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Cães e gatos reconhecem pessoas pelo cheiro? Veja o que diz a ciência

Estudos indicam que os pets conseguem diferenciar odores familiares de desconhecidos, enquanto a memória olfativa contribui para o reconhecimento social

Cães e gatos reconhecem pessoas pelo cheiro? Veja o que diz a ciência
Por Stéfani Campos Chagas
2 de novembro de 2026

O olfato tem papel fundamental na maneira como cães e gatos exploram o ambiente, reconhecem indivíduos e estabelecem relações sociais.

Mais do que identificar cheiros, os animais conseguem distinguir odores de pessoas conhecidas e desconhecidas, utilizando essas informações para orientar parte de suas respostas comportamentais.

Essa capacidade está relacionada à detecção de moléculas odoríferas por receptores presentes no epitélio olfatório. Os estímulos são convertidos em sinais neurais, processados pelo sistema nervoso central e associados à aprendizagem, à memória e ao comportamento.

Segundo a médica-veterinária e docente do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), em Indaiatuba (SP), Nathalia Villaça Xavier, o olfato é essencial para a exploração ambiental, a comunicação social e o reconhecimento de indivíduos.

Nos cães, esse sentido também está relacionado a atividades especializadas de detecção. Nos gatos, contribui para a exploração do ambiente e para a diferenciação entre indivíduos familiares e desconhecidos.

Como cães e gatos reconhecem pessoas pelo cheiro?

Evidências científicas indicam que cães e gatos conseguem discriminar odores humanos familiares e desconhecidos. Entretanto, esse reconhecimento não depende de uma única substância, mas da combinação de diferentes compostos químicos presentes no odor corporal.

Um estudo publicado em 2015 por Berns, Brooks e Spivak investigou, por meio de ressonância magnética funcional, as respostas cerebrais de cães expostos a odores de animais, pessoas familiares e desconhecidos.

O odor de uma pessoa familiar provocou a maior resposta no núcleo caudado, região cerebral associada ao processamento de recompensas. O resultado sugere que o cheiro de alguém conhecido pode ativar associações sociais aprendidas, mesmo quando essa pessoa não está presente.

Nos gatos, uma pesquisa publicada em 2025 por Miyairi e colaboradores avaliou as reações dos animais a amostras de odor de seus responsáveis, de pessoas desconhecidas e a um controle sem odor humano. Os felinos passaram mais tempo investigando os odores desconhecidos do que os familiares, indicando que conseguem diferenciá-los.

Esses resultados demonstram a importância das informações olfativas nas interações sociais, mas não significam que os animais interpretem os cheiros da mesma maneira que os seres humanos.

O que faz o cheiro de uma pessoa ser reconhecido?

O odor corporal humano é composto por uma mistura de substâncias provenientes da pele, do suor e da respiração. Sua composição pode ser influenciada pela atividade metabólica, pela microbiota cutânea e pelo uso de cosméticos.

Com a experiência, cães e gatos podem aprender a associar determinados padrões de odor a pessoas familiares. Contudo, a composição química desses estímulos varia conforme o contexto, e a capacidade de reconhecimento pode depender do histórico de exposição de cada animal.

“O reconhecimento pode depender de padrões químicos aprendidos, cuja composição varia conforme o contexto”, explica Nathalia.

Perfumes, produtos de higiene, atividade física e contato recente com outros animais, por exemplo, podem modificar os odores percebidos. Assim, uma pessoa conhecida pode apresentar um perfil olfativo diferente daquele ao qual o pet está habituado.

Isso não significa necessariamente que o animal deixará de reconhecê-la, mas que poderá investigar o cheiro por mais tempo ou apresentar respostas diferentes diante daquele estímulo.

Cães odor
Cães associam o odor de pessoas familiares a estímulos positivos no cérebro (Foto: Reprodução)

Pets conseguem reconhecer pessoas depois de muito tempo?

Cães e gatos possuem capacidade de aprendizagem e memória olfativa, permitindo que odores previamente conhecidos influenciem suas respostas mesmo após períodos sem contato.

No entanto, é importante diferenciar a capacidade de identificar um odor familiar da comprovação de que um animal reconhece uma pessoa após meses ou anos de afastamento.

De acordo com Nathalia, ainda são necessários estudos específicos para determinar a duração dessa memória em cães e gatos depois de períodos prolongados.

A resposta durante um reencontro pode variar conforme a experiência anterior, a idade, o estado de saúde e o contexto.

“A ausência de uma reação exuberante não significa necessariamente que o animal deixou de reconhecer a pessoa”, ressalta a médica-veterinária.

Portanto, a intensidade da reação durante um reencontro não deve ser utilizada isoladamente para avaliar se o pet reconheceu a pessoa. O comportamento precisa ser considerado em conjunto com o histórico do animal e as circunstâncias da interação.

