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Quando o adolescente se diz lobo: o que a Psicologia sabe — e o quanto ainda não sabe

Vivemos um tempo em que alguns fenômenos chegam até nós primeiro pelas redes sociais e só depois pela ciência. Os therians talvez sejam um desses casos. E, justamente por isso, minha primeira preocupação ao escrever sobre o tema foi outra: como falar sem estigmatizar

Quando o adolescente se diz lobo: o que a Psicologia sabe — e o quanto ainda não sabe
Por Juliana Sato
23 de julho de 2026

Os therians são pessoas que se identificam, de maneira psicológica ou espiritual, com um animal não humano. Alguns adolescentes vestem acessórios, andam de quatro, imitam comportamentos de lobos, gatos ou raposas.

Isso costuma causar estranhamento em quem observa de fora. Mas é importante esclarecer: não se trata da crença de que houve uma transformação física. O que esses jovens descrevem é uma experiência interna de identidade, percebida como parte de quem são.

Fui procurar o que a ciência sabe sobre isso e encontrei um cenário que, por si só, já merece atenção: sabemos muito pouco.

Localizei apenas um estudo empírico comparando therians e não-therians em aspectos relacionados à saúde mental e ao bem-estar, publicado em 2019 por pesquisadoras de universidades do Reino Unido. Isso não significa que seja a única pesquisa existente, mas mostra como o tema ainda foi pouco explorado.

Há outro aspecto importante. Esse estudo não investigou a onda recente de adolescentes que viralizou nas redes sociais. A pesquisa foi realizada com pessoas recrutadas em fóruns de língua inglesa que, em média, se identificavam como therians havia cerca de dez anos — algumas, inclusive, há mais de quatro décadas.

Ou seja, estamos falando de um grupo bastante específico. As próprias autoras reconhecem que não é possível generalizar os resultados para outros contextos, e não encontrei estudos realizados no Brasil.

Talvez justamente por isso os achados sejam mais interessantes do que as interpretações rápidas que costumam aparecer. Os participantes apresentavam mais dificuldades nas relações interpessoais, mas as pesquisadoras não concluíram que a identidade therian fosse a causa desse sofrimento.

Uma das hipóteses levantadas é que viver uma identidade frequentemente recebida com estranhamento, preconceito ou ridicularização possa favorecer o isolamento e gerar sofrimento psicológico.

Ao mesmo tempo, os participantes obtiveram escores mais elevados em autonomia. É como se encontrar uma narrativa capaz de dar sentido à própria experiência, ainda que distante daquilo que é considerado comum, favorecesse uma maior organização interna.

Não por acaso, as autoras defendem que esse fenômeno não seja automaticamente tratado como um transtorno.

Há um dado da pesquisa que chamou minha atenção, especialmente para quem trabalha com o universo PetVet. Entre os animais com os quais esses participantes se identificavam, predominavam cães, lobos e gatos.

Talvez isso não seja coincidência. São justamente os animais que hoje ocupam um lugar profundamente afetivo na vida das pessoas, aqueles pelos quais reorganizamos a rotina, construímos vínculos intensos e, muitas vezes, vivemos experiências marcadas pelo cuidado e pela perda. São também os animais que fazem parte do cotidiano do médico-veterinário.

Ainda assim, continuo acreditando que a maior pergunta não é sobre os animais, mas sobre os adolescentes. A adolescência é um período marcado pela construção da identidade. Experimentar papéis, buscar pertencimento, sentir-se diferente ou tentar nomear experiências internas faz parte desse processo.

adolescencia
O fenômeno abre debates sobre acolhimento, saúde mental e a construção da identidade na adolescência (Foto: Reprodução)

Em alguns casos, pode haver sofrimento psicológico importante. Em outros, pode haver apenas uma forma singular de compreender a si mesmo. Muito provavelmente, existem experiências bastante distintas reunidas hoje sob o mesmo nome.

É justamente por isso que desconfio das respostas prontas. Reduzir tudo a uma “moda da internet” simplifica um fenômeno complexo. Transformar qualquer experiência incomum em diagnóstico faz o mesmo movimento na direção oposta. Nenhuma dessas posições parece sustentada pelas evidências que temos até agora.

Como psicóloga, não escrevo este texto para afirmar o que os therians são, porque a verdade é que ainda não sabemos. Escrevo porque a forma como os adultos respondem ao que não compreendem costuma dizer muito sobre nós.

Entre ridicularizar e escutar existe uma distância enorme e, muitas vezes, é justamente ela que determina se um adolescente continuará falando sobre sua experiência ou aprenderá que precisa escondê-la.

Quando um adolescente afirma que é um lobo, talvez a pergunta mais importante não seja se ele está certo ou errado, nem se está saudável ou doente. Talvez a pergunta seja outra: o que o lobo representa para ele?

Enquanto a ciência ainda busca respostas, essa continua sendo, para mim, a questão que merece mais atenção.