O uso responsável dos antibióticos se estende a toda a prática clínica e também deve ser empregado no centro cirúrgico. Para discutir o tema, Jacob Wolf, médico-veterinário, clinical assistant professor e critical care associate service chief, apresentou os aspectos da antibioticoterapia durante a VMX 2026, evento realizado de 17 a 21 de janeiro, em Orlando (EUA).
A escolha do antibiótico no centro cirúrgico deve ser assertiva, mas em situações emergenciais nem sempre é possível definir qual é o patógeno envolvido na infecção e qual o fármaco mais indicado.
Nesses casos, o protocolo pode ser iniciado com antibióticos empíricos de amplo espectro, que cubram todos os patógenos frequentemente associados a infecção na região.
Em seguida, deve-se estreitar a medicação com base nos resultados de cultura e teste de sensibilidade, assim que possível.
“É muito importante coletar amostras desses pacientes, porque queremos reduzir esse espectro o mais rápido possível. Então, em muitos pacientes com pneumonia — especialmente os casos graves — ou em pacientes sépticos, como em uma peritonite séptica, deve-se optar por essa abordagem”, explicou.
Resistência microbiana
A resistência microbiana é um dos principais desafios da antibioticoterapia nos centros cirúrgicos. Segundo Jacob, alguns fármacos em particular, estão mais associados ao surgimento de infecções multirresistentes.
As fluoroquinolonas costumam estar associadas ao desenvolvimento de Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP) e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA). Porém, as cefalosporinas de terceira geração e o metronidazol também têm sido associados ao desenvolvimento de infecções multirresistentes.
“Logo, se eu tiver um paciente criticamente doente que usou amoxicilina com ácido clavulânico há dois meses atrás e ele chega para atendimento com com peritonite séptica, há um elevado risco de resistência e é preciso usar outra medicação para garantir cobertura adequada”, pontuou.
Outros fatores associados a resistência microbiana incluem hospitalização prévia, procedimentos invasivos e outros aspectos do manejo.

Entendendo a resistência microbiana
Durante a palestra o especialista trouxe alguns exemplos práticos de resistência microbiana que podem ser encontrados no dia a dia da prática cirúrgica.
Conforme esclareceu, no caso dos estafilococos, por exemplo, o gene mecA modifica a proteína ligadora de penicilina 2A. Isso significa que, quando um organismo gram-positivo se torna resistente aos beta-lactâmicos, geralmente, fica resistente a todos eles: penicilinas, cefalosporinas e carbapenêmicos.
“Portanto, se você suspeita de um organismo gram-positivo resistente em um animal séptico, o tratamento apenas com um beta-lactâmico é insuficiente. É necessário adicionar outro fármaco para atingir os gram-positivos, como a clindamicina ou, se a preocupação for maior, algo como a vancomicina. Em humanos, existem cefalosporinas de quinta geração que contornam isso, como a ceftarolina, mas não as utilizamos na veterinária”, explicou.
Outros mecanismos de resistência, tanto em bactérias gram-positivas, quanto em gram-negativas, citados incluem bombas de efluxo, mutações de porinas, produção de enzimas modificadoras de aminoglicosídeos, modificação da via do ácido fólico (resistência às sulfonamidas) e, no caso das fluoroquinolonas, mutações na DNA girase e na topoisomerase IV.
Aplicação da antibioticoterapia no centro cirúrgico
Endocardite
Na endocardite os agentes etiológicos mais comuns são Streptococcus canis e Streptococcus bovis, responsáveis por cerca de 29% dos casos em cães.
“Aproximadamente, 20% são causados por Bartonella. Em menor número, cerca de 15%, temos espécies de Staphylococcus e bacilos gram-negativos como E. coli, Pseudomonas e Salmonella. Mais raramente, podem ocorrer Actinomyces, Mycobacterium, Corynebacterium e Enterococcus”, citou o veterinário.
Nesta afecção, geralmente, se busca uma cobertura de amplo espectro, com doxiciclina associada a uma fluoroquinolona,
Pneumonia por aspiração
A pneumonia por aspiração tem como agente etiológico principal a Pasteurella. No entanto, também é possível observar bactérias gram-negativas, como E. coli, Klebsiella e Pseudomonas, além de microrganismos anaeróbios e gram-positivos, como Streptococcus, Staphylococcus e Enterococcus.
De acordo com Wolf, em cães com colapso de traqueia, há taxas elevadas de Pseudomonas. Portanto, se esse animal com colapso traqueal desenvolve infecção, é preciso garantir cobertura contra elas.
“Cães com corpos estranhos apresentam altas taxas de Pasteurella e microrganismos anaeróbios. Já na pneumonia por aspiração, vemos mais bactérias gram-negativas, como E. coli. Por outro lado, nas pneumonias infecciosas, os agentes mais comuns são Pasteurella, Bordetella e Mycoplasma. Por isso, nesses casos, devemos garantir cobertura para Mycoplasma e Bordetella, usando fármacos como azitromicina, doxiciclina ou fluoroquinolonas”, afirmou.
Inclusive, a bordetella é um cocobacilo gram-negativo com múltiplos mecanismos de resistência. Ao combatê-la, o ideal é evitar amoxicilina-clavulanato, pois não penetra bem nas secreções respiratórias. Nesses casos, o uso preferencial deve ser por doxiciclina ou fluoroquinolonas.
Piotórax
No gatos, mais de 75% dos casos de piotórax são causados por Pasteurella ou microrgaismos anaeróbios. Em cães, anaeróbios e enterobactérias como E. coli e Klebsiella são mais comuns.
“Geralmente, esses quadros respondem bem a penicilinas, clindamicina, doxiciclina, cloranfenicol, ceftriaxona ou meropenem”, esclareceu.

MRSA / MRSP
Conforme relatou Jacob, um estudo canadense com 150 pacientes mostrou que as fluoroquinolonas foram os únicos antimicrobianos associados ao aumento do risco de colonização e infecção por MRSA. Dessa forma, essas medicações devem ser usadas por períodos curtos – e apenas quando realmente indicadas.
Já para o combate a MRSP, o cloranfenicol ainda é considerado eficaz, porém novos pontos de corte reduziram muito sua utilidade clínica, além de existirem substanciais efeitos colaterais associados a doses mais altas.
Fasciíte necrosante
Para finalizar, o profissional comentou que o agente mais comum da Fasciíte necrosante é Streptococcus canis (estreptococo do grupo G), mas a doença também pode ocorrer devido a Staphylococcus, gram-negativos e anaeróbios.
“O S. canis é um coco gram-positivo capaz de produzir superantígenos, aumentando sua patogenicidade. Portanto, a clindamicina é particularmente útil porque suprime a produção de exotoxinas”, finalizou.
