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Molnupiravir surge como nova aposta no manejo da Gengivoestomatite Felina Crônica

Estudos investigam o uso do princípio ativo em casos associados ao calicivírus, com resultados iniciais indicando redução ou regressão das lesões e melhora clínica dos gatos afetados

Molnupiravir surge como nova aposta no manejo da Gengivoestomatite Felina Crônica
Por Rebecca Vettore
17 de abril de 2026

Caracterizada por uma inflamação gengival, que se estende a outras mucosas da boca, a Gengivoestomatite Felina Crônica (GEFC) envolve, especialmente, a região caudal da cavidade oral e os tecidos ao redor dos arcos palatoglossos.

Observada em dois fenótipos clínicos principais, o ulcerativo e o proliferativo, alguns gatos podem apresentar ambos concomitantemente.

As lesões orais podem ser eritematosas, ulceradas e proliferativas, e sangrar com facilidade. Machucados na língua e até extensão para o esôfago são observados em alguns casos.

A doença, que pode atingir em torno de 10% dos felinos, tem diversas manifestações clínicas, como: dor oral moderada a intensa, hiporexia ou anorexia, perda de peso, hipersalivação observada por secreção ao redor da boca, redução ou ausência de grooming, menor socialização, irritabilidade e comportamento mais retraído.

Com o tratamento sendo apenas a exodontia de todos ou quase todos os dentes, de acordo com a distribuição da inflamação, e a analgesia, por sua vez, não curando a doença, o uso do molnupiravir tem sido estudado em gatos com GEFC.

“Atualmente, na Universidade Federal de Uberlândia, o princípio ativo tem sido utilizado em felinos com GEFC e positivos na RT-PCR para Calicivírus Felino (FCV). Como o FCV está associado à doença e, por se tratar de um vírus de RNA, estamos estudando como as lesões se comportam quando eliminamos o vírus com a aplicação do molnupiravir. Nossos resultados preliminares são animadores, com melhora substancial das lesões já em 15 dias de tratamento”, explica a médica-veterinária Aline Santana da Hora, docente na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre e doutora em Clínica Veterinária e Epidemiologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com a profissional, ainda se está na fase inicial do estudo, mas, no geral, os gatos estão sendo atendidos por 42 dias ou até o resultado negativo da RT-PCR para calicivírus, o que, em alguns casos, pode estender a terapia. Porém, nesse processo todos os animais ainda são mantidos com analgesia.

A seguir, Aline conta mais sobre a enfermidade e a terapia com molnupiravir.

Molnupiravir surge como nova aposta no manejo da Gengivoestomatite Felina Crônica
Aline Santana da Hora, médica-veterinária, docente na UFU, mestre e doutora em Clínica Veterinária e Epidemiologia Experimental pela USP (Foto: Divulgação)

Cães&Gatos: Explique melhor sobre a indicação do princípio ativo.

O uso do molnupiravir deve ser feito apenas quando é comprovada, por meio da RT-PCR, a positividade para o FCV. Com o tratamento estamos observando desde melhora importante das lesões até a remissão. 

Para realizá-lo, além da aplicação do princípio ativo, o ambiente em que o gato vive deve ser minuciosamente higienizado, com lavagem diária das vasilhas de água e alimento e enxágue com água fervente. O mesmo deve ocorrer com superfícies que podem ter recebido saliva ou secreções respiratórias dos animais.

Quando o molnupiravir passou a ser usado?

O princípio ativo começou a ser utilizado recentemente, devido ao conhecimento de sua aplicação com sucesso no tratamento de gatos com Peritonite Infecciosa Felina (PIF), uma vez que é ocasionada por um vírus de RNA, assim como o FCV.

O que temos de diferente nessa abordagem é que estamos eliminando um vírus de RNA que tem papel no desenvolvimento da GEFC, o FCV.

Quais são as contraindicações dessa utilização?

A medicação não deve ser usado em gatas prenhes, devido ao risco de malformações fetais (teratogenicidade) descrito em estudos de segurança em roedores de laboratório.

Além disso, deve ser utilizada com cautela em animais com enfermidades hepáticas, pois pode causar elevação temporária das enzimas do fígado.

Quais são as principais causas da doença?

A etiologia da enfermidade é multifatorial e imunomediada e, ainda, não muito bem compreendida. Porém, envolve uma resposta imune exacerbada a antígenos orais, frequentemente associada ao FCV.

Apesar de não se saber a causa exata, a vacinação contra calicivírus felino, a boa higienização ambiental e o controle de estresse estão entre algumas formas de prevenção.

FAQ sobre o uso do molnupiravir no tratamento da gengivoestomatite felina

Quando o princípio ativo é indicado para gatos com GEFC?

A aplicação é indicado apenas quando há confirmação, por meio de RT-PCR, de positividade para o FCV.

Quais cuidados devem ser adotados durante o tratamento?

Além do uso do medicamento, é fundamental higienizar rigorosamente o ambiente, incluindo a lavagem diária de vasilhas com água fervente e a limpeza de superfícies que possam ter contato com secreções do animal.

Quais são as contraindicações da aplicação do molnupiravir em felinos?

O medicamento não deve ser utilizado em gatas prenhas devido ao risco de malformações fetais e deve ser administrado com cautela em felinos com doenças hepáticas.

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