O cheiro humano pode revelar mudanças emocionais?

Alterações fisiológicas associadas ao estresse podem modificar o odor humano, e há evidências de que cães treinados conseguem detectar essas diferenças.

Em um estudo publicado em 2022, Wilson e colaboradores avaliaram amostras de hálito e suor coletadas antes e depois de uma situação de estresse psicológico. Os cães participantes conseguiram distinguir as amostras posteriores ao estresse das amostras basais da mesma pessoa, indicando que mudanças fisiológicas podem produzir alterações químicas detectáveis pelo olfato canino.

Nos gatos, pesquisas sugerem sensibilidade a informações químicas relacionadas a determinados estados emocionais humanos. Isso, porém, não comprova que os felinos reconheçam conscientemente uma emoção ou compreendam sua causa.

Alterações hormonais podem influenciar o odor corporal, mas ainda faltam evidências específicas para afirmar que os animais identificam mudanças relacionadas, por exemplo, ao ciclo menstrual, à gestação ou a doenças endócrinas apenas pelo cheiro.

Como interpretar as reações dos animais?

Além do olfato, cães e gatos utilizam informações visuais, auditivas e comportamentais para reconhecer pessoas. A voz, a postura corporal, o modo de caminhar, os movimentos e as rotinas podem funcionar como pistas complementares.

Por isso, uma reação diferente diante de alguém não deve ser interpretada automaticamente como rejeição ou desconfiança. A investigação olfativa pode ser apenas uma resposta a um cheiro novo ou diferente do habitual.

“Em situações cotidianas, essas informações não atuam necessariamente de forma independente”, explica Nathalia ao abordar a integração entre os sentidos. Um cão pode reconhecer alguém pela combinação de voz, aparência e odor e recorrer a outras pistas quando uma dessas modalidades está ausente.

Perfumes, cosméticos, produtos de limpeza, atividade física e contato recente com outros animais podem modificar os odores aos quais o pet está exposto. Essas mudanças ajudam a explicar por que uma pessoa familiar pode despertar maior interesse olfativo em determinadas ocasiões.

Logo, é importante observar o conjunto do comportamento. Afastamento persistente, postura corporal tensa, tentativas de fuga ou agressividade defensiva podem indicar desconforto, mas não identificam isoladamente sua causa. Experiências anteriores, mudanças ambientais, dor e alterações sensoriais também devem ser considerados.

A médica-veterinária enfatiza que a interpretação precisa levar em conta o contexto da interação. “O comportamento deve ser interpretado considerando o conjunto de informações presentes, o histórico do animal e o contexto da interação.”

Caso a mudança comportamental seja súbita, intensa ou persistente, a avaliação de um médico-veterinário pode ajudar a investigar possíveis causas.

Gatos cheiros
Gatos dedicam mais tempo investigando cheiros humanos desconhecidos (Foto: Reprodução)

Cães têm olfato melhor do que gatos para reconhecer pessoas?

Embora as duas espécies utilizem o olfato para obter informações sociais, as pesquisas disponíveis não permitem afirmar que cães sejam necessariamente superiores aos gatos nessa tarefa específica.

“Os estudos atuais não permitem estabelecer uma comparação quantitativa direta que demonstre que cães sejam necessariamente melhores do que gatos em reconhecer pessoas exclusivamente pelo cheiro”, destaca Nathalia.

A literatura experimental sobre o reconhecimento olfativo de seres humanos é mais extensa para cães do que para gatos. Essa diferença no volume de pesquisas, entretanto, não deve ser interpretada automaticamente como superioridade funcional.

Idade, estado de saúde, experiência de socialização, temperamento e histórico de exposição podem influenciar as respostas individuais.

Assim, o cheiro constitui uma importante fonte de informação para cães e gatos, contribuindo para a identificação de pessoas familiares e para as interações sociais. Essa capacidade, porém, deve ser compreendida em conjunto com a memória, a aprendizagem e os demais sentidos.

Referências:

BERNS, G. S.; BROOKS, A. M.; SPIVAK, M. Scent of the familiar: an fMRI study of canine brain responses to familiar and unfamiliar human and dog odors. Behavioural Processes, v. 110, p. 37–46, 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0376635714000473

MIYAIRI, Y. et al. Behavioral responses of domestic cats to human odor. PLOS ONE, v. 20, n. 5, e0324016, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12118816/

WILSON, C. et al. Dogs can discriminate between human baseline and psychological stress condition odours. PLOS ONE, v. 17, n. 9, e0274143, 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9518869/

D’INGEO, S. et al. Relationship between asymmetric nostril use and human emotional odours in cats. Scientific Reports, v. 13, art. 10982, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10326042/