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Dia Nacional da Saúde Única: entenda a conexão entre pessoas, animais e ambiente

Celebrada em 3 de novembro, a data alerta para a prevenção de zoonoses e reforça a importância da integração entre saúde humana, animal e ambiental

Dia Nacional da Saúde Única: entenda a conexão entre pessoas, animais e ambiente
Por Stéfani Campos Chagas
3 de novembro de 2026

A saúde das pessoas, dos animais e do meio ambiente está diretamente conectada. Enchentes, desmatamento, mudanças climáticas e falta de saneamento básico podem favorecer a disseminação de doenças, evidenciando a necessidade de ações integradas para proteger a saúde coletiva. Essa é a premissa da Saúde Única, abordagem que reconhece a interdependência entre esses três componentes.

Celebrado em 3 de novembro, o Dia Nacional da Saúde Única foi instituído no Brasil pela Lei nº 14.792/2024 e busca ampliar a conscientização sobre essa relação.

Para Paulo Abílio Varella Lisboa, médico-veterinário, mestre e doutor em Ciências Veterinárias e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a abordagem precisa ultrapassar os limites acadêmicos e orientar decisões práticas.

“A Saúde Única não é um conceito corporativo ou de gabinete, é a real e prática de que a saúde humana, a saúde animal e a integridade dos ecossistemas formam um sistema único e absolutamente indissociável”, afirma.

Segundo o pesquisador, a data representa uma oportunidade de levar o tema às escolas, à imprensa e aos debates públicos, fortalecendo a educação em saúde e a formulação de políticas públicas.

Zoonoses evidenciam a conexão entre pessoas, animais e ambiente

Entre os exemplos dessa interdependência está a leptospirose, doença associada à exposição à água ou à lama contaminada pela urina de animais infectados, principalmente roedores. O risco aumenta durante enchentes, especialmente em locais com acúmulo de lixo e infraestrutura de saneamento insuficiente.

Lisboa relata que situações de alagamento podem expor simultaneamente animais e pessoas à bactéria causadora da doença.

“O cão chega à clínica molhado, febril, com icterícia, e o responsável relata que a água invadiu a casa na madrugada; dias depois, esse mesmo responsável vai parar na emergência com dor nas pernas, acometido pela mesma leptospira”, exemplifica.

Outras zoonoses que demandam atenção incluem a leishmaniose visceral, transmitida pela picada de flebotomíneos infectados, e a esporotricose, infecção fúngica que pode ser transmitida de gatos infectados para pessoas, principalmente por arranhaduras e mordeduras ou pelo contato com lesões contaminadas.

O pesquisador destaca doenças relacionadas aos ciclos silvestres, como a febre amarela e a febre Oropouche, além de ameaças à saúde animal, como a influenza aviária. Cada enfermidade apresenta formas específicas de transmissão e exige medidas próprias de vigilância e prevenção.

rotina clínica
Na rotina clínica, a atuação do médico-veterinário é sentinela para a detecção de doenças na comunidade (Foto: Reprodução)

Desmatamento e mudanças climáticas ampliam riscos sanitários

A degradação ambiental também pode modificar a dinâmica de circulação de agentes infecciosos.

O desmatamento, a fragmentação de habitats e a expansão urbana desordenada alteram as interações entre animais silvestres, vetores e seres humanos, enquanto a falta de saneamento favorece a presença de roedores e outros transmissores de doenças.

As mudanças climáticas acrescentam outro fator de preocupação, pois eventos extremos podem alterar a distribuição de vetores, comprometer ecossistemas e deslocar populações humanas e animais.

Nesse contexto, o pesquisador cita os bugios como importantes sentinelas da circulação do vírus da febre amarela. Esses primatas podem adoecer e morrer antes da identificação de casos humanos em determinadas áreas, funcionando como um alerta para a vigilância epidemiológica.

A perspectiva da Saúde Única abrange problemas que vão além das doenças transmissíveis. Entre eles estão a resistência aos antimicrobianos, associada ao uso inadequado desses medicamentos, e a contaminação ambiental por agrotóxicos, resíduos farmacêuticos e plásticos.

Médico-veterinário tem papel estratégico na prevenção

A atuação dos médicos-veterinários é fundamental para identificar riscos, orientar responsáveis pelos animais e contribuir para a detecção precoce de doenças. De acordo com Paulo, a rotina clínica pode funcionar como uma importante fonte de informações para a vigilância epidemiológica.

“O veterinário que acolhe o animal no consultório não trata apenas de um paciente isolado: ele investiga o contexto, orienta sobre vacinação e percebe sinais precoces de doenças que circulam na comunidade”, esclarece.

Além da identificação de possíveis casos, a prevenção envolve vacinação, controle de parasitas, acompanhamento médico-veterinário e manejo ambiental adequado. A vacinação de cães contra a raiva, por exemplo, contribui diretamente para a prevenção dessa zoonose.

Lisboa também ressalta a importância de incluir os animais nos planos de resposta a desastres. A oferta de resgate e abrigos seguros para animais de companhia e de produção pode facilitar a evacuação de famílias em situações de risco.

Proteger os animais
Proteger os animais e os ecossistemas é indispensável para garantir a segurança da saúde pública (Foto: Reprodução)

Como a população pode contribuir com a Saúde Única?

A prevenção começa com atitudes cotidianas. Manter os animais com acompanhamento veterinário, descartar corretamente o lixo, evitar o acúmulo de água parada e matéria orgânica e não utilizar medicamentos sem orientação profissional são medidas que ajudam a reduzir riscos sanitários.

O uso responsável de antimicrobianos é essencial para conter a resistência bacteriana. Na esfera coletiva, a participação social e a cobrança por saneamento básico, proteção de áreas verdes e políticas ambientais contribuem para condições mais seguras de vida.

Para o doutor, compreender essa interdependência é indispensável para promover a saúde de forma ampla. Ao relacionar o conceito à ideia de “Casa Comum”, o pesquisador reforça que a proteção dos ecossistemas e dos animais beneficia as pessoas.

“Afinal, cuidar do planeta e dos animais é, em última análise, cuidar de nós mesmos”, conclui.