à fauna e dificultam ainda mais a recuperação da vegetação.
Já no Sul e em parte do Sudeste, o Super El Niño costuma favorecer o aumento das chuvas e de eventos extremos, como enchentes, evidenciando que o fenômeno provoca consequências distintas em cada região do país.
Entre os animais mais vulneráveis estão anfíbios, répteis, invertebrados e mamíferos de grande porte, como antas e tamanduás-bandeira, que apresentam maior dificuldade para escapar das chamas.
O biólogo informa que os invertebrados estão entre os grupos mais afetados, mas suas perdas raramente entram nas estatísticas dos incêndios.
Além da mortalidade, a destruição de abrigos, áreas de alimentação e locais de reprodução pode acelerar processos de extinção local.
Recuperação pode levar anos
Os impactos das queimadas podem permanecer por muito tempo, principalmente quando os incêndios atingem repetidamente as mesmas áreas.
O Pantanal ilustra esse cenário. Após os grandes incêndios registrados nos últimos anos, diversas áreas voltaram a ser atingidas antes mesmo de conseguirem se regenerar.
Um dos reflexos foi observado na arara-azul-grande, que voltou a subir um nível na lista de espécies ameaçadas. A perda de árvores utilizadas para alimentação e nidificação, somada à morte de ovos, filhotes e até indivíduos adultos, comprometeu a recuperação da população da espécie.
“Esses impactos podem durar anos e ser agravados pela recorrência dos incêndios,” sustenta Figueirôa.

Prevenção é o melhor caminho
Para o biólogo, a adaptação às mudanças climáticas passa pelo fortalecimento da prevenção e do manejo integrado do fogo, envolvendo órgãos públicos, pesquisadores, comunidades e proprietários rurais.
“Se a gente ficar correndo atrás para apagar incêndios, vai estar sempre perdendo. A prevenção é o melhor caminho”, destaca.
Entre as medidas defendidas pelo profissional estão o planejamento integrado das ações, a capacitação de equipes, a realização de queimas prescritas quando tecnicamente indicadas, o manejo adequado da vegetação e o fortalecimento da fiscalização ambiental.
