A hipertensão pulmonar em cães foi tema de destaque durante a SACAVET 2026, em aula ministrada pelo Prof. Dr. André Martins Gimenes.
O especialista trouxe uma abordagem prática e atualizada sobre diagnóstico, classificação e manejo clínico da condição, reforçando a importância de não tratá-la como um diagnóstico final.
Logo no início, o palestrante destacou um ponto essencial para a prática clínica: a hipertensão pulmonar deve ser entendida como uma consequência de outras doenças — e não como uma enfermidade isolada.
Essa mudança de perspectiva é fundamental para evitar condutas inadequadas e melhorar o prognóstico dos pacientes.
Mais que um diagnóstico: entender a causa é essencial
Durante a apresentação, Gimenes reforçou que identificar a hipertensão pulmonar é apenas o início da investigação clínica.
“Essa condição não é uma afecção, não é uma doença e, portanto, não deve ser um diagnóstico final. Quando a gente diagnostica hipertensão pulmonar, a gente precisa buscar o que está levando a essa alteração hemodinâmica”, explicou o especialista.
Em condições fisiológicas, a circulação pulmonar apresenta baixa resistência e alta capacidade de acomodação de volume.
No entanto, quando há aumento da pressão nesse sistema, ocorre prejuízo na perfusão e nas trocas gasosas, além de sobrecarga do ventrículo direito.
Esse aumento de esforço cardíaco pode evoluir para disfunção das câmaras direitas e, em casos mais avançados, comprometer todo o sistema cardiovascular.
Classificações orientam o raciocínio clínico
Outro ponto central abordado foi a classificação da hipertensão pulmonar, fundamental para direcionar o tratamento.
“A hipertensão pulmonar pode ser classificada em seis grupos de acordo com a etiologia, e isso é fundamental porque o tratamento depende diretamente dessa classificação”, pontuou.
Entre os principais grupos estão os casos relacionados a shunts cardíacos, doenças do lado esquerdo do coração, doenças respiratórias crônicas, tromboembolismo pulmonar, infecções parasitárias e causas multifatoriais.
Além disso, a classificação hemodinâmica divide os casos em pré-capilares e pós-capilares, dependendo da localização da alteração no fluxo sanguíneo pulmonar.
Essa distinção tem impacto direto na conduta terapêutica, especialmente na decisão de utilizar ou não vasodilatadores.

Alterações fisiopatológicas e impacto sistêmico
A hipertensão pulmonar desencadeia uma série de alterações no organismo, que vão além do sistema respiratório.
“Quando há aumento da pressão pulmonar, o ventrículo direito precisa fazer muito mais força para bombear o sangue, e isso leva à sobrecarga, disfunção e até insuficiência cardíaca direita”, explicou.
Além disso, a relação entre ventilação e perfusão é comprometida, resultando em hipóxia, hipercapnia e sinais clínicos importantes, como dispneia, intolerância ao exercício e cianose.
Outro ponto relevante é que a redução do fluxo sanguíneo pulmonar impacta o retorno venoso ao lado esquerdo do coração, reduzindo também o débito cardíaco sistêmico.
Ecocardiograma é ferramenta central no diagnóstico
Embora o diagnóstico definitivo exija cateterismo, na prática clínica o ecocardiograma é o principal método utilizado.
“Hoje a gente não faz diagnóstico conclusivo com cateterismo. O ecocardiograma permite avaliar a probabilidade de hipertensão pulmonar e também ajuda na classificação etiológica”, destacou.
O exame permite identificar alterações em estruturas como átrio direito, ventrículo direito e artéria pulmonar, além de avaliar a regurgitação tricúspide — um achado comum nesses pacientes.
A partir dessas informações, o clínico consegue classificar a probabilidade da doença e avançar na investigação da causa.
Tratamento depende da causa e exige cautela
O tratamento da hipertensão pulmonar foi apresentado como altamente dependente da causa de base, reforçando a importância do diagnóstico correto.
“O tratamento deve sempre considerar a condição primária. A hipertensão pulmonar é consequência, então tratar apenas a pressão sem tratar a causa pode não resolver o problema”, afirmou.
Em casos associados a doenças cardíacas esquerdas, por exemplo, o uso de vasodilatadores pulmonares não é indicado inicialmente.
Já em casos com aumento de resistência vascular pulmonar, o uso de sildenafil pode trazer benefícios clínicos importantes.
Além disso, medidas gerais como restrição de exercício intenso, controle de peso, prevenção de parasitoses e evitar situações de estresse são fundamentais no manejo desses pacientes.
