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Geriatria de pets não convencionais: um novo olhar para o envelhecimento

O que o médico-veterinário precisa considerar diante do envelhecimento das diferentes espécies

Geriatria de pets não convencionais: um novo olhar para o envelhecimento
Por José Manuel Mouriño, Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária e Associação Brasileira de Medicina Veterinária em Pets Não Convencionais
3 de setembro de 2026

A Geriatria Veterinária é a especialidade focada na abordagem clínica de animais seniores. Apesar de ser uma área recente no cenário nacional, destaca-se por seu caráter generalista e pelo crescente interesse que desperta na comunidade científica.

A idade para definir um paciente geriátrico é bastante questionável em detrimento da longevidade variável das mais variadas espécies animais.

Quando abordamos a tônica sobre animais não convencionais o grande desafio é entender em primeiro lugar a biologia da maioria dos animais que podem chegar a um consultório veterinário (estamos falando de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes).

Temos pequenos roedores, como o topolino e o hamster anão chinês, que não costumam passar de dois anos de vida, e os lendários testudines (como algumas espécies terrestres), que passam de uma centena de anos.

Os médicos-veterinários que atendem essas espécies mostrar-se-ão aptos a lidar com animais em condições extremamente diversas. Esses indivíduos podem chegar à fase sênior totalmente saudáveis, apresentar algum grau de comprometimento em tecidos ou órgãos ou, ainda, manifestar múltiplas disfunções simultâneas.

A problemática estará em conhecer o que seria saudável dentro da fisiologia e comportamento de todas estas espécies e buscar validação em parâmetros normais de exames que, para muitos, ainda não estão definidos.

A fase sênior

Da mesma forma que a graduação do termo “geriatra” difere entre cães e gatos, a discutível validação desta em grupos de pequenos mamíferos não convencionais, aves, répteis, anfíbios e peixes ainda não está definida para os médicos-veterinários.

Alguns animais, como répteis, podem crescer a vida toda e as morbidades relacionadas ao envelhecimento estão começando a ser postadas junto das comunidades científicas.

Em contrapartida, em animais que foram usados nas últimas décadas como animais de laboratório e pesquisa, teremos grande quantidade de dados e muitas possibilidades para trabalhar com a Geriatria.

Exemplos clássicos são os roedores, lagomorfos, ferrets e aves, como as da ordem dos galiformes (galináceos, perús, pavões etc.).

Roedores
Geriatria de animais não convencionais exige conhecimento sobre particularidades biológicas e preventivas de diversas espécies (Foto: Reprodução)

Enfermidades comuns do envelhecimento

Os roedores e lagomorfos (aponta-se o coelho doméstico e todas as suas raças) seniores apresentam idades bastante conflitantes no acometimento das doenças relacionadas ao envelhecimento e dentre as enormes possibilidades, os tumores, as doenças endócrinas e as de trato reprodutivo feminino são as mais frequentes¹.

Fêmeas, de forma bastante contumaz, vivem em média menos que machos e o número de doenças relacionadas ao trato reprodutivo feminino é significativamente maior que nos testículos dos machos¹ ².

Em ferrets castrados as enfermidades na Geriatria são muito parecidas tanto para fêmeas quanto para machos. O questionamento sobre castração preventiva de animais ainda adultos jovens para a manutenção de saúde, também está em validação.

Pesquisas mais recentes demonstram que a castração não é totalmente inócua e “saudável” para muitas espécies animais3, 4, 5, 6. Entretanto, a castração de fêmeas de ratos e camundongos de forma precoce diminui a ocorrência de tumores mamários.

Estas neoplasias são responsáveis por muitas cirurgias e pela diminuição da qualidade e expectativa de vida nessas espécies. A discussão sobre castração cirúrgica e com implantes de deslorelina já avançou bastante nestes animais7, 8, 9.

A deslorelina é uma molécula super análoga do GnRh e, além de diminuir os hormônios sexuais tanto nos machos como nas fêmeas, ainda derruba os hormônios luteinizante e folículo estimulante (Lh e FSH)10.

Doravante, os répteis da ordem squamata, como alguns lagartos e serpentes domésticos, também deverão ser sexados e avaliados de forma diferente durante a Geriatria.

Nestes animais, as fêmeas são acometidas por mais doenças do trato reprodutivo e, assim sendo, terão menor expectativa de vida11. Os tumores em répteis mais contumazes podem ser cromatoforomas (relacionados aos cromatóforos, que dão cor às escamas, placas e escudos dos répteis) e de trato reprodutivo12.

Apesar das neoplasias em algumas espécies de mamíferos serem a principal causa de morte, algumas, como chinchilas e petauros do açúcar, são bem menos acometidas.

Já nas aves, os tumores aparecem de forma mais escassa. As neoplasias e alterações de ovários e testículos também são mais triviais.

Contudo, nas aves a castração deve ser via aplicação de implantes de deslorelina em detrimento das grandes dificuldades cirúrgicas para a castração13.

As castrações de aves via videocirurgia estão avançando muito, mas ainda apresentam muitas limitações espécie a espécie.

