As enfermidades que acometem os rins de cães e gatos, como a Doença Renal Crônica (DRC) e a Injúria Renal Aguda (IRA), representam um desafio na prática clínica dos médicos-veterinários.
Poucas são as possibilidades de tratamento para essas afecções, sendo que a DRC não tem cura. No entanto, a hemodiálise pode ser uma solução para promover a melhora clínica dos pacientes e manter o equilíbrio orgânico quando a função renal está comprometida.
“A hemodiálise (HD) é uma técnica de terapia substitutiva renal, que tem como objetivo principal remover substâncias tóxicas do sangue, corrigir distúrbios ácido-base e eletrolíticos e controlar o volume hídrico corporal quando os rins estão funcionalmente comprometidos”, explica o médico-veterinário pós-graduado em Nefrologia e Urologia de pequenos animais e diretor clínico do Nefropet Itu, Sérgio Bicalho.
De acordo com o profissional, a HD não é recomendada para todos os animais com injúria renal. A técnica é indicada para cães e gatos com azotemia, que apresentem ureia maior que 150 mg/dl e creatinina acima de 4,0 mg/dl.
Dessa forma, suas principais aplicabilidades são:
- Injúria Renal Aguda (IRA): é caracterizada pela perda repentina da capacidade dos rins de filtrar o sangue de forma eficaz. Nela a hemodiálise atua como suporte até a possível recuperação da função renal;
- Intoxicações exógenas: nos casos de envenenamento por substâncias dialisáveis (como etilenoglicol, alguns medicamentos e venenos), a HD pode ser utilizada para remover rapidamente o agente tóxico do organismo;
- Doença Renal Crônica descompensada: em pacientes com DRC em estágio avançado, que apresentam crises de descompensação aguda, a técnica pode ser empregada como terapia de suporte.
“Em todas essas situações a indicação da hemodiálise deve considerar a condição clínica do paciente, a resposta às terapias convencionais e o prognóstico associado à causa primária”, pontua.
Na prática
Os equipamentos de hemodiálise utilizados na Medicina Veterinária são os mesmos da Medicina Humana.

Bicalho explica que, para a realização da técnica, é necessária a colocação de um cateter venoso central, por onde as linhas serão conectadas à máquina de diálise.
Além da colocação do cateter venoso central, são necessários alguns equipamentos, como sistema de osmose reversa, máquina de hemodiálise, linhas de diálise (arterial e venosa), dialisadores (filtros) e soluções de diálise (dialisatos).
“A compatibilidade com os equipamentos humanos permite maior disponibilidade de insumos e confiabilidade nos protocolos, existindo adaptações específicas apenas para o porte e condição clínica do paciente veterinário”, informa.
Ainda de acordo com o profissional, a hemodiálise é mais frequentemente utilizada em cães. Isso se deve, principalmente, ao peso corporal, pois animais com menos de quatro quilos — como a maioria dos gatos — apresentam volume sanguíneo insuficiente para preencher as linhas extracorpóreas e o dialisador sem que ocorra hipovolemia e hipotensão.
“Em gatos e outros animais de pequeno porte é possível realizar a HD com transfusão sanguínea concomitante para compensar o volume retirado, mas essa abordagem eleva significativamente o risco de intercorrências e torna o procedimento mais delicado. Por isso, a técnica é mais segura e viável em cães de porte médio a grande”, esclarece.
Etapas da hemodiálise
O médico-veterinário afirma que a hemodiálise realiza o bombeamento do sangue do animal por um circuito externo até um filtro chamado dialisador.
“Esse filtro é composto por um feixe de fibras ocas com membranas semipermeáveis, onde o sangue passa por dentro das fibras e a solução de diálise, chamada dialisato, circulando externamente a essas fibras. O dialisato possui composição eletrolítica semelhante ao plasma, o que favorece as trocas entre os compartimentos”, comenta.
Dessa forma, a remoção de toxinas e o ajuste do equilíbrio hidroeletrolítico ocorrem por quatro mecanismos principais.
Um deles é a difusão, no qual, segundo Sérgio, os solutos atravessam a membrana semipermeável do meio mais concentrado para o menos concentrado. Esse é o principal mecanismo para remoção de ureia, creatinina e outros compostos de baixo peso molecular.
Já na ultrafiltração, o gradiente de pressão hidrostática entre o sangue e o dialisato promove a remoção de água, sendo útil em casos de hipervolemia ou anasarca.
“Na convecção, por sua vez, o movimento de água pela membrana do dialisador arrasta solutos pequenos que nele estão diluídos, contribuindo para a depuração. Por fim, na adsorção algumas moléculas aderem à superfície da membrana e são eliminadas por esse processo”, afirma.
Deste modo, o profissional ressalta que a finalidade da hemodiálise é, portanto, substituir temporariamente as funções renais de filtração e regulação interna.
“Porém, é importante destacar que a HD não trata diretamente a insuficiência renal, mas mantém o equilíbrio orgânico enquanto a função renal está comprometida, melhorando clinicamente o paciente”, informa.
Outro ponto de atenção é que a duração das sessões de hemodiálise pode variar significativamente, indo de menos de uma hora até várias horas, pois depende de diversos fatores.

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