O atendimento a animais selvagens apresenta uma complexidade própria, que exige do profissional uma combinação de conhecimento técnico, leitura de cenário e capacidade de adaptação.
Diferentemente da clínica de pequenos animais, esses pacientes frequentemente chegam sem histórico, em estado crítico e sob elevado nível de estresse, o que torna cada decisão mais sensível e, muitas vezes, determinante para o desfecho do caso.
Durante o SACAVET, a médica-veterinária Dra. Paolla Nicole Franco trouxe uma abordagem prática sobre as vias de acesso utilizadas na rotina com fauna silvestre, destacando não apenas as técnicas, mas principalmente os critérios de escolha em situações reais.
Ao longo da apresentação, ficou claro que o domínio do conteúdo vai além da execução — envolve interpretação clínica e tomada de decisão.
“O objetivo aqui não é esgotar todas as possibilidades, porque isso seria impossível, mas apresentar as principais vias que a gente utiliza na rotina, com foco em indicação, limitações e aplicabilidade em situações de emergência”, explicou logo no início.
Antes de avançar para as vias em si, a palestrante reforçou a importância de compreender o conceito de forma contextualizada.
“Via de acesso é o caminho anatômico que a gente utiliza para administrar substâncias ou coletar amostras, mas a escolha não depende só disso — depende da espécie, do estado do animal e da urgência do caso”, acrescentou ao introduzir o tema.
Emergências exigem avaliação rápida
Na prática com fauna silvestre, os atendimentos emergenciais são predominantes e envolvem, principalmente, traumas, queimaduras, intoxicações, doenças infecciosas e filhotes órfãos.
Esses animais frequentemente chegam em condições críticas, como desidratação, hipotermia, hipoglicemia e choque, exigindo intervenção imediata.
“A gente recebe muitos animais já em estado crítico, e nesses casos a prioridade é estabilizar. Antes de pensar em qualquer outro manejo, é isso que precisa ser feito”, destacou ao abordar a rotina clínica.
Apesar da urgência, a tomada de decisão não pode ser impulsiva. A avaliação prévia do cenário é essencial, especialmente considerando o comportamento imprevisível desses animais e os riscos envolvidos.
“Muitas vezes o animal parece prostrado, mas quando você inicia o manejo ele reage. Então não dá para agir por impulso — é preciso avaliar o contexto, entender os riscos e só então intervir”, alertou ao discutir o manejo inicial.
A palestrante também reforçou que a contenção química é frequentemente necessária, principalmente em mamíferos, tanto para viabilizar o procedimento quanto para garantir segurança.

Via intravenosa é ideal, mas nem sempre viável
A via intravenosa é considerada a principal escolha em situações críticas, especialmente pela rapidez de ação dos fármacos e pelo controle preciso da administração.
Em casos como choque e necessidade de fluidoterapia intensiva, ela costuma ser a via de eleição.
“É a principal via em emergência porque a resposta é praticamente imediata e a gente consegue ter um controle muito mais preciso do que está sendo administrado”, explicou ao abordar suas vantagens.
No entanto, a realidade da fauna silvestre impõe limitações importantes. Em animais em choque, a vasoconstrição periférica pode dificultar significativamente o acesso venoso, tornando necessário recorrer a outras alternativas.
“Em muitos casos a gente simplesmente não consegue acessar uma veia, principalmente em pacientes em choque. Isso exige que o profissional esteja preparado para mudar a estratégia rapidamente”, pontuou ao tratar das dificuldades.
Além disso, a necessidade de contenção adequada e o risco de extravasamento tornam o procedimento mais desafiador, exigindo precisão técnica e planejamento.
Intramuscular é a via mais utilizada na prática
Na rotina com animais selvagens, a via intramuscular se destaca como a mais utilizada, principalmente pela praticidade e pela possibilidade de aplicação à distância, o que é essencial em muitos cenários.
“Na prática, é a via que a gente mais usa, principalmente porque permite a contenção química à distância, o que muitas vezes é a única forma de iniciar o manejo”, explicou ao descrever sua aplicabilidade.
A aplicação em grandes grupos musculares facilita o procedimento, especialmente em animais de difícil contenção.
Ainda assim, é importante considerar limitações como variação na absorção e restrição de volume.
“Se a gente ultrapassa o volume indicado, pode causar dor, inflamação e até necrose, então é uma via que precisa ser usada com critério”, ressaltou ao alertar sobre os riscos.
Mesmo com essas limitações, a via intramuscular é fundamental para sedação, analgesia e administração de medicamentos na rotina.
Via intraóssea é alternativa importante em casos críticos
Quando o acesso intravenoso não é possível, a via intraóssea se torna uma alternativa importante, especialmente em pacientes graves ou de pequeno porte, onde a visualização e o acesso vascular são limitados.
“Ela tem uma ação tão rápida quanto a intravenosa, então é uma excelente opção em situações de emergência, principalmente quando não conseguimos acesso venoso”, explicou ao apresentar a técnica.
Por outro lado, trata-se de uma via mais invasiva, que exige cuidados rigorosos, especialmente em relação à dor e à assepsia.
“É uma via dolorosa e precisa ser utilizada com o animal sedado ou em estado crítico. Além disso, a assepsia é fundamental para evitar complicações como infecções”, destacou ao comentar suas limitações.
Além disso, não é indicada para uso prolongado, sendo mais adequada para estabilização inicial do paciente.
Particularidades por espécie mudam completamente a abordagem
Um dos principais pontos abordados foi a necessidade de adaptação conforme o grupo animal.
Embora muitas vias sejam semelhantes às utilizadas em cães e gatos, as diferenças anatômicas e fisiológicas impactam diretamente na escolha e execução das técnicas.
“A gente não pode tratar um animal silvestre como um doméstico. Existe semelhança, mas o manejo é completamente diferente e exige outro tipo de atenção”, destacou ao discutir essas diferenças.
Em aves, por exemplo, o estresse é um fator crítico e pode levar ao óbito. Já nos répteis, a temperatura corporal interfere diretamente na absorção dos fármacos, exigindo ajustes no manejo clínico.
“Se o animal estiver frio, a absorção dos fármacos vai ser mais lenta, então muitas vezes é necessário aquecer antes de qualquer intervenção”, explicou ao abordar as particularidades fisiológicas.
Essas diferenças reforçam a importância do conhecimento específico de cada grupo para garantir um atendimento seguro e eficaz.
Raciocínio clínico e prática são indispensáveis
Ao final da palestra, a especialista reforçou que o conhecimento técnico, por si só, não é suficiente.
A prática e o raciocínio clínico são determinantes para o sucesso no atendimento de fauna silvestre.
“A gente precisa conhecer as possibilidades, mas também entender que nem sempre vai conseguir usar a via ideal. Muitas vezes a situação exige adaptação com base no que é possível naquele momento”, afirmou ao concluir.
Além disso, destacou a importância da experiência prática na formação profissional.
“Isso não é algo que se aprende só na teoria. É prática, repetição e vivência no dia a dia, principalmente em situações de emergência”, completou.

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