O uso de células-tronco na Medicina Veterinária tem se expandido como opção terapêutica em cães e gatos, exigindo critérios claros e respaldo científico para sua aplicação clínica
Durante a VMX 2026, a médica-veterinária Rebecca Windsor apresentou uma atualização abrangente sobre as aplicações das terapias com células-tronco em cães e gatos, contextualizando o avanço dessa abordagem na rotina clínica e destacando a importância de utilizá-la com critério científico.
Segundo a palestrante, o crescimento do interesse pela terapia celular exige responsabilidade técnica e alinhamento com a medicina baseada em evidências.
O papel das células-tronco na Medicina Veterinária atual
De acordo com a profissional, as células-tronco mais utilizadas na clínica de pequenos animais são as células-tronco mesenquimais, obtidas principalmente do tecido adiposo ou da medula óssea.
Windsor explicou que o efeito terapêutico dessas células está menos relacionado à substituição direta de tecidos e mais à sua ação moduladora.
“Essas células não funcionam como um enxerto que se transforma em cartilagem ou rim novo. Elas atuam principalmente regulando a inflamação e criando um ambiente biológico mais favorável à recuperação”, afirmou
Indicações clínicas mais consolidadas
Ao abordar as principais indicações, a palestrante destacou que as doenças osteoarticulares, como a osteoartrite em cães, concentram o maior volume de evidências científicas.
Nesses casos, segundo Windsor, os benefícios incluem melhora funcional, redução da dor e, em alguns pacientes, diminuição da necessidade de medicamentos de uso contínuo.
A profissional também comentou sobre outras aplicações em avaliação, como:
- Doenças inflamatórias intestinais, especialmente em pacientes refratários
- Doença renal crônica em gatos, com resultados ainda inconsistentes
- Doenças imunomediadas, nas quais o efeito imunomodulador pode auxiliar no controle clínico
“Nem todo paciente é um bom candidato à terapia celular. A seleção correta do caso é tão importante quanto a técnica utilizada”, ressaltou.

Origem das células e vias de administração
Durante a apresentação, Windsor explicou que as terapias podem ser realizadas com células autólogas, coletadas do próprio paciente, ou alogênicas, provenientes de doadores. Segundo a palestrante, os protocolos alogênicos têm se popularizado por facilitarem a logística e permitirem início mais rápido do tratamento.
As vias de administração variam conforme a indicação clínica e incluem aplicações intra-articulares, intravenosas ou locais.
“Não existe uma única forma correta de aplicação; tudo depende da doença, do estágio e do objetivo terapêutico”, pontuou a profissional.
Evidências científicas e expectativas realistas
Apesar do entusiasmo em torno da terapia celular, a profissional reforçou que ainda há lacunas importantes na literatura científica, especialmente em relação à dose ideal, frequência de aplicações e duração dos efeitos.
“Células-tronco não são uma cura milagrosa, mas podem ser uma ferramenta valiosa quando bem indicadas”, alertou.
Segurança e uso responsável
Do ponto de vista da segurança, os dados atuais indicam baixo risco de efeitos adversos quando as células-tronco mesenquimais são utilizadas de forma adequada.
Ainda assim, Windsor enfatizou a necessidade de seguir normas regulatórias, garantir rastreabilidade do material biológico e manter uma comunicação clara com os tutores.
“O uso responsável começa com informação de qualidade e consentimento bem esclarecido”, destacou a palestrante.
Perspectivas para o futuro da terapia celular
Windsor ressaltou que a terapia com células-tronco representa uma área em constante evolução na Medicina Veterinária.
Novas pesquisas devem ampliar as indicações clínicas e tornar os protocolos mais precisos.
“O futuro dessa área depende diretamente de pesquisa sólida e de profissionais dispostos a aplicar essa tecnologia com critério e ética”, concluiu.

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