A adesão do responsável ainda é o principal desafio nos programas de perda de peso em cães e gatos — e foi justamente esse o foco da palestra da médica-veterinária Dra. Mariana Porsani durante o SACAVET.
Ao longo da apresentação, a especialista destacou que, mais do que cálculos nutricionais, o sucesso do tratamento depende de comunicação, empatia e adaptação à rotina da família.
Expectativa alinhada evita frustração no processo
Logo no início, a palestrante chamou atenção para um erro comum: definir um “peso ideal” rígido sem explicar que ele é apenas uma estimativa.
Segundo ela, esse desalinhamento pode gerar frustração ao longo do tratamento.
“Quando a gente fala um número como meta e não explica que ele pode mudar conforme o acompanhamento, o responsável pode achar que está sendo enganado, mesmo seguindo tudo corretamente. Por isso, é fundamental mostrar que o caminho envolve ajustes e reavaliações constantes”, afirmou.
Mais do que atingir um número na balança, o objetivo é alcançar uma condição corporal saudável e sustentável, com acompanhamento contínuo do escore corporal e da evolução clínica do paciente.
Comportamento e rotina pesam mais que o cálculo nutricional
A médica-veterinária foi direta ao abordar uma questão central na prática clínica: o principal motivo do insucesso não está nos alimentos ou nos cálculos, mas na execução do plano em casa.
“Os responsáveis não seguem a prescrição exatamente como foi orientado. Eles fazem pequenas adaptações que, para eles, parecem irrelevantes, mas que têm um impacto enorme no total de calorias ingeridas. Em animais pequenos, isso pode representar um excesso calórico muito significativo.”
Ela também destacou que há um componente emocional importante envolvido na alimentação dos pets.
“A gente vem de uma cultura em que alimentar é uma forma de demonstrar amor. Quando você retira isso sem orientação, o responsável sente que está deixando de cuidar. Então não dá para simplesmente proibir — é preciso adaptar.”
Nesse cenário, incluir pequenas quantidades de petiscos dentro do plano alimentar pode ser mais eficaz do que restrições rígidas. A estratégia, segundo ela, deve considerar não apenas o animal, mas também o comportamento e as expectativas do responsável.
Individualização aumenta adesão e melhora resultados
Outro ponto central da palestra foi a necessidade de personalizar o plano de emagrecimento.
Para a especialista, não existe uma abordagem única que funcione para todos os pacientes.
“A forma correta não é o responsável seguir exatamente o que você falou, mas você construir um plano que funcione para aquele paciente e para aquela família. Se não fizer sentido na rotina deles, não vai dar certo. Às vezes o cálculo é perfeito, mas a execução não funciona — e aí o problema não é o cálculo.”
Isso inclui avaliar fatores como aceitação alimentar, rotina da casa, frequência de refeições e até preferências individuais do animal.
A especialista também reforçou que estratégias como mix feeding, uso de alimentos úmidos, inclusão de vegetais para aumentar volume ou até adaptações comportamentais devem ser escolhidas caso a caso.

Comunicação e empatia são ferramentas clínicas
Um dos momentos mais marcantes da palestra foi a discussão sobre a relação entre o profissional e o responsável.
Para Dra. Mariana, a forma como a informação é transmitida pode determinar o sucesso ou o fracasso do tratamento.
“O responsável não quer prejudicar o animal. Ele não está descumprindo porque quer fazer errado. Muitas vezes ele não entendeu, ou aquilo não se encaixa na rotina dele. A gente precisa ouvir mais e julgar menos.”
Ela também alertou para a importância de abordar a obesidade de forma clara, sem eufemismos, mas com sensibilidade.
Em muitos casos, o responsável sequer reconhece que o animal está acima do peso — e cabe ao profissional conduzir esse entendimento de forma didática.
Além disso, fatores emocionais e sociais também devem ser considerados. A alimentação pode estar ligada a afeto, rotina familiar e até questões pessoais do responsável, o que exige ainda mais cuidado na abordagem.
Estratégias práticas ajudam a manter o engajamento
A palestrante também apresentou diversas estratégias práticas para melhorar a adesão ao plano de emagrecimento, como fracionamento das refeições, uso de alimentos com maior volume para aumentar a saciedade, brinquedos alimentares e comedouros lentos.
Ela destacou que o acompanhamento frequente é fundamental.
“O retorno não é só para pesar. É para ajustar, corrigir, motivar. Às vezes o animal não perdeu peso, mas também não ganhou — e isso já é um avanço dependendo do caso.”
Outro ponto relevante é a manutenção do peso após o emagrecimento. Segundo ela, o controle deve ser contínuo, já que a tendência ao reganho é comum.
“O objetivo não é só emagrecer. É manter esse animal no peso ideal pelo resto da vida. E isso exige acompanhamento e ajustes constantes.”

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.