A profissão de médico-veterinário é considerada por muitos uma das mais bonitas. Porém, representa um grande desafio para quem a exerce, principalmente quando se fala em saúde mental.
Por isso, no mês em que se celebra o Dia do Médico-Veterinário, comemorado em 9 de setembro, é fundamental destacar a importância de cuidar daqueles que dedicam a sua vida a oferecer mais conforto e saúde para o próximo.
Segundo Juliana Sato, psicóloga especialista em luto pet e saúde mental na Medicina Veterinária, mestranda em Psiquiatria e Psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e certificada em luto pet pela Association for Pet Loss and Bereavement (APLB), hoje sabe-se que cuidar da saúde mental dos médicos-veterinários também é uma questão de qualidade da assistência.
“Trata-se de uma profissão que reúne fatores de risco importantes como contato constante com sofrimento, tomada de decisões complexas, pressão emocional, conflitos com responsáveis, jornadas extensas e alta responsabilidade técnica”, explica.
Juliana relata que durante muito tempo se acreditou que o sofrimento fazia parte da profissão e que o veterinário precisava simplesmente aprender a suportá-lo. Contudo, a Psicologia mostra justamente o contrário: sofrimento contínuo sem estratégias adequadas de enfrentamento aumenta o risco de ansiedade, depressão, burnout e outros problemas de saúde mental.
Devido a isso, usar ferramentas e recursos de autocuidado faz parte das boas práticas profissionais.
Fatores que levam à vulnerabilidade
Na prática, não existe um único fator associado aos desafios para a saúde mental de médicos-veterinários.
A rotina intensa é um dos aspectos que não podem ser deixados de lado. Diariamente, os profissionais podem lidar com vidas, conviver com perdas, realizar eutanásias, enfrentar limitações financeiras dos responsáveis, se deparar com expectativas muitas vezes irreais e, ainda, precisam manter um alto nível técnico sob intensa pressão.
“Existe também um forte envolvimento com os pacientes. O médico-veterinário frequentemente estabelece vínculo tanto com o animal quanto com sua família, tornando o impacto emocional ainda maior”, pontua a psicóloga.
Além disso, o veterinário é responsável por seus próprios animais e pode estar vivendo o próprio luto pela morte de um deles enquanto acolhe famílias que estão perdendo os seus. Sem o preparo adequado para essas situações, a saúde mental pode ficar comprometida.

Perdas que deixam marcas
Cada perda representa uma história interrompida. Juliana destaca que, embora o profissional saiba racionalmente que nem sempre é possível salvar um paciente, emocionalmente essas experiências deixam marcas.
A exposição repetida ao luto é capaz de gerar desgaste cumulativo, existindo veterinários que carregam lembranças dos casos clínicos para casa, revivem decisões tomadas, sofrem com culpa e tristeza persistente ou passam a evitar determinadas situações por sofrimento emocional.
“Quando esse processo não encontra espaço para elaboração, o impacto tende a aumentar ao longo dos anos. E, mesmo não estando enlutado, o médico-veterinário pode se identificar com o luto dos responsáveis que atende. Por isso, compreender os processos de luto é fundamental para entender a si mesmo e ao próximo”, cita.
No entanto, existe uma forma saudável de lidar com a perda dos pacientes sem desenvolver um distanciamento emocional excessivo? A psicóloga explica que sim, mas a solução não é deixar de sentir.
Para ela há uma diferença entre estabelecer limites emocionais saudáveis e tornar-se emocionalmente indiferente. Inclusive, a empatia continua sendo uma competência essencial na Medicina Veterinária.
“O que protege o profissional é desenvolver recursos para reconhecer suas emoções, compartilhar experiências com colegas, contar com espaços de supervisão ou apoio psicológico e compreender que sentir tristeza diante de uma perda não significa falta de preparo profissional”, destaca.
Confira o artigo completo “A importância de cuidar de quem cuida”, na íntegra e sem custo, acessando a página 54 da edição de agosto (nº 325) da Revista Cães e Gatos.

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