A doenças causadas por ectoparasitas são muito faladas na Medicina Veterinária brasileira. Contudo, entre elas, existe uma afecção relativamente esquecida: a Doença de Lyme.
Com prevalência relevante nos Estados Unidos, os aspectos das enfermidade foram apresentados durante a palestra do médico-veterinário que atua como senior veterinary professional, Ed. Loebach, na VMX 2026.
No país, os principais focos da Doença de Lyme estão no nordeste, que é onde ela foi originalmente diagnosticada, e no alto Meio-Oeste.
“Embora seja, geralmente, uma enfermidade do nordeste e do alto Meio-Oeste, ela está se expandindo e pode ser encontrada em outras áreas, ao menos em pequenas quantidades”, cometou o profissional.
O agente etiológico da doença é a Borrelia burgdorferi, uma bactéria espiroqueta gram-negativa transmitida através do carrapato Ixodes scapularis. O principal reservatório na vida selvagem é o camundongo-de-pés-brancos e a bactéria possui uma enorme capacidade de variação antigênica.
De acordo com o veterinário, basicamente, ela consegue mudar sua “capa”, alterando as proteínas de superfície para dificultar o reconhecimento pelo sistema imunológico. Dentro do carrapato, enquanto está no intestino médio, ela é recoberta por uma proteína chamada proteína de superfície externa A (OspA).
“Essa proteína OspA é essencial para que a Borrelia colonize o carrapato e se replique dentro dele, mas não tem função quando a bactéria está em um mamífero. Assim, pouco antes da infecção de um mamífero, a OspA é substituída pela proteína de superfície externa C (OspC), que é a lipoproteína predominante nos estágios iniciais da infecção, mas não nos estágios tardios”, explicou.
Um fato curioso é que um carrapato adulto infectado não transmite a infecção para os seus ovos. Com isso, as larvas nascem sem Borrelia ou Anaplasma. Porém, o alimento preferencial das larvas é o camundongo-de-pés-brancos, assim como o das ninfas (o segundo estágio do carrapato). É assim que a Borrelia passa de carrapatos infectados para camundongos e depois para carrapatos não infectados, perpetuando o ciclo.

Transmissão e sinais clínicos da doença
Se um animal for picado por um carrapato contaminado, a transmissão do agente etiológico não ocorre antes de 24 horas de fixação. Contudo, após 48 horas o risco se torna significativo (cerca de 8%), depois de 72 horas sobe para quase 70% e com 96 horas chega a 94%.
“Quanto aos sinais clínicos, apenas 5–10% dos cães naturalmente infectados apresentam sinais percebidos pelos tutores. Em estudos controlados, esse número pode chegar a 20–25%. O sinal mais comum é a claudicação, muitas vezes migratória. Também pode ocorrer linfadenopatia, febre e letargia”, explicou Ed.
Menos comumente, podem ocorrer manifestações renais (nefropatia de Lyme), cardíacas ou neurológicas. Inclusive, a nefropatia de Lyme é grave, progressiva e tem alta mortalidade, sendo o diagnóstico definitivo feito apenas por biópsia.
Mesmo cães assintomáticos podem apresentar alterações subclínicas, como artrite leve, e estudos sugerem que animais expostos à Borrelia têm maior risco de desenvolver Doença Renal Crônica no futuro.
Diagnóstico e tratamento da Doença de Lyme
Os testes diagnósticos atuais são capazes de detecta anticorpos, não o agente da Doença de Lyme em si. O teste SNAP 4Dx, o TrueRapid e o VetScan são qualitativos (positivo/negativo), enquanto o C6 quantitativo fornece um título, que pode ajudar na decisão de tratamento em cães assintomáticos.
Já o tratamento envolve o uso de antibióticos, sendo os mais usados doxiciclina ou minociclina. Se os sinais não melhorarem em três dias, deve-se investigar outras causas.
Com relação a prevenção, o profissional afirmou ser multimodal e inclui algumas estratégias, como educação do tutor do animal e controle de carrapatos com antiparasitários.
Nos Estados Unidos existem também vacinas que podem proteger os animais da doença.
“A proteína OspA é o principal alvo protetor nas vacinas. Ela possui apenas uma variante na América do Norte e induz resposta imunológica duradoura. A OspC, embora presente na infecção inicial, é altamente variável e gera proteção limitada e de curta duração. As vacinas disponíveis incluem vacinas de lisado (organismo inteiro), vacinas recombinantes OspA e vacinas combinadas OspA + OspC quimérica. Estudos mostram alta eficácia, inclusive em condições reais de campo, com taxas de infecção inferiores a 1% em cães devidamente vacinados”, finalizou.