Em aves muito longevas as alterações ou disfunções dos tecidos também podem estar presentes. Hoje temos algumas aves muito longevas, como papagaios e araras, com doenças cardíacas, como arteriosclerose14, e doenças hepáticas ou renais degenerativas.

Estratégias para maior longevidade

Pouco se sabe sobre a dicotomia entre fatores genéticos e epigenéticos para todos esses grupos de animais. Todavia, dietas equilibradas, fotoperíodo adequado, controle de stress (ambientação, como temperatura, enriquecimento ambiental e atividades físicas e mentais) fazem total diferença sobre qualidade de vida e longevidade.

Dadas todas estas colocações, a Medicina Preventiva e os check-ups são extremamente variáveis dentro do contexto científico, dos diversos centros veterinários, que se propõem a estes atendimentos, e, ainda mais variáveis, no quesito indivíduo a indivíduo.

Trabalhar com dieta e controle de peso, exames clínicos e laboratoriais frequentes, enriquecimento ambiental, imunização (quando cabível) e saúde oral (quando cabível) é imprescindível, mas deve ser muito bem estudado e validado com a evidência disponível.

Dentro do que seria adequado em intervalos entre check-ups, podemos propor exames a cada seis meses para animais menos longevos e a cada dois anos em animais macróbios.

Os exames serão validados em detrimento da espécie e tamanho. Se faz periclitante coletas de sangue em animais minúsculos, laboriosos ultrassons em aves com muitos sacos aéreos em cavidade celomática e, não menos complexo, alguns exames que necessitam de anestesia geral como tomografias ou ressonâncias magnéticas.

A Geriatria Veterinária de animais não convencionais exige dos profissionais uma compreensão ampla das múltiplas espécies e de suas particularidades, o que torna o processo diagnóstico e terapêutico mais complexo.

A ausência de diretrizes específicas nacionais e internacionais para o manejo desses animais em idades avançadas dificulta a padronização de cuidados.

Além disso, o planejamento de exames laboratoriais é frequentemente limitado pela escassez de valores de referência e pela diversidade fisiológica entre espécies. Apesar desses desafios, muito já está publicado e validado.

Trabalhar com animais geriátricos não convencionais é profundamente gratificante, revelando a beleza de acompanhar sua longevidade e proporcionar qualidade de vida em cada etapa. Do ponto de vista acadêmico temos diante de nós uma desmesurada quantidade de áreas a serem desbravadas e que trarão valor para os médicos-veterinários que se dedicarem e as dominarem.

Coelho
Check-ups periódicos e nutrição adequada garantem qualidade de vida para animais não convencionais na fase sênior (Foto: Reprodução)

Referências: 

1. Cause-of-Death Analysis in Rodent Aging Studies

J. M. Snyder snyderjm@uw.eduJ. M. Ward, and P. M. TreutingView all authors and affiliations

2. Estudo-Retrospectivo-de-Neoplasias-em-Roedores-entre-os-anos-de-2008-a-2018

Estudo Retrospectivo de Neoplasias em Roedores Entre Os Anos de 2008 A 2018 (Stefani – TCC) | PDF | Câncer | Senescência

3. Assisting Decision-Making on Age of Neutering for 35 Breeds of Dogs: Associated Joint Disorders, Cancers, and Urinary Incontinence

4. Castration Induces Parkinson Disease Pathologies in Young Male Mice via Inducible Nitric-oxide Synthase*

Saurabh Khasnavis ∙ Anamitra Ghosh ∙ Avik Roy ∙ Kalipada Pahan

5. Testosterone deficiency caused by castration increases adiposity in male rats in a tissue-specific and diet-dependent manner

Myunggi Baik 1,2,3,,#Jin Young Jeong 4,#Seung Ju Park 1,2Seon Pil Yoo 1,2Jin Oh Lee 1,2Jae Sung Lee 1,2Md Najmul Haque 1,2Hyun-Jeong Lee 4

6. Mouse models of adrenal tumors responsive to gonadotropin-releasing hormone and gonadotropins

7. Common Spontaneous Tumors and Tumor-like Lesions in 70 Pet Rodents and Negative MMTV Detection in Mammary Tumors

by  Ya-Mei Chen, Jia-Ling Wu  and Wei-Hao Lin

8. Mammary and reproductive tract tumours and tumour-like lesions of 286 small pet mammals: a retrospective study Katarzyna Paździor-Czapula, Mateusz Mikiewicz, Joanna Fiedorowicz, Iwona Otrocka-Domagała

9. Description of the prevalence, histologic characteristics, concomitant abnormalities, and outcomes of mammary gland tumors in companion rats (Rattus norvegicus): 100 cases (1990–2015)

10. Reproduction in Domestic Animals

Review Article

Clinical Use of Deslorelin (GnRH agonist) in Companion Animals: A Review

X Lucas

11. Health Assessment of the Reptilian Reproductive Tract

Author links open overlay panelSam Rivera DVM, MS, Dip. ABVP

12.  Chromatophoromas in Reptiles Colleen F. Monahan, Michael M. Garner, Matti Kiupel

13. Deslorelin for Birds: Uses, Implants & Chronic Egg Laying Control

14. Avian Cardiovascular Disease in Parrots: Atherosclerosis, Heart Failure, and Diagnostic Advances