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Testes genéticos em pets avançam e transformam a Medicina Veterinária

Exames de DNA ajudam a identificar doenças hereditárias, estimar predisposições e orientar tratamentos individualizados em cães e gatos

Testes genéticos em pets avançam e transformam a Medicina Veterinária
Por Stéfani Campos Chagas
5 de novembro de 2026

Os testes genéticos vêm ampliando as possibilidades de diagnóstico, prevenção e acompanhamento de doenças em cães e gatos.

Com os avanços no conhecimento do genoma dessas espécies, os exames de DNA permitem identificar variantes associadas a enfermidades hereditárias, reconhecer animais portadores de mutações e auxiliar na escolha de estratégias terapêuticas e reprodutivas.

Segundo Samantha Ive Miyashiro, médica-veterinária, mestre e doutora, com atuação em Patologia Clínica Veterinária e diretora técnico-operacional do TECSA Laboratórios, essas ferramentas aproximam a prática clínica do conceito de medicina de precisão.

“Na prática clínica, a genética vem aproximando a Medicina Veterinária do conceito de medicina de precisão, possibilitando decisões diagnósticas e terapêuticas mais individualizadas, especialmente em doenças hereditárias, farmacogenética e Oncologia Veterinária”, explica.

Quais testes genéticos podem ser utilizados na rotina veterinária?

Os exames disponíveis abrangem diferentes finalidades. Os testes para doenças monogênicas investigam variantes específicas associadas a enfermidades hereditárias, como a atrofia progressiva da retina, a mielopatia degenerativa em cães e a doença renal policística em gatos Persas.

Já os testes de portadores identificam animais clinicamente saudáveis que carregam variantes recessivas e podem transmiti-las aos descendentes.

Também existem testes de predisposição genética, painéis multigênicos e exames farmacogenéticos, além de análises moleculares aplicadas à Oncologia Veterinária.

Qual escolher depende da suspeita clínica, do histórico do paciente, da raça e da finalidade da investigação.

Na rotina veterinária, essas ferramentas podem auxiliar na investigação de doenças oftálmicas, neurológicas, renais e cardíacas hereditárias, além de contribuir para o aconselhamento genético e o planejamento reprodutivo.

Exames de DNA
Exames de DNA permitem identificar precocemente doenças hereditárias e personalizar tratamentos em pets (Foto: Reprodução)

Testes de DNA ajudam na prevenção e no diagnóstico precoce?

Uma das principais contribuições dos testes genéticos é possibilitar a identificação de determinadas variantes antes do aparecimento dos sinais clínicos. Entretanto, a capacidade de prever uma doença varia conforme a alteração investigada e as evidências científicas disponíveis.

Um exemplo é a doença renal policística (PKD) em gatos Persas. A identificação da variante associada ao gene PKD1 pode orientar o acompanhamento da função renal e auxiliar no planejamento reprodutivo.

Na mielopatia degenerativa canina, a análise do gene SOD1 contribui para avaliar o risco genético, embora não determine isoladamente se o animal desenvolverá a enfermidade.

A farmacogenética também tem aplicação prática. O estudo de variantes do gene ABCB1, anteriormente conhecido como MDR1, é importante porque determinadas alterações podem comprometer a função da glicoproteína P, envolvida no transporte de medicamentos e na proteção de barreiras biológicas.

“Esses pacientes podem apresentar maior risco de toxicidade após exposição a ivermectina, doramectina, loperamida e alguns agentes antineoplásicos”, alerta Miyashiro.

O conhecimento do genótipo pode auxiliar o médico-veterinário na escolha de medicamentos e no ajuste de doses, conforme o caso.

Como interpretar os resultados dos testes genéticos?

A identificação de uma variante não significa necessariamente que o animal desenvolverá a doença associada. A interpretação depende do tipo de mutação, do padrão de herança, da penetrância, da expressividade e da possível influência de fatores ambientais e de outros genes.

Em doenças autossômicas recessivas, por exemplo, animais que possuem apenas uma cópia da variante geralmente não apresentam a enfermidade, mas podem transmiti-la aos descendentes. Por isso, o resultado precisa ser avaliado considerando as características da doença e os objetivos do exame.

“Os resultados sempre devem ser interpretados em conjunto com histórico clínico, exame físico, exames complementares e características raciais”, ressalta a médica-veterinária.

A escolha do laboratório merece atenção. Entre os critérios estão a validação científica do teste, a existência de publicações revisadas por pares, o controle de qualidade e a transparência na apresentação dos resultados.

Nem todas as doenças hereditárias têm suas variantes conhecidas, e associações genéticas identificadas em uma raça podem não se aplicar da mesma maneira a outras populações.

Avanço dos painéis genéticos
Avanço dos painéis genéticos amplia a prevenção e o controle farmacológico na clínica veterinária (Foto: Reprodução)

Acesso e atualização profissional são desafios

Apesar dos avanços, o custo dos exames, a disponibilidade de determinadas análises e a necessidade de capacitação profissional ainda limitam a incorporação dos testes genéticos à rotina clínica.

Para Miyashiro, a ampliação do uso dessas ferramentas depende tanto da evolução tecnológica quanto da formação dos profissionais.

“Os ciclos de reciclagem e atualização científica são extremamente importantes para que os veterinários possam conhecer essas novas ferramentas para entender quando podem ser aplicadas a alguns casos e como abordar o responsável, seja na indicação, seja na interpretação dos resultados”, afirma.

Entre as tendências para os próximos anos estão o sequenciamento de nova geração (NGS), a ampliação dos painéis genéticos, o avanço da oncologia molecular e a expansão da farmacogenômica.

A integração de informações genéticas com o histórico clínico e outros exames também poderá contribuir para decisões mais individualizadas.

Nesse cenário, o uso responsável dos testes depende da seleção adequada dos exames, da qualidade dos métodos laboratoriais e da interpretação dos resultados dentro do contexto clínico de cada paciente.