A cinomose é uma doença viral de alta capacidade de transmissão, que pode comprometer diferentes sistemas do organismo dos cães e, nos casos mais graves, levar à morte.
Diante dos relatos recentes de animais infectados no interior de São Paulo, a atenção se volta novamente para uma doença que, segundo o médico-veterinário e supervisor da Clínica de Pequenos Animais do Hospital Veterinário da UniMAX Indaiatuba, Dr. Igor Moretto Soffo, continua sendo diagnosticada na rotina clínica ao longo de todo o ano.
“Os animais mais acometidos são os filhotes não vacinados”, explica.
De acordo com ele, cães adultos e idosos também podem desenvolver a doença quando não estão protegidos pela vacinação ou apresentam comprometimento do sistema imunológico.
Como a cinomose é transmitida?
A cinomose é causada pelo Canine Distemper Virus (CDV), pertencente ao gênero Morbillivirus. O vírus afeta principalmente os canídeos e apresenta alta capacidade de transmissão, especialmente por meio de aerossóis e secreções respiratórias.
Após entrar no organismo, o agente viral se replica inicialmente em células do epitélio, principalmente das regiões oronasal e respiratória. Em seguida, pode se disseminar para os linfonodos e outros tecidos, atingindo diferentes sistemas.
Conforme diz Igor, a maior vulnerabilidade entre os filhotes está relacionada à idade, ao sistema imunológico ainda em desenvolvimento e à ausência de vacinação. Animais imunossuprimidos também apresentam maior risco de desenvolver a doença.
A gravidade do quadro ainda pode variar conforme características da própria cepa viral, que apresenta diferentes níveis de virulência.

Sinais podem evoluir para alterações neurológicas
Entre os primeiros sinais associados à cinomose estão secreção nasal e ocular, alterações respiratórias, febre e, em alguns casos, infecções secundárias. Como o vírus pode causar imunossupressão, o animal fica mais suscetível a complicações, incluindo pneumonia.
O sistema gastrointestinal também pode ser afetado, provocando vômitos e diarreia. Porém, uma das manifestações mais preocupantes ocorre quando o vírus alcança o sistema nervoso.
Nessa fase, o cão pode apresentar encefalomielite, paralisias, convulsões, espasmos musculares, alterações nos membros, febre, depressão, estupor e redução do nível de consciência.
“Além de tratar as manifestações da doença, é fundamental oferecer suporte ao animal, principalmente para controlar a desidratação e garantir que ele receba nutrição e hidratação adequadas”, pontua o médico-veterinário.
A cinomose também pode deixar sequelas neurológicas, dependendo da extensão dos danos provocados durante a infecção. Entre as possíveis consequências estão as mioclonias, caracterizadas por contrações musculares involuntárias e repetitivas, alterações na marcha, dificuldade de coordenação dos movimentos e mudanças na posição da cabeça.
Outro sinal que pode aparecer é a hiperqueratose dos coxins, caracterizada pelo espessamento da pele das almofadas das patas, além de alterações semelhantes na região do focinho.
Tratamento é baseado em suporte e isolamento
Atualmente, não existe um tratamento específico capaz de eliminar diretamente o vírus da cinomose. O manejo é baseado principalmente em terapia de suporte, com hidratação, alimentação e controle de vômitos e diarreia.
Como a doença provoca imunossupressão, o animal também pode desenvolver infecções secundárias, principalmente respiratórias ou relacionadas ao trato gastrointestinal. Por isso, conforme avaliação do médico-veterinário, podem ser utilizados antibióticos para o controle dessas complicações.
“Não existe uma terapia antiviral que seja efetivamente comprovada para esses casos. Portanto, o tratamento acaba sendo realmente voltado ao suporte”, informa Igor.
Dependendo da gravidade, pode ser necessária a internação para acompanhamento da hidratação, alimentação e evolução clínica. O isolamento também é fundamental para reduzir o risco de transmissão para outros animais.
O paciente deve ter comedouro, bebedouro e outros objetos de uso exclusivo, que não devem ser compartilhados. A limpeza do ambiente e dos objetos também deve fazer parte dos cuidados, com produtos adequados, como álcool ou cloro, conforme as orientações de higienização.
Animais que tiveram contato com um cão infectado também devem ser mantidos afastados dos demais e avaliados quanto à vacinação e ao risco de desenvolvimento da doença.

Vacinação é a principal estratégia de prevenção
Para Igor, a vacinação continua sendo a principal ferramenta para reduzir a circulação da cinomose. Além de proteger individualmente o cão, a manutenção de animais imunizados contribui para diminuir a propagação do vírus na população.
O protocolo vacinal deve ser estabelecido de acordo com a avaliação do médico-veterinário, considerando a idade, as condições de saúde e as necessidades de cada animal. A prevenção também envolve acompanhamento periódico, alimentação adequada e manutenção da saúde.
O médico-veterinário ressalta ainda que a circulação da cinomose pode ser favorecida pela proximidade entre animais e pela presença de indivíduos não vacinados. Em períodos mais frios, as condições de transmissão por aerossóis podem contribuir para o aumento da circulação de agentes respiratórios.
Apesar disso, o profissional enfatiza que a presença de casos nesse período não significa necessariamente a ocorrência de um surto. Na rotina de clínicas de pequenos animais, a cinomose é diagnosticada ao longo de todo o ano.
Para os responsáveis, a recomendação é manter a vacinação em dia, evitar o contato com animais não vacinados e manter o cão saudável. Em situações como a chegada de um novo animal à residência, também pode ser indicada uma quarentena antes da integração com outros pets, especialmente até que a situação vacinal e sanitária seja avaliada.
“A vacinação é a melhor forma de se prevenir e de erradicar a doença. E não só manter o paciente saudável, mas também fazer visitas rotineiras ao médico-veterinário para a manutenção da prevenção”, reforça Igor.
A prevenção, portanto, começa antes do contato com o vírus: vacinação adequada, acompanhamento veterinário e cuidados de saúde são as principais medidas para reduzir o risco de cinomose e suas complicações.

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