Nos últimos anos, dietas não convencionais têm ganhado espaço expressivo na nutrição de cães e gatos.
Motivados pela busca por ingredientes mais frescos, pelo receio em relação aos aditivos industriais ou pela crença de que alimentos similares aos de consumo humano são mais saudáveis, os responsáveis por cães e gatos têm buscado cada vez mais alternativas aos alimentos comerciais.
Entre as diversas opções de dietas não convencionais disponíveis atualmente, destacam-se as caseiras cozidas e cruas, que são compostas majoritariamente por ingredientes geralmente de consumo humano, cozidos ou in natura, respectivamente (5).
Quando corretamente formuladas, dietas caseiras podem apresentar alta palatabilidade, permitir maior individualização do manejo nutricional e facilitar ajustes específicos para pacientes com doenças concomitantes ou necessidades nutricionais que não são contempladas por alimentos comerciais disponíveis.
Apesar dos benefícios, é frequente a associação errônea de que dietas caseiras são nutricionalmente completas por si só, como se a adequação nutricional da alimentação dependesse exclusivamente da escolha dos ingredientes.
Porém, sob o ponto de vista nutricional, o organismo não responde à origem dos alimentos, mas sim à quantidade e ao equilíbrio dos nutrientes presentes neles e efetivamente absorvidos. Assim, uma dieta composta por ingredientes de excelente qualidade pode permanecer nutricionalmente inadequada caso não seja capaz de atender às exigências de nutrientes específicos da espécie, fase de vida e condição fisiológica do animal.
Cães e gatos apresentam exigências nutricionais complexas e, em certos aspectos, distintas. De acordo com diretrizes nutricionais, os nutrientes essenciais para ambas as espécies incluem: proteína e seus aminoácidos constituintes (arginina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina); macrominerais (cálcio, fósforo, magnésio, potássio, sódio e cloro); microelementos (ferro, cobre, zinco, manganês, selênio e iodo); e vitaminas lipossolúveis A, D e E e hidrossolúveis do complexo B.
Além disso, fontes de gordura contendo ácidos graxos essenciais, como o ácido linoleico (série ômega-6), também devem estar presentes em concentrações adequadas.
Tais exigências nutricionais são influenciadas conforme a fase de vida em que o animal se encontra. Além da mudança na quantidade mínima recomendada de cada nutriente, durante a fase de crescimento e reprodução, torna-se essencial a inclusão de ácido araquidônico e alfa linolênico (série ômega 3) para cães e gatos.
Embora cães e gatos compartilhem diversos nutrientes essenciais, diferenças metabólicas importantes tornam as exigências entre as espécies distintas.
Os felinos, ao contrário dos cães, dependem obrigatoriamente do fornecimento dietético do aminoácido taurina e de ácido araquidônico ao longo de toda vida, consequência de adaptações evolutivas relacionadas ao seu metabolismo de carnívoros estritos, que confere limitada atividade das enzimas hepáticas envolvidas em suas sínteses.
Todos esses nutrientes atuam de forma integrada, de modo que a deficiência ou excesso de um único nutriente pode comprometer diferentes vias metabólicas e limitar a utilização de outros nutrientes, mesmo quando estes estejam presentes em quantidades adequadas.
Esse conceito torna-se particularmente evidente quando se analisam os minerais, pois além de participarem da estrutura óssea e de atividades enzimáticas, elementos como cálcio, fósforo, zinco, cobre, selênio e iodo interagem continuamente entre si durante os processos de absorção, transporte e metabolismo.
Assim, uma dieta pode conter quantidade aparentemente adequada de cálcio, por exemplo, mas ainda assim favorecer alterações ósseas caso a relação entre cálcio e fósforo esteja inadequada ou haja deficiência concomitante de vitamina D, responsável por regular a absorção intestinal desses minerais.

Por exemplo, cortes de carne animal possuem relação cálcio:fósforo inversa à ideal (rica em fósforo e pobre em cálcio), o que, sem a correção adequada, pode desencadear hiperparatireoidismo nutricional secundário, doença que pode levar a manifestações clínicas graves como fraqueza, constipação, tremores e até mesmo fraturas espontâneas.
Nesse caso, concentrações séricas normais de cálcio não excluem deficiência de cálcio na dieta, uma vez que a homeostase desse mineral é rigidamente controlada pelo organismo.
Diante de ingestão insuficiente, ocorre aumento da secreção de paratormônio (PTH), que, por sua vez, promove mobilização de cálcio ósseo, maior reabsorção renal e ativação da vitamina D, mantendo cálcio sérico dentro dos valores de referência às custas da desmineralização óssea.
Dessa forma, a avaliação isolada do mineral pode subestimar a deficiência nutricional, sendo a dosagem de PTH marcador mais sensível para a detecção precoce desta afecção.
O mesmo princípio aplica-se a diversos outros nutrientes. A absorção do zinco pode ser influenciada pela composição global da dieta. Vitaminas lipossolúveis dependem da presença de gordura para adequada absorção intestinal e aminoácidos essenciais participam de vias metabólicas dependentes umas das outras, de modo que a deficiência de um deles pode limitar a utilização dos demais.
Considerando-se dietas caseiras, o erro mais frequente entre responsáveis é supor que a simples combinação de carnes, vegetais e carboidratos é capaz de suprir todas as necessidades nutricionais. Porém, inúmeros estudos demonstram o contrário.
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