A cardiomiopatia dilatada (CMD) é uma enfermidade caracterizada pela dilatação das câmaras cardíacas e redução da capacidade de contração do coração, levando, em muitos casos, à insuficiência cardíaca congestiva.
Embora tradicionalmente associada a fatores genéticos, a doença ganhou uma nova dimensão nas últimas décadas com a consolidação da nutrição como elemento-chave em sua origem e evolução.
Durante o SACAVET, o Prof. Dr. Fábio Alves Teixeira conduziu uma análise aprofundada sobre essa interface entre alimentação e cardiologia, destacando desde descobertas clássicas — como o papel da taurina em gatos — até os debates mais recentes envolvendo dietas não convencionais em cães.
Ao longo da palestra, ficou evidente que a compreensão da CMD exige uma visão integrada: não basta olhar apenas para o coração, é necessário investigar o que está na tigela do paciente.
Como resumiu o especialista, “a cardiomiopatia dilatada pode ser primária, com origem genética, ou secundária — e, dentro das secundárias, a nutricional é uma das mais importantes e, muitas vezes, subestimada na rotina clínica”.
A descoberta da taurina transformou o cenário nos gatos
Um dos marcos mais importantes na história da cardiologia veterinária foi a identificação da deficiência de taurina como causa de cardiomiopatia dilatada em gatos, especialmente a partir do final da década de 1980.
“O que mudou completamente o cenário foi perceber que muitos desses gatos tinham níveis muito baixos de taurina e que, quando a gente suplementava, havia uma resposta muito significativa”, explicou o palestrante.
Ele relembrou estudos clássicos em que gatos com CMD apresentavam baixos níveis sanguíneos de taurina e, após suplementação, mostravam melhora clínica em poucas semanas.
“Em duas semanas já havia melhora clínica importante, com redução de sinais como apatia e dificuldade respiratória. Em três a quatro semanas, começávamos a ver melhora da função cardíaca, e em cerca de dez semanas muitos parâmetros já estavam próximos da normalidade.”
Essa resposta foi acompanhada por mudanças estruturais no coração, como redução do diâmetro das câmaras cardíacas e melhora da contratilidade.
A partir dessas evidências, ficou estabelecido que a taurina exerce papel fundamental na função cardíaca, principalmente por atuar na regulação do cálcio dentro das células musculares.
Além disso, o especialista destacou que a taurina também está presente em alta concentração na retina, o que explica a associação entre deficiência desse nutriente e alterações oftálmicas em gatos.
Outro ponto crucial é que os felinos não conseguem sintetizar taurina de forma eficiente.
“O gato tem uma limitação enzimática importante, então ele não produz taurina em quantidade suficiente. Por isso, ela é considerada um nutriente essencial para a espécie e precisa estar obrigatoriamente presente na alimentação.”
A partir da inclusão adequada de taurina nos alimentos comerciais, a frequência da cardiomiopatia dilatada em gatos caiu drasticamente, tornando-se hoje uma condição muito menos comum na rotina clínica.

Deficiência ainda ocorre em cenários específicos
Apesar dos avanços na formulação de dietas comerciais, a deficiência de taurina ainda pode ocorrer — principalmente em situações em que a alimentação não é adequada para a espécie.
“O problema hoje não está mais na indústria de forma geral, mas sim em erros alimentares. Gatos que comem ração de cão, dietas caseiras sem formulação adequada ou até dietas vegetarianas e veganas podem desenvolver deficiência”, alertou.
Casos clínicos apresentados na palestra reforçam essa realidade, incluindo animais alimentados por longos períodos com dietas inadequadas que evoluíram para cardiomiopatia dilatada.
Outro aspecto importante é o tempo de desenvolvimento da deficiência.
“Não é uma alteração imediata. Pode levar meses até que os níveis de taurina caiam e o animal comece a apresentar sinais clínicos. Isso dificulta a associação direta com a dieta.”
Além disso, mesmo alimentos aparentemente ricos em proteína, como carne crua, podem não garantir níveis adequados do nutriente.
“A quantidade de taurina na carne pode variar, e o processamento também influencia. Por isso, confiar apenas no ingrediente não é suficiente — é necessário garantir a suplementação.”
Em cães, a relação é mais complexa
Diferentemente dos gatos, os cães conseguem sintetizar taurina a partir de outros aminoácidos, o que torna a relação entre nutrição e cardiomiopatia dilatada mais complexa.
Ainda assim, algumas raças apresentam maior predisposição à doença associada à taurina, especialmente cães de grande porte.
“Golden Retriever, Cocker Spaniel, Terra Nova e Cão d’Água Português são exemplos de raças em que a taurina pode estar envolvida, e nesses casos a suplementação pode trazer benefício clínico.”
O especialista explicou que esses animais podem ter menor capacidade de produção ou maior perda de taurina, embora os mecanismos ainda não sejam totalmente compreendidos.
“Existem várias teorias: pode ser menor síntese, menor absorção, maior perda urinária ou alterações na microbiota intestinal. Mas ainda não temos uma resposta definitiva.”
Além disso, cães de grande porte produzem menos taurina proporcionalmente ao peso corporal, o que reforça a importância de atenção nutricional nesses pacientes.
Dietas não convencionais entram no centro do debate
Nos últimos anos, a cardiomiopatia dilatada em cães ganhou destaque devido à possível associação com dietas não convencionais, especialmente as chamadas dietas “boutique” ou grain-free.
“O que começou a chamar atenção foi o aumento de casos em cães que consumiam essas dietas. E o mais curioso: nem todos tinham deficiência de taurina”, destacou.
Essas dietas substituem ingredientes tradicionais, como milho e arroz, por leguminosas como ervilha e lentilha.
Embora mantenham perfil nutricional semelhante, há suspeitas de que possam interferir no metabolismo da taurina.
“Uma das hipóteses é que essas dietas alterem a microbiota intestinal ou o metabolismo dos ácidos biliares, o que pode impactar a disponibilidade de taurina no organismo.”
Estudos demonstraram mudanças na excreção de ácidos biliares em animais alimentados com dietas grain-free, sugerindo alterações no ambiente intestinal. No entanto, os resultados ainda são inconsistentes.
“O cenário hoje é de incerteza. Alguns estudos não mostram alteração na função cardíaca, outros sugerem mudanças sutis que podem ser relevantes em animais predispostos. É um tema que ainda está em construção.”
Manejo clínico e prevenção passam pela nutrição básica
Na prática clínica, o palestrante reforçou que a abordagem inicial deve sempre incluir avaliação da dieta e, quando necessário, correção alimentar.
“A primeira coisa é entender o que o animal está comendo. Se for uma dieta não convencional, a recomendação é mudar para um alimento completo e balanceado. E, quando há suspeita, fazer a suplementação de taurina.”
Mesmo sem acesso fácil à dosagem de taurina no Brasil, a suplementação pode ser indicada com base na suspeita clínica.
Ele também destacou o papel de outros nutrientes, como a carnitina, que pode estar envolvida na função cardíaca, embora com menos evidências.
Ao final, a principal mensagem foi de cautela.
“A gente precisa lembrar do básico. Alimentação completa e balanceada ainda é a melhor forma de prevenir problemas nutricionais. Antes de buscar dietas diferentes ou ‘modernas’, é importante garantir que o animal está recebendo tudo o que precisa.”

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