A vacinação é uma das principais ferramentas para prevenir doenças infecciosas em cães e gatos, mas acompanhar a ocorrência dessas enfermidades no Brasil ainda representa um desafio, especialmente quando se trata de enfermidades exclusivamente veterinárias.
Enquanto a raiva possui uma estrutura de vigilância consolidada por sua relevância para a saúde pública, doenças como cinomose e panleucopenia felina não contam com uma base epidemiológica nacional que permita dimensionar sua ocorrência no País.
Segundo Cássio Ricardo Ribeiro, médico-veterinário com especialização em Epidemiologia Aplicada ao SUS pela Fiocruz, mestre e doutor em Clínica Médica pela UNESP/Jaboticabal, a análise precisa considerar a diferença entre zoonoses e doenças de importância predominantemente veterinária.
Nesse contexto, a raiva permanece como prioridade por apresentar elevada letalidade e poder ser prevenida por vacinação e ações integradas de vigilância. Já cinomose e panleucopenia podem provocar quadros graves nos animais, mas não são zoonoses e não estão submetidas à mesma estrutura nacional de vigilância pública.
Raiva: menos casos não significa risco eliminado
O cenário brasileiro da raiva transmitida por cães mudou significativamente nas últimas décadas. De acordo com Ribeiro, em 2026 completam-se dez anos sem registros de raiva humana transmitida pelas variantes caninas clássicas AgV1 e AgV2, considerando os últimos registros relacionados a essas variantes.
A redução também aparece nos registros de raiva em cães. O número caiu de 635 casos, em 2002, para 21 em 2025. Até setembro de 2026, foram registrados 19 casos, envolvendo variantes virais associadas a animais silvestres.
O dado, porém, exige uma distinção importante. “Raiva canina”, utilizada em determinados contextos para indicar a infecção associada às variantes caninas clássicas, não é necessariamente sinônimo de “raiva em cães”. Um cão pode ser infectado por uma variante viral proveniente de animais silvestres, como morcegos.
“O principal desafio é manter a vigilância e a vacinação mesmo diante da redução dos casos”, afirma Ribeiro.
Embora o ciclo urbano clássico associado às variantes caninas esteja sob controle, o vírus continua circulando em ciclos silvestres. Cães e gatos permanecem suscetíveis a essas variantes, o que mantém a necessidade de vacinação, vigilância epidemiológica, diagnóstico laboratorial e investigação de animais suspeitos.
Em 2025, a cobertura da campanha antirrábica chegou a 78% no Brasil, considerando as 23 Unidades da Federação que realizaram campanhas nacionais de vacinação contra a raiva nesses animais.
Para o médico-veterinário, manter esses esforços é fundamental para evitar a reintrodução da transmissão por variantes caninas e detectar precocemente infecções associadas ao ciclo silvestre.

Cinomose e panleucopenia: atenção sem extrapolar os dados
Na Medicina Veterinária Preventiva, cinomose canina e panleucopenia felina também merecem atenção.
As duas enfermidades podem provocar quadros graves e elevada letalidade, sobretudo entre filhotes, animais não vacinados e populações mantidas em abrigos, colônias ou outros ambientes de alta densidade.
Isso não significa, contudo, que relatos de casos sejam suficientes para afirmar que existe uma tendência nacional de crescimento dessas doenças.
“Relatos provenientes de clínicas, abrigos, laboratórios ou municípios são importantes como alertas locais, mas não permitem caracterizar, por si só, um surto ou uma tendência nacional”, ressalta Ribeiro.
Para estabelecer uma tendência epidemiológica, seria necessário reunir definição de caso, confirmação laboratorial, cobertura territorial, série histórica e um denominador populacional confiável.
Atualmente, não existe uma base nacional oficial de vigilância epidemiológica para cinomose ou panleucopenia felina equivalente à existente para a raiva. Há, porém, informações produzidas por clínicas, laboratórios, universidades e pesquisas científicas.
A dificuldade está em integrar esses dados, que podem utilizar metodologias, populações e critérios distintos.
A ausência de uma base unificada também impede estabelecer, em escala nacional, uma relação quantitativa entre cobertura vacinal e ocorrência dessas enfermidades. Ainda assim, a relação epidemiológica entre cobertura vacinal e proporção de animais suscetíveis é relevante.
Uma população com menor cobertura vacinal tende a apresentar uma maior proporção de animais suscetíveis, o que pode favorecer a transmissão e a circulação de agentes infecciosos, especialmente em ambientes com alta densidade e intensa interação entre os animais.
No caso da cinomose, por exemplo, a redução da proteção pode contribuir para a disseminação viral. Mas outros fatores também interferem na dinâmica de transmissão, como movimentação de animais, presença e circulação de animais silvestres suscetíveis, densidade populacional, condições ambientais, biossegurança e capacidade de diagnóstico.
Um ponto adicional merece atenção: cães com sinais neurológicos compatíveis com cinomose devem ser avaliados cuidadosamente, pois a raiva integra os diagnósticos diferenciais e exige comunicação aos serviços de saúde pública quando houver suspeita.
Vacinação também depende de vigilância e informação
A vacinação reduz a quantidade de animais suscetíveis e, em determinadas doenças, contribui não apenas para a proteção individual, mas também para reduzir a circulação do agente na população.
Na raiva, essa dimensão coletiva é especialmente evidente, uma vez que a imunização de cães e gatos ajuda a interromper a cadeia de transmissão e, consequentemente, reduz o risco de exposição humana.
Para outras vacinas, o benefício coletivo ocorre principalmente na redução da ocorrência da doença entre populações animais. Em locais como abrigos e colônias, por exemplo, a imunização pode ser particularmente importante diante da concentração de indivíduos.
A panleucopenia felina também ilustra a necessidade de associar vacinação a medidas de manejo. Casos registrados em uma unidade de controle animal nos Estados Unidos, em 2026, chamaram atenção para a disseminação da doença em ambientes de contenção.
Para Ribeiro, episódios desse tipo devem ser interpretados como ocorrências locais, sem extrapolação automática para a realidade brasileira.
A principal lição está na combinação de medidas. Triagem na entrada de animais, isolamento de sintomáticos, quarentena de expostos, controle de lotação, higiene e desinfecção adequada devem acompanhar a imunização.
Outro desafio está na própria organização das informações. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, tem foco em doenças e agravos de notificação em seres humanos. Já o e-SISBRAVET, do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), é voltado à vigilância e às emergências veterinárias dentro das competências da defesa sanitária animal.
“Não existe um sistema público nacional único que consolide, de forma abrangente, registros de infecções em cães e gatos provenientes de clínicas, universidades e laboratórios.”, pontua o entrevistado.

