A obstrução uretral em felinos é uma das emergências mais frequentes na rotina veterinária e exige atenção imediata.
Quando os episódios se tornam recorrentes, a discussão sobre a indicação cirúrgica passa a fazer parte do manejo clínico. Durante a SACAVET, a médica-veterinária Dra. Ayne Murata Hayashi trouxe uma abordagem prática sobre o tema, destacando que a recorrência é mais comum do que se imagina e, muitas vezes, está relacionada à condução inicial do caso.
“A gente tem uma casuística muito grande de gatos obstruídos, e muitos acabam voltando. Então não é só tratar aquele episódio agudo — o manejo desde o início vai impactar diretamente na chance de recorrência desse paciente”, explicou.
Quando a obstrução deixa de ser apenas um episódio
A obstrução uretral está frequentemente associada à doença do trato urinário inferior felino (DTUIF), uma condição multifatorial que envolve fatores ambientais, nutricionais e comportamentais.
Nesse cenário, não existe uma única causa, o que torna o acompanhamento ainda mais importante.
Gatos machos, obesos, com baixa ingestão hídrica e que vivem em ambientes pouco enriquecidos estão entre os principais grupos de risco. A especialista reforçou que, sem mudanças no manejo, a tendência é que o quadro se repita.
Além disso, procedimentos repetidos também podem agravar a situação.
“Hoje, uma das principais causas de trauma uretral que a gente observa é a sondagem repetida ou mal conduzida. Isso gera inflamação, estenose e pode acabar piorando o quadro ao longo do tempo”, alertou.
Estabilização do paciente é prioridade
Antes de qualquer decisão cirúrgica, a estabilização clínica do paciente deve ser a principal preocupação. A obstrução pode levar rapidamente a alterações metabólicas graves, especialmente relacionadas ao potássio.
“Se esse gato está obstruído há mais de 24 horas, praticamente certo que ele já tem hipercalemia. E isso pode causar arritmia e levar esse animal a óbito. Então, antes de pensar em cirurgia, a gente precisa estabilizar esse paciente”, destacou.
A desobstrução, o controle da dor e a correção das alterações eletrolíticas são etapas fundamentais antes de qualquer intervenção definitiva.

Indicações cirúrgicas e técnica utilizada
A cirurgia passa a ser indicada principalmente em casos de recorrência, falha no manejo clínico ou alterações estruturais da uretra, como estenoses e traumas.
A uretrostomia perineal é a técnica mais utilizada nesses casos, pois cria uma nova abertura em uma região mais ampla da uretra, reduzindo o risco de novas obstruções. Apesar de ser um procedimento conhecido, exige precisão.
“Não é uma cirurgia difícil, mas ela exige muito cuidado com a anatomia. Se não for bem executada, pode trazer complicações importantes, como estenose ou até incontinência”, explicou.
Cirurgia não resolve a causa de base
Um dos pontos mais enfatizados durante a palestra foi a importância de alinhar expectativas com o responsável. A cirurgia não trata a doença de base, mas sim suas consequências.
“Eu sempre explico: a cirurgia não cura a doença. Ela evita que o animal volte a obstruir, mas ele pode continuar tendo inflamação, desconforto urinário e outros sinais”, afirmou.
Por isso, o manejo ambiental, a alimentação adequada e o acompanhamento contínuo continuam sendo fundamentais mesmo após o procedimento.
Qualidade de vida depende do conjunto de estratégias
Embora não seja curativa, a cirurgia pode melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente quando bem indicada. No entanto, o sucesso a longo prazo depende de uma abordagem integrada, que envolva não apenas o procedimento, mas também mudanças no estilo de vida do animal.

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