Pesquisadores e médicos-veterinários da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) realizaram a primeira imunização contra a febre amarela em exemplares de mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara), popularmente conhecido como mico-leão-caiçara. A operação histórica ocorreu em uma área de restinga da Mata Atlântica na Ilha do Superagui, no litoral norte do Paraná.
A iniciativa visa criar uma barreira biológica contra surtos epidemiológicos que possam dizimar a população silvestre da espécie.Classificado como “em perigo” de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o mico-leão-caiçara é um dos primatas mais raros e ameaçados do planeta, com uma população estimada em menos de 400 indivíduos na natureza e sem nenhum exemplar mantido sob cuidados humanos em criadouros ou zoológicos.
Logística complexa e corrida contra o tempo
A imunização exigiu uma estrutura de campo altamente coordenada para garantir a segurança dos animais. Os exemplares — dois machos e uma fêmea — foram capturados no dossel das árvores e levados a uma base temporária instalada na floresta, onde passaram por exames clínicos, coletas de sangue e pelos, pesagem, implantação de microchips e fixação de radiocolares de monitoramento.
Segundo a equipe técnica, a operação enfrentou o desafio de conciliar a janela anestésica dos primatas com o tempo de viabilidade da vacina humana adaptada (produzida por Bio-Manguinhos/Fiocruz), que perde a eficácia três horas após a diluição.
“Há um monte de incerteza sobre essa espécie. Mas, se você puder ter a certeza de que o animal está vacinado contra a febre amarela, o risco à sua sobrevivência diminui”, destacou a médica-veterinária Paula Mangini, da SPVS.

Ameça epidemiológica e ausência de população de segurança
A febre amarela representa uma das principais ameaças aos primatas brasileiros. Embora não haja registros oficiais de alta mortalidade entre os micos-leões-caiçaras em surtos passados, a sensibilidade de espécies simpátricas na região, como os bugios, acendeu o alerta nos órgãos ambientais.
Diferente de seus parentes próximos — o mico-leão-dourado, o mico-leão-preto e o mico-leão-da-cara-dourada —, o L. caissara não possui uma população de segurança mantida em cativeiro. Essa condição torna qualquer epidemia no ambiente natural um risco iminente de extinção definitiva da espécie.
A ação faz parte do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica (PAN PPMA), sob coordenação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e em parceria com instituições de pesquisa e órgãos estaduais.
Monitoramento contínuo e envolvimento comunitário
Após a aplicação das doses, os indivíduos vacinados foram devolvidos ao seu habitat e seguem monitorados diariamente por sinais de radiotelemetria e armadilhas fotográficas. A equipe aguarda a confirmação laboratorial da resposta imune (soroconversão) para estender a vacinação a outros grupos familiares, tanto no litoral do Paraná quanto no sul do estado de São Paulo.
O projeto também atua na conscientização e no fortalecimento do ecoturismo na comunidade de Superagui, em Guaraqueçaba (PR), promovendo o mico-leão-caiçara como um símbolo de conservação e desenvolvimento sustentável local.
Fonte: Mongabay Brasil, adaptado pela equipe Cães&Gatos.

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