A toxoplasmose é uma zoonose causada pelo protozoário Toxoplasma gondii e cercada por muitos mitos, principalmente quando o assunto envolve os gatos.
Embora os felinos sejam os hospedeiros definitivos do parasita, isso não significa que a simples convivência com eles represente risco de infecção para as pessoas. Na prática, a transmissão depende de uma sequência específica de eventos, e as principais formas de contágio estão relacionadas ao consumo de alimentos ou água contaminados e de carnes cruas ou malcozidas.
De acordo com especialistas, compreender o ciclo de vida do Toxoplasma gondii é fundamental para desfazer equívocos e evitar o abandono de gatos motivado pelo medo da doença.
O papel dos gatos no ciclo da doença
Os felinos domésticos e silvestres são os únicos hospedeiros definitivos do Toxoplasma gondii, ou seja, são os animais em que o protozoário completa seu ciclo reprodutivo e pode eliminar oocistos nas fezes. Entretanto, isso não significa que um gato infectado seja automaticamente uma fonte de infecção para as pessoas.
Julyenne Christynne Escrivani Frasnelli, médica-veterinária pós-graduada em Medicina Felina, veterinária Cat Friendly pela AAFP e profissional certificada Fear Free Professional, explica que o animal precisa, antes de tudo, se contaminar — geralmente ao caçar ou ingerir presas infectadas para que o ciclo de transmissão aconteça.
“O gato é, de fato, o hospedeiro definitivo do Toxoplasma gondii. Por isso existe essa confusão de que ele transmite a doença. Mas, para que um ser humano se contamine diretamente a partir do gato, primeiro esse gato precisa estar infectado, normalmente por ter acesso à rua e ingerido uma presa contaminada.”
Segundo a profissional, após a infecção o gato elimina oocistos nas fezes por um período relativamente curto, geralmente em torno de duas semanas.

Fezes não transmitem imediatamente
Outro aspecto pouco conhecido é que os oocistos eliminados nas fezes não são capazes de causar infecção logo após a evacuação. Eles precisam permanecer no ambiente por um período, sob condições favoráveis de temperatura e umidade, até passarem pelo processo de esporulação e se tornarem infectantes.
“Mesmo que uma pessoa tenha contato com essas fezes, ela não vai se contaminar imediatamente. Esses oocistos precisam permanecer no ambiente, em condições adequadas, por pelo menos um a cinco dias para se tornarem infectantes”, explica Julyenne Fel.
Por isso, a higienização diária da caixa de areia reduz significativamente qualquer possibilidade de exposição, já que os oocistos são removidos antes de atingirem a fase infectante.
Alimentos são a principal fonte de infecção
Embora os gatos façam parte do ciclo biológico do parasita, a maioria dos casos de toxoplasmose em humanos está relacionada à ingestão de carnes cruas ou malcozidas contendo cistos do protozoário ou ao consumo de água, frutas e hortaliças contaminadas com oocistos presentes no ambiente.
Segundo Julyenne Fel, quando gatos com acesso à rua defecam em telhados, jardins ou áreas próximas a plantações, a chuva pode carrear os oocistos para o solo e para cultivos de hortaliças. Se esses alimentos não forem adequadamente higienizados antes do consumo, pode ocorrer a infecção.
“A contaminação normalmente acontece quando esses oocistos chegam às hortaliças ou à água e a pessoa consome esses alimentos sem a higienização correta. Não é simplesmente o contato com o gato que transmite a doença.”
Além disso, a literatura científica destaca que a transmissão também pode ocorrer da mãe para o feto durante a gestação, quando a infecção é adquirida pela gestante, e, mais raramente, por transplantes de órgãos ou transfusões sanguíneas.

Medidas simples ajudam na prevenção
A prevenção da toxoplasmose envolve principalmente boas práticas de higiene e segurança alimentar. Entre as recomendações estão cozinhar bem as carnes, lavar cuidadosamente frutas, verduras e legumes, consumir água tratada, higienizar utensílios de cozinha que tiveram contato com carnes cruas e utilizar luvas durante atividades de jardinagem ou contato com terra.
No caso dos gatos, manter os animais dentro de casa, oferecer alimentação comercial ou carnes devidamente cozidas e realizar a limpeza diária da caixa de areia são medidas que reduzem ainda mais a possibilidade de eliminação e permanência de oocistos no ambiente.
Segundo Julyenne Fel, mesmo nos raros casos em que todas as etapas do ciclo ocorram, pessoas imunocompetentes apresentam menor risco de desenvolver formas graves da doença, enquanto indivíduos imunossuprimidos e gestantes merecem atenção especial.
“Existe todo um ciclo para que essa transmissão aconteça. Não basta apenas ter um gato. É necessário que o animal esteja infectado, elimine os oocistos, que eles permaneçam tempo suficiente no ambiente para se tornarem infectantes e que haja ingestão de alimento contaminado. Por isso, os gatos não devem ser responsabilizados pela doença.”
Referências:
MITSUKA-BREGANÓ, Regina et al. Toxoplasmose: Manual para prevenção. Londrina: Eduel, 2010. Disponível em: https://books.scielo.org/id/cdtqr/pdf/mitsuka-9788572166768-03.pdf
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Toxoplasmose. Observatório de Saúde da Criança e do Adolescente. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/observaped/wp-content/uploads/sites/37/2015/06/toxoplasmose-para-o-site.pdf
