A doença renal crônica (DRC) em felinos segue como um dos principais desafios clínicos na rotina veterinária.
Estudo publicado em dezembro de 2025 no Journal of Feline Medicine and Surgery analisou a perspectiva de responsáveis por gatos diagnosticados com a enfermidade e identificou pontos críticos no acompanhamento desses pacientes.
A pesquisa, intitulada “Caregivers’ perspectives on feline chronic kidney disease in Portugal: a questionnaire-based study”, foi conduzida por Tomás Magalhães, presidente do Grupo de Interesse Especial em Medicina Felina (GIEFEL) da Associação Portuguesa de Médicos-Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC).
Embora a maioria dos entrevistados relate sentir-se devidamente informada, o estudo revela lacunas na introdução da dieta renal, na administração de quelantes de fosfato e na medição da pressão arterial.
Dieta renal ainda não é mantida de forma exclusiva
A alimentação específica é considerada a base do manejo da DRC.
Segundo as diretrizes da International Renal Interest Society (IRIS), gatos alimentados exclusivamente com dieta renal podem viver de duas a três vezes mais do que aqueles que recebem dieta convencional.
Apesar desse benefício, apenas 2,5% dos 405 responsáveis disseram ter conhecimento dessa informação.
Embora 95,6% tenham recebido recomendação para alterar a dieta, 84,2% seguiram a orientação. Entre esses, 40,8% ofereciam diariamente algum alimento não renal.
“Temos cerca de 41% dos tutores a dizer que não consegue fazer uma dieta exclusivamente renal ao seu animal e sabemos a importância de manter estes pacientes com uma dieta alimentar renal em termos de prognóstico, porque tem impacto em termos de sobrevida, na redução de crises urémicas e no controlo dos sinais clínicos”, afirma Tomás Magalhães.
Em cerca de 20% dos casos com transição alimentar, a dieta renal representava 75% ou menos da ingestão diária.
O estudo também indica que a introdução costuma ocorrer de forma não gradual e, muitas vezes, em estágios avançados, quando o gato já apresenta náuseas, vômitos e perda de apetite. Isso compromete a aceitação.
Diagnóstico precoce faz diferença
Quase 74% dos gatos já apresentavam sinais clínicos no momento do diagnóstico.
Segundo o pesquisador, identificar a doença em fases iniciais reduz a sobrecarga para o responsável e melhora o prognóstico.
A recomendação é realizar check-up anual a partir dos sete anos, com exames de sangue, urina e, quando indicado, ultrassonografia abdominal — mesmo em animais aparentemente saudáveis.
Pressão arterial ainda é pouco avaliada
A medição da pressão arterial (PA) também foi apontada como falha relevante.
Apenas 46,4% dos responsáveis confirmaram que a PA foi aferida no diagnóstico, embora seja recomendada pela IRIS para o correto estadiamento da doença.
Sem essa avaliação, pode haver subdiagnóstico de hipertensão, condição frequentemente associada à DRC e que tende a se agravar com a progressão do quadro.
Além disso, menos de 60% dos gatos com DRC e hipertensão estavam, segundo relato dos responsáveis, em uso da medicação apropriada.
Uso inadequado de quelantes de fosfato
Os quelantes de fosfato foram amplamente utilizados pelos participantes do estudo.
No entanto, 36,4% relataram administrá-los sem alimento.
Como esses fármacos devem ser oferecidos junto às refeições para atuar corretamente, essa prática reduz a eficácia do tratamento.
Segundo Tomás Magalhães, o uso tende a se tornar mais frequente quando não se consegue manter a dieta renal exclusiva.
Vínculo emocional permanece
Apesar das exigências do manejo prolongado, 70,4% dos entrevistados afirmaram que o vínculo emocional com o gato permaneceu o mesmo após o diagnóstico.
Ainda assim, o estudo destaca a importância de estratégias de apoio contínuo aos responsáveis, considerando o caráter crônico da enfermidade.
O pesquisador reforça que a DRC exige abordagem multimodal e comunicação clara desde o diagnóstico.
A combinação entre detecção precoce, alimentação adequada, monitoramento da pressão arterial e uso correto de medicamentos é fundamental para melhorar a qualidade de vida e o prognóstico dos felinos.
Fonte: Veterinaria Atual, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre dieta exclusiva para Doença Renal Crônica felina
Por que a dieta renal é tão importante na DRC felina?
Porque pode aumentar significativamente a sobrevida, reduzir crises urêmicas e ajudar no controle dos sinais clínicos.
A pressão arterial deve ser medida no diagnóstico?
Sim. A aferição é essencial para o correto estadiamento da doença e para identificar hipertensão associada.
Quelantes de fosfato podem ser administrados isoladamente?
Não. Devem ser oferecidos junto às refeições para garantir eficácia no controle do fósforo.

