Na Medicina Veterinária muito se fala sobre os cuidados ortopédicos, cardíacos e até nefrológicos de cães e gatos. No entanto, nem sempre os olhos são lembrados, o que pode ser um grande erro.
Animais com a saúde ocular em dia apresentam melhor qualidade de vida, visto que a cegueira e algumas afecções dolorosas podem ter impactos diretos no dia a dia dos pets.
De modo geral, algumas raças são mais predispostas às doenças dos olhos, como as braquicefálicas, que anatomicamente possuem os olhos mais expostos e apresentam maior ocorrência de anormalidades ciliares e palpebrais.
“Entre os cães, as raças mais presentes no atendimento oftalmológico são Shih Tzu, Lhasa Apso, Pug e Bulldog Francês e Inglês. Já entre os gatos, os Persas se destacam”, afirma Maria Fernanda Ferraz, médica-veterinária especializada em Oftalmologia Veterinária com foco em ultrassonografia ocular de pequenos animais.
Além disso, as afecções oculares que mais afetam cães e gatos são distintas, existindo particularidades que predispõem o surgimento de cada doença conforme a espécie.
A médica-veterinária afirma que os felinos costumam desenvolver com maior recorrência conjuntivites e ceratites virais, enquanto nos cães esses quadros normalmente ocorrem por baixa produção lacrimal, traumas e anormalidades ciliares.
“Nas uveítes por causas infecciosas os agentes também são diferentes. Nos cães, geralmente, acontecem devido a ação de hemoparasitas. No entanto, em gatos a doença pode ser ocasionada por enfermidades como FIV, FeLV e PIF. A catarata diabética ou não diabética, por exemplo, é pouco frequente no gato, sendo mais comum – e ainda assim rara – a congênita ou traumática”, exemplifica.
Estrutura ocular
Para promover um cuidado assertivo com os olhos dos animais é importante conhecer as estruturas oculares.
Maria Fernanda esclarece que o globo ocular é formado pela túnica fibrosa ou externa, compreendida pela córnea e pela esclera, que delimitam a estrutura ocular. Também é composto pela túnica vascular ou média, que envolve íris, corpo ciliar e coroide e realiza, respectivamente, o controle da entrada de luz no olho, a produção de humor aquoso e a nutrição da retina.
“A túnica interna ou nervosa, por sua vez, engloba a retina e o nervo óptico, responsáveis pela captação de imagens e envio para o cérebro permitindo a visão. Temos também a lente intraocular, que é uma estrutura avascular sustentada dentro do olho através dos ligamentos zonulares. Ela divide o órgão em segmentos anterior e posterior, além de formar o foco das imagens”, explica.
Ainda de acordo com ela, o segmento anterior é separado em câmara anterior (da córnea até a íris) e câmara posterior (da íris até a lente), enquanto o segmento posterior – também chamado de câmara vítrea – é onde se encontra o corpo vítreo, uma substância gelatinosa e transparente que preenche a maior parte do globo ocular, mantém a forma esférica e, assim, preenche o espaço entre o cristalino e a retina.

Afecções oculares mais comuns em cães
Segundo Dra Maura Bittencourt, médica-veterinária pós-graduada e doutora em Oftalmologia veterinária, na rotina do atendimento oftalmológico de cães o principal sinal clínico é o chamado “olho vermelho”.
“Ou seja, o paciente chega frequentemente ao consultório com hiperemia conjuntival, dor e secreção ocular, sintomas inespecíficos que podem indicar alterações oculares, como ceratoconjuntivite seca, úlcera de córnea, uveíte, catarata ou glaucoma”, relata.
Somente após uma análise aprofundada é possível chegar ao diagnóstico. Para isso, também é importante conhecer as afecções mais recorrentes nesses animais. A doutora esclarece quais são as mais comuns:
- Ceratoconjuntivite seca: é uma das condições oculares mais frequentes em cães e, normalmente, a principal causa de “olho vermelho”. Existem três tipos de olho seco (qualitativo, quantitativo e evaporativo). Inicialmente, o ressecamento da superfície ocular causa inflamação e sintomas como desconforto, irritação e aumento da produção da fração aquosa da lágrima em uma tentativa de compensar o ressecamento. Por isso, em uma fase inicial da doença o paciente chega com a região periocular molhada. Quando a ceratoconjuntivite seca fica crônica, há diminuição da fração aquosa e aumento da produção de muco;
- Úlcera de córnea: pode surgir por trauma, corpo estranho, presença de cílios ectópicos ou distiquíases, alterações palpebrais, olho seco e exposição excessiva da córnea, como ocorre em braquicefálicos por exemplo. Dependendo da profundidade, extensão e contaminação secundária, pode evoluir rapidamente e representar risco real de perfuração ocular;
- Catarata: é uma opacificação do cristalino e pode ter influência hereditária ou secundária à outras alterações, como, por exemplo, no caso da diabetes. É uma das principais causas de cegueira em cães e possui tratamento cirúrgico;
- Glaucoma: merece destaque porque também é uma das causas mais relevantes de cegueira. Identificar o motivo, monitorar os sintomas e controlar a pressão intraocular com aparelhos específicos é fundamental ao longo do tratamento para que a melhor conduta terapêutica e/ou cirúrgica seja estabelecida a fim de manter a visão e o conforto do animal;
- Uveíte: consiste em uma inflamação intraocular, que pode estar relacionada a doenças oculares primárias (neoplasias, por exemplo) ou a inúmeras afecções sistêmicas, desde alterações metabólicas, infecciosas e até neoplásicas. O controle da inflamação e dos sintomas oculares é feito sempre junto com a investigação e tratamento clínico da causa de base.
E os felinos?
Bittencourt relata que a rotina oftálmica de atendimento aos felinos tem algumas particularidades em relação aos cães. Na espécie, as afecções mais frequentes incluem conjuntivites virais, úlceras de córnea, sequestro corneano, uveítes e hifemas.
- Conjuntivite felina: é extremamente comum e, muitas vezes, está associada a agentes infecciosos, com destaque para o herpesvírus felino tipo 1, além de clamídia e micoplasma. O herpesvírus pode causar também lesões epiteliais, dor ocular, blefaroespasmo e lacrimejamento. É passível, ainda, de favorecer recidivas em momentos de estresse ou imunossupressão;
- Úlcera de córnea: assim como nos cães, também é frequente em gatos, especialmente por lesões traumáticas ou em associação a infecção herpética.
Uma alteração bastante característica da espécie é a evolução da úlcera de córnea para uma cicatrização com necrose tecidual. Nesses casos, uma placa enegrecida se forma no local da lesão, desencadeando o chamado sequestro corneano;
- Uveítes: em felinos exigem atenção especial porque, com frequência, estão relacionadas a doenças sistêmicas, como FIV, FeLV, PIF ou toxoplasmose;
- Hifema: é a presença de sangue na câmara anterior. O sangramento intraocular pode acontecer por causa de um processo inflamatório, neoplásico e por hipertensão arterial sistêmica. Devido a isso, sempre que o veterinário examina um gato com hifema é importante lembrar da avaliação da pressão e da função renal deste paciente.
“Tanto em cães quanto em gatos o olho funciona como um importante sinalizador de doenças sistêmicas. Saber fazer um exame oftálmico adequado na rotina clínica pode trazer grandes pistas sobre as alterações clínicas e oferecer um diagnóstico precoce que possibilita salvar não só a visão, mas a vida do paciente”, aconselha a Dra Maura.

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