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Cães e gatos percebem movimentos que passam despercebidos pelos humanos? Entenda

Características da retina ajudam os pets a detectar estímulos em movimento e enxergar em ambientes com pouca luz

Cães e gatos percebem movimentos que passam despercebidos pelos humanos? Entenda
Por Stéfani Campos Chagas
6 de novembro de 2026

Cães e gatos percebem o mundo visual de maneira diferente dos humanos.

Embora a visão humana seja mais eficiente para identificar detalhes minuciosos, os pets apresentam adaptações que favorecem a detecção de determinados movimentos e a orientação em ambientes com pouca iluminação.

Essas diferenças ajudam a explicar por que um inseto, um reflexo ou um brinquedo em movimento pode chamar tanto a atenção dos animais.

Segundo Aline Oliveira Coelho, médica-veterinária, mestre em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais com especialização em Oftalmologia Veterinária, essas características estão relacionadas à evolução de cada espécie e às necessidades de sobrevivência.

“Cada espécie desenvolveu, ao longo da evolução, a capacidade visual que favorece seu estilo de vida”, explica a profissional.

A posição dos olhos, a distribuição dos receptores na retina e a capacidade de processar estímulos luminosos influenciam a maneira como cães, gatos e humanos identificam objetos, acompanham movimentos e interpretam o ambiente.

Como cães e gatos percebem movimentos rápidos?

Uma das diferenças está na organização da retina, estrutura responsável por captar a luz e transformar os estímulos luminosos em sinais enviados ao cérebro.

Enquanto os humanos possuem uma região chamada mácula, com alta concentração de receptores que favorecem a percepção de detalhes, os pets apresentam adaptações retinianas que contribuem para a detecção de movimentos em diferentes áreas do campo visual.

“Com isso, cães e gatos são bem mais perceptivos quando se trata de um objeto em movimento, justamente por terem receptores espalhados em faixa horizontal, ao invés de concentrados na região macular”, esclarece Aline.

Outro fator envolvido é a chamada frequência crítica de fusão, que corresponde à frequência em que estímulos luminosos sucessivos deixam de ser percebidos como flashes separados e passam a ser interpretados como uma imagem contínua. Essa característica ajuda a explicar por que a tecnologia de telas pode influenciar o interesse dos animais pelas imagens exibidas.

A percepção de movimento, porém, não depende apenas dos olhos. Quando um inseto ou brinquedo se desloca, a retina transforma a luz refletida pelo objeto em sinais elétricos, que seguem pelo nervo óptico até as áreas cerebrais responsáveis pelo processamento visual.

Assim, o cérebro interpreta informações sobre posição, velocidade e trajetória, enquanto os olhos realizam movimentos coordenados para acompanhar o alvo.

Adaptações na retina
Adaptações na retina tornam cães e gatos altamente sensíveis à detecção de movimentos rápidos (Foto: Reprodução)

Visão noturna e percepção das cores

Cães e gatos também apresentam adaptações que favorecem a visão em ambientes pouco iluminados. Entre elas está o tapetum lucidum, uma estrutura que reflete a luz de volta pela retina, aumentando seu aproveitamento. É esse mecanismo que contribui para o brilho observado nos olhos dos animais quando iluminados por faróis ou lanternas.

Além disso, essas espécies possuem maior proporção de bastonetes, células fotorreceptoras importantes para a visão em baixa luminosidade.

“Para favorecer a visão noturna, cães e gatos têm uma estrutura chamada ‘tapetum lucidum’, que os torna cerca de três vezes mais sensíveis em ambientes de pouca luz do que nós, humanos”, afirma a médica-veterinária.

Os gatos apresentam adaptações ainda mais acentuadas para enxergar nessas condições, o que favorece a localização e o acompanhamento de pequenos animais durante a atividade predatória.

Por outro lado, os pets distinguem menos cores do que os humanos. Enquanto a visão humana conta com três tipos de cones relacionados à percepção das cores, os cães e gatos possuem dois.

Isso significa que não percebem o espectro de cores da mesma forma que nós, especialmente nas faixas do vermelho e do verde.

Por que os pets perseguem insetos, sombras e reflexos?

A sensibilidade a estímulos em movimento ajuda a explicar comportamentos comuns, como perseguir insetos, acompanhar brinquedos e reagir a reflexos luminosos.

Pequenos deslocamentos e mudanças repentinas de direção podem despertar a atenção dos animais e desencadear respostas de orientação ou perseguição.

Nos gatos, esse comportamento está especialmente relacionado à sequência predatória natural, que envolve localizar, acompanhar e perseguir uma possível presa. Nos cães, pode estar associado à curiosidade, à brincadeira e, em determinadas raças, a comportamentos de pastoreio.

A percepção visual, entretanto, tem limitações. Detectar que algo está se movendo não significa necessariamente identificar com precisão sua forma, suas cores ou seus contornos. Em ambientes escuros, por exemplo, o contraste entre o objeto e o fundo pode fazer diferença.

capacidade visual
Presença do tapetum lucidum amplia a capacidade visual dos pets em ambientes com pouca luz (Foto: Reprodução)

Alterações na visão exigem atenção dos responsáveis

O envelhecimento pode afetar diferentes estruturas oculares e comprometer a capacidade de enxergar.

Entre as alterações que merecem atenção estão a catarata, que provoca a opacificação do cristalino; o glaucoma, que pode levar à perda irreversível da visão; e o olho seco, que pode causar irritação e lesões na córnea.

Também existem alterações neurológicas que interferem na interpretação dos estímulos visuais, mesmo quando as estruturas dos olhos parecem normais. Por isso, mudanças comportamentais podem funcionar como sinais de alerta.

Deixar de acompanhar brinquedos, esbarrar em móveis, demonstrar insegurança em escadas ou apresentar dificuldade para circular em ambientes pouco iluminados são situações que merecem investigação.

Entre os sinais oculares estão vermelhidão, lacrimejamento excessivo, secreção, dor, opacidade e mudanças no tamanho das pupilas.

Aline ressalta que os responsáveis devem observar até mesmo alterações discretas, já que os animais podem compensar parte da dificuldade visual com outros sentidos, principalmente o olfato.

“É importante os responsáveis estarem atentos a pequenas alterações comportamentais, pois os animais tendem a se adaptar ou compensar dificuldades visuais com outros órgãos dos sentidos”, adverte a médica-veterinária.

A profissional recomenda avaliações oftalmológicas desde a infância para investigar possíveis doenças congênitas e acompanhamento preventivo periódico, pois algumas condições, como o glaucoma, podem evoluir silenciosamente.

Diante de alterações súbitas na visão, dor ou vermelhidão intensa, a avaliação veterinária deve ser realizada prontamente.