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Doença osteometabólica em quelônios

Alterações no metabolismo de cálcio e vitamina D₃ estão entre as principais causas de problemas ósseos em cágados e jabutis

Doença osteometabólica em quelônios
Por Raquel Naomi Tanaka Scaduto
5 de maio de 2026
Última atualização: 23/06/2026 - 10:10

Na rotina da Medicina Veterinária de pets não convencionais a doença osteometabólica destaca-se como um dos distúrbios mais frequentes em quelônios, especialmente em cágados (espécies semi aquáticas) e jabutis (espécies terrestres). 

Trata-se de uma síndrome complexa que pode ter várias causas, estando principalmente relacionada a alterações no metabolismo do cálcio, fósforo e vitamina D.

Embora seja uma condição que pode ser evitada, continua sendo um desafio clínico recorrente, especialmente devido a desinformação, dietas inadequadas e falhas na oferta de radiação ultravioleta B (UVB).

Os quelônios têm como principal característica o casco, uma estrutura óssea que funciona como proteção para o corpo. Esse casco é formado pela união de ossos do esqueleto, como costelas e vértebras, e é coberto por placas de queratina. Além de proteger, também ajuda no metabolismo mineral, servindo como uma reserva importante de cálcio para o organismo. 

Quando os quelônios desenvolvem a doença osteometabólica ocorre perda progressiva de minerais no casco, que pode se tornar mole, flexível e até deformado em casos graves. Essa redução da densidade mineral aumenta o risco de fraturas e compromete o crescimento e a saúde do animal. 

Esses animais possuem exigências fisiológicas e ambientais específicas que, na natureza, são atendidas pela exposição ao sol, dieta variada e ambiente adequado. No entanto, quando mantidos como pets, essas condições, muitas vezes, não são reproduzidas corretamente, favorecendo o surgimento de problemas metabólicos.

Cuidados com a dieta 

Dietas inadequadas contém alimentos ricos em fósforo e pobres em cálcio, que comprometem o equilíbrio mineral. Exemplos disso são carnes musculares (frango e carne bovina), que são ricas em fósforo e com baixa relação Ca:P, e miúdos (fígado e coração), que possuem alto teor de fósforo. 

Além disso, ração para cães e gatos são formuladas para mamíferos e apresentam proporção mineral inadequada para répteis. Já as frutas em excesso não são ricas em fósforo e possuem baixo teor de cálcio, enquanto o alface é pobre em cálcio e possui baixo valor nutricional geral. 

Para complementar, grãos e sementes, como milho e sementes de girassol, são gordurosos e têm baixa disponibilidade de cálcio, e a oferta exagerada de proteínas em algumas espécies também pode acelerar o crescimento sem adequada mineralização óssea.

Exposição à radiação UVB

A deficiência de vitamina D é um fator muito importante para a doença osteometabólica em quelônios, pois mesmo com as melhores das dietas se o animal não tiver exposição correta à radiação UVB não conseguirá sintetizar vitamina D de forma eficiente, comprometendo a absorção intestinal do cálcio. 

Em ambiente natural, a síntese de vitamina D ocorre pela exposição à radiação ultravioleta B (UVB), quando são tipos como pets a ausência de iluminação adequada ou a utilização incorreta de lâmpadas UVB contribui significativamente para o desenvolvimento do quadro.

É importante ressaltar que a exposição deve ser direta, pois vidros e acrílicos filtram a radiação UVB. As lâmpadas devem ser específicas para répteis, posicionadas em distância adequada e substituídas periodicamente, uma vez que a emissão de UVB diminui com o tempo, mesmo que a lâmpada continue emitindo luz visível.

Manejo ambiental faz a diferença 

Por serem animais ectotérmicos, os quelônios dependem da temperatura ambiental para manter suas funções fisiológicas. Quando mantidos em temperaturas abaixo do ideal, ocorre redução da atividade metabólica e da eficiência digestiva, o que prejudica a absorção de nutrientes. 

Identificando os sinais da doença osteometabólica

As manifestações clínicas da condição variam de acordo com a gravidade da deficiência mineral e com o tempo de evolução do problema. 

Uma das alterações mais características é o amolecimento da carapaça e do plastrão. Em animais saudáveis essas estruturas são rígidas e resistentes. Entretanto, na doença ocorre uma desmineralização óssea progressiva, fazendo com que o casco se torne mais flexível e deformável. 

A piramidação das placas córneas, caracterizada pelo crescimento irregular das placas córneas da carapaça que passam a formar elevações acentuadas semelhantes a pequenas pirâmides, também podem ocorrer e, com o tempo, a carapaça perde seu formato liso e arredondado, tornando-se irregular e deformada.

Outro sinal clínico é a “mandíbula de borracha”, que ocorre quando a mandíbula perde sua rigidez devido à redução da mineralização óssea, se tornando flexível, mole ou até deformada.

Com a diminuição da densidade mineral óssea os ossos tornam-se frágeis e suscetíveis a fraturas, que podem ocorrer mesmo sem trauma significativo, sendo chamadas de fraturas patológicas. O simples ato de caminhar ou pequenos impactos podem resultar em fraturas.

Tremores musculares ou fasciculações também são comuns. Essas contrações involuntárias são resultado da alteração na transmissão neuromuscular causada pela baixa concentração de cálcio no organismo.

Já a diminuição do apetite é muito frequente e ocorre devido à dificuldade do animal em se alimentar por conta de dor, fraqueza ou deformidades na mandíbula e leva a perda de peso progressiva e piora do estado nutricional.

Em animais jovens, a doença pode, ainda, comprometer significativamente o desenvolvimento corporal. O crescimento torna-se mais lento do que o esperado para a espécie e idade e o casco pode apresentar deformidades estruturais permanentes. 

Não pode-se deixar de citar comportamento apático com redução da atividade física, que leva o animal a permanecer imóvel por longos períodos devido à dor ou incapacidade física.

Além disso, em casos avançados pode ocorrer colapso estrutural do casco, comprometimento respiratório secundário à deformidade da carapaça e falência sistêmica, podendo evoluir para óbito.

Escrita por Raquel Naomi Tanaka Scaduto, médica-veterinária mestre em animais selvagens pela Unesp de Botucatu

Confira o artigo completo “Doença osteometabólica em quelônios”, na íntegra e sem custo, acessando a página 54 da edição de abril (nº 320) da Revista Cães e Gatos.