Os coelhos, com certeza, estão entre os pets que conquistaram espaço nos lares brasileiros nos últimos anos e, cada vez mais, são vistos como membros da família.
No entanto, ainda existem dúvidas sobre sua origem, comportamento e necessidades específicas. Por isso, conversamos com Raíssa Natali, médica-veterinária pós-graduada em pets não convencionais e integrante do Hospital Veterinário Taquaral, em Campinas, para compreender as particularidades da espécie.
Para começar, Raíssa explica a diferença entre coelhos domésticos e silvestres.
“Os criados em casa, que são tratados como animais de estimação ou para produção, descendem, principalmente, do Oryctolagus cuniculus, domesticado há cerca de 1.500 anos. Já os chamados tapetis, ou coelhos-do-mato, vivem na natureza, sem domesticação, e sobrevivem de forma independente. As diferenças entre eles envolvem comportamento, genética, aparência e modo de vida”, explica.
Enquanto os domésticos passaram por seleção artificial realizada pelo ser humano, o que resultou em raças com tamanhos, cores e tipos de pelagem variados, os silvestres evoluíram por seleção natural, mantendo características que favorecem a sobrevivência.
Além disso, enquanto os criados em casa são mais dóceis e dependem de cuidados relacionados à alimentação, abrigo e saúde, os que vivem na natureza são ariscos, sabem se defender e buscar alimento sozinhos.

Espaço adequado e dieta
De acordo com Raíssa, entre os principais erros de manejo relacionados à criação desses animais está o ambiente.
“Ativos, os coelhos são curiosos e exploradores, por isso, precisam correr, saltar — inclusive realizar os chamados ‘binkies’, pulos com giros no ar —, cavar, roer e se esconder. Pensando nisso, eles não devem viver permanentemente presos em gaiolas pequenas”, conta a médica-veterinária.
Mas, se quiser comprar uma gaiola e cuidar desse animal em casa, a profissional faz indicações: para um pet de porte mini, o tamanho mínimo recomendado de cercado ou viveiro é de 2 m x 2 m, com altura de pelo menos 80 cm, e é fundamental que tenha momentos diários de soltura em ambiente seguro e adaptado.
“A falta de estímulos pode levar a estresse, comportamento destrutivo, apatia e problemas clínicos. O enriquecimento ambiental é essencial para manter a saúde física e mental, oferecendo desafios e oportunidades de exploração”, explica Raíssa.
É importante informar ainda que o sistema digestivo dos coelhos é sensível e exige alta ingestão de fibras diariamente. Por isso, a base da alimentação deve ser feno à vontade, acompanhado de folhas escuras variadas todos os dias e pequena porção de ração específica. Frutas podem ser oferecidas, mas apenas como petisco, e no máximo duas vezes por semana.
Entre as verduras indicadas estão chicória, rúcula, almeirão, coentro, catalônia, acelga e hortelã. Por outro lado, é necessário cautela com folhas de alto teor de cálcio, como couve, salsinha e espinafre.
“Alimentos industrializados, sementes, ração de outras espécies e comida humana são proibidos, pois podem causar intoxicação, fermentação excessiva, obesidade e alterações digestivas”, conta.
Sociabilidade e vínculo com humanos
Para quem busca ter um coelho como pet, é bom saber que ele é social, porém é um animal que demonstra afeto de maneira diferente de cães ou gatos.
Quando estabelece confiança, passa a seguir o responsável pela casa. Também deita-se próximo de forma relaxada, lambe a mão como demonstração de carinho, encosta a cabeça pedindo cafuné e relaxa completamente na presença da pessoa.
“A convivência com outro coelho pode ser positiva, desde que haja introdução gradual e supervisão inicial para evitar conflitos. Já a interação com cães e gatos exige atenção redobrada, pois se trata de uma espécie presa. Quando criados juntos desde cedo, a adaptação tende a ser mais fácil, mas a supervisão continua sendo indispensável”, alerta Raíssa.

Acompanhamento veterinário e castração
Por serem presas na natureza, esses animais tendem a esconder sinais clínicos. Por isso, o acompanhamento veterinário periódico é fundamental. O ideal é realizar check-up anual e, na fase sênior — entre seis e 12 anos —, a cada seis meses.
Entre os exames comumente solicitados estão ultrassom abdominal, radiografia de tórax e crânio para avaliação dentária, além de hemograma e perfil renal e hepático.
Entre as principais enfermidades observadas estão alterações odontológicas relacionadas à má oclusão, obstruções gastrointestinais por ingestão de pelos e doenças reprodutivas, como tumores uterinos, alterações ovarianas e infecções.
A castração é altamente recomendada tanto para machos quanto para fêmeas. Além do controle populacional, o procedimento traz benefícios importantes.
“Nos machos, reduz a marcação territorial com urina e a agressividade e favorece a convivência com outros coelhos e humanos. Nas fêmeas, diminui comportamentos defensivos e a agressividade, melhora a socialização e contribui para a prevenção de tumores e doenças do sistema reprodutor”, conclui a médica-veterinária.
FAQ sobre a criação de coelhos em casa
Esses animais podem viver em gaiolas?
Não devem permanecer presos permanentemente em gaiolas pequenas. Mas se estiverem, precisam de espaço amplo, com tamanho mínimo de 2 m x 2 m para porte mini, além de momentos diários de soltura em ambiente seguro.
Qual é a base da alimentação ideal dos coelhos?
Feno à vontade é indispensável e a dieta deve incluir folhas escuras variadas diariamente, pequena porção de ração específica e frutas apenas como petisco, duas vezes por semana.
Com que frequência os coelhões devem ir ao veterinário?
O acompanhamento deve ser anual e, na fase sênior, a cada seis meses.
