Existe algo particularmente difícil na relação que construímos com cães e gatos: enquanto compartilhamos com eles uma parte da nossa vida, muitas vezes acompanhamos praticamente toda a vida deles.
Um filhote chega à família e, aparentemente de repente, aquele animal que corria pela casa começa a caminhar mais devagar. O cão que saltava para o sofá hesita antes de subir. O gato que buscava os lugares mais altos passa a preferir superfícies mais acessíveis. Os pelos embranquecem, os períodos de sono aumentam e algumas atividades deixam de despertar o mesmo interesse.
É fácil resumir tudo isso em uma frase: “ele está ficando velho”.
Mas precisamos tomar cuidado para que o envelhecimento não se transforme em explicação para aquilo que, na verdade, pode ser doença.
Envelhecer não é uma doença
O envelhecimento produz mudanças fisiológicas no organismo, mas dor, sofrimento e perda acentuada de função não devem ser considerados consequências inevitáveis da idade.
O animal idoso apresenta maior probabilidade de desenvolver osteoartrite, doenças cardíacas, renais, endócrinas, neoplasias, alterações dentárias, perda de massa muscular e comprometimento cognitivo, entre outras condições.
Por isso, a Medicina Veterinária geriátrica precisa ser essencialmente preventiva.
Quanto mais cedo identificamos uma alteração, maior costuma ser nossa capacidade de intervir antes que ela comprometa significativamente a qualidade de vida.
E muitas vezes os primeiros sinais são discretos.
O corpo começa a falar de outras maneiras
Nem sempre um cão com dor chora. Nem sempre um gato doente deixa imediatamente de comer.
Um dos grandes desafios do acompanhamento do paciente idoso é reconhecer pequenas mudanças.
Um cão pode começar a demorar para se levantar, evitar pisos escorregadios, recusar escadas ou reduzir a duração dos passeios. Um gato pode parar de subir em determinados móveis, diminuir sua higiene corporal ou passar a utilizar locais inadequados para urinar porque entrar na caixa de areia tornou-se desconfortável.
Até mudanças de temperamento merecem atenção.
Irritabilidade, isolamento, alterações do sono, vocalização noturna e menor interação podem estar relacionadas a dor, doenças sistêmicas ou alterações cognitivas.
Quando atribuímos automaticamente tudo à idade, podemos perder oportunidades importantes de diagnóstico e tratamento.

A importância da massa muscular
Existe ainda um aspecto frequentemente subestimado: a perda progressiva de massa muscular.
Músculos não servem apenas para correr e brincar. São fundamentais para estabilidade, equilíbrio, mobilidade e autonomia.
Um animal idoso que perde musculatura pode entrar em um ciclo preocupante. Move-se menos, perde mais massa muscular, encontra maior dificuldade para se levantar e passa a se movimentar ainda menos.
Nutrição adequada, controle de doenças, manejo da dor e atividade física adaptada são componentes importantes para preservar funcionalidade.
O objetivo não é fazer um cão de 14 anos se comportar como quando tinha dois.
É permitir que continue realizando, confortavelmente, aquilo que ainda é importante para ele.
O cérebro também envelhece
O envelhecimento não acontece somente nas articulações e nos órgãos.
Cães e gatos também podem apresentar alterações cognitivas.
Desorientação, mudanças no ciclo de sono, perda de hábitos anteriormente aprendidos, vocalização, ansiedade e alterações na interação social precisam ser investigadas.
Nem todo comportamento diferente em um animal idoso representa disfunção cognitiva. Dor, alterações sensoriais e diferentes doenças podem produzir manifestações semelhantes. Por isso, avaliação clínica é indispensável.
A casa também pode envelhecer junto com o animal
Conforme as necessidades mudam, o ambiente precisa mudar.
Tapetes antiderrapantes, rampas, camas adequadas, acesso facilitado à água, alimento e locais de eliminação podem devolver autonomia.
Para um animal jovem, atravessar um corredor é algo insignificante. Para um paciente geriátrico com dor e fraqueza muscular, um piso escorregadio pode representar uma barreira diária.
É também nesse aspecto que observar o animal em seu ambiente pode trazer informações valiosas. Entender onde dorme, como se levanta, como chega à água e como interage com a família ajuda a compreender sua qualidade de vida real.

Longevidade precisa ter propósito
Vivemos uma época em que cães e gatos podem receber recursos diagnósticos e terapêuticos cada vez mais avançados.
Isso é extraordinário.
Mas o sucesso da Medicina Veterinária não deveria ser medido apenas pelo número de anos acrescentados.
Precisamos falar em longevidade saudável.
Não basta perguntar quantos anos um animal pode viver. Precisamos perguntar como ele viverá esses anos.
E, conforme o envelhecimento avança ou surge uma doença que já não pode ser curada, essa pergunta se torna ainda mais importante.
Porque existe um momento em que o objetivo da Medicina começa a mudar.
Não deixamos de cuidar.
Passamos a cuidar de outra maneira.

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.