Saúde Única depende de atuação integrada
A divisão das responsabilidades entre os setores varia conforme a natureza da enfermidade e seu impacto na saúde humana, animal, produção agropecuária ou conservação da fauna.
O Ministério da Saúde atua na vigilância, prevenção e controle de zoonoses relevantes para a saúde pública. No caso da raiva, isso envolve ações como vacinação antirrábica animal, investigação de animais suspeitos, coleta de amostras, diagnóstico e articulação com o atendimento das pessoas expostas.
O MAPA, por sua vez, atua na defesa sanitária animal e na regulação, registro e fiscalização dos produtos veterinários. Já os órgãos ambientais participam da gestão e conservação da fauna silvestre, especialmente quando há interface com riscos sanitários.
Para fortalecer a integração entre essas áreas, o Decreto nº 12.007/2024 instituiu o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, com participação de diversos órgãos e entidades federais, entre eles os dos ministérios da Saúde, Agricultura e Pecuária e Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Na prática, a abordagem busca melhorar o compartilhamento de informações e a resposta diante de ameaças que envolvam seres humanos, animais e ambiente.
Para os responsáveis, a principal orientação é manter a vacinação dos animais atualizada. A vacina antirrábica tem importância especial pela relevância da doença para a saúde pública, enquanto os demais protocolos devem ser definidos pelo médico-veterinário considerando a espécie, idade, histórico vacinal, condição clínica, ambiente e riscos epidemiológicos.
O acompanhamento profissional também é importante para definir os imunizantes indicados, respeitando produtos registrados, conservação adequada e orientações técnicas.
Conforme diz Ribeiro, a prevenção pode ser resumida em três ações: “vacinar, vigiar e comunicar”.
“É fundamental repassar ao profissional informações completas sobre histórico, tratamentos e eventuais reações anteriores”, orienta aos responsáveis.
Aos médicos-veterinários, cabe avaliar o animal, definir protocolos adequados, utilizar produtos registrados, respeitar a cadeia de frio, manter registros confiáveis e comunicar suspeitas epidemiológicas relevantes.
Aos órgãos de saúde, a manutenção da vacinação antirrábica, a qualificação do diagnóstico, a investigação de casos e a comunicação transparente permanecem essenciais.
“A prevenção funciona melhor quando cada componente — responsável, médico-veterinário e serviço público — cumpre sua parte e quando as informações circulam adequadamente entre eles”, conclui.
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Raiva animal. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Atualizado em 11 jun. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Raiva animal. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Cobertura vacinal de cães e gatos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Atualizado em 11 jun. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Cobertura vacinal de cães e gatos. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de vigilância, prevenção e controle de zoonoses: normas técnicas e operacionais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: Manual de vigilância, prevenção e controle de zoonoses. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 13/2019-CGDT/DEVIT/SVS/MS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: Nota Informativa nº 13/2019. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 13/2024-CGZV/DEDT/SVSA/MS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: Nota Técnica nº 13/2024. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.138, de 23 de maio de 2014. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: Portaria nº 1.138/2014. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Produtos veterinários. Brasília, DF: MAPA, 2026. Disponível em: MAPA – Produtos veterinários. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Registro de produtos veterinários de natureza biológica. Brasília, DF: MAPA, 2026. Disponível em: MAPA – Registro de produtos veterinários de natureza biológica. Acesso em: 22 set. 2026.
BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 12.007, de 25 de abril de 2024. Institui o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Disponível em: Decreto nº 12.007/2024 – Planalto. Acesso em: 22 set. 2026.

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