A fotobiomodulação (FBM), popularmente denominada laserterapia, consolidou-se como modalidade terapêutica não invasiva na Medicina Veterinária, especialmente nas áreas de reabilitação, analgesia, cicatrização e suporte ao paciente cirúrgico.
Apesar da crescente utilização clínica, sua aplicação ainda é marcada por protocolos heterogêneos, extrapolações da Medicina humana e expectativas frequentemente superiores às evidências disponíveis.
Este artigo revisa os fundamentos, principais indicações, contraindicações, vantagens, limitações e fatores relacionados à resposta terapêutica em cães e gatos, enfatizando a necessidade de individualização da dose e integração da FBM ao tratamento convencional.
Entendendo a técnica
A utilização terapêutica da luz deixou de ser uma prática restrita à reabilitação e passou a ocupar espaço na rotina de clínicas e hospitais veterinários .
Entretanto, popularidade não é sinônimo de eficácia. A fotobiomodulação deve ser compreendida como uma modalidade adjuvante, e não como tratamento universal substituindo analgesia, cirurgia, antibioticoterapia, controle metabólico ou tratamento etiológico.
A FBM utiliza luz, principalmente nas faixas vermelha e infravermelha próxima, para produzir respostas biológicas dependentes de comprimento de onda, irradiância, fluência, tempo de exposição e características do tecido.
Entre os mecanismos propostos estão alterações da atividade mitocondrial, produção de ATP, sinalização por espécies reativas de oxigênio, óxido nítrico, cálcio e modulação de mediadores inflamatórios.
Contudo, alguns mecanismos clássicos, especialmente a participação da citocromo c oxidase como principal fotoaceptor, permanecem objeto de debate experimental.
Essa ressalva é importante: laserterapia não é sinônimo de “mais energia, melhor resultado”. A resposta biológica apresenta comportamento dose-dependente e, em determinadas condições, o excesso de energia pode reduzir ou modificar o efeito desejado.

Onde a laserterapia realmente pode ajudar?
As aplicações veterinárias mais estudadas envolvem doenças musculoesqueléticas, quadros de dor, lesões de tecidos moles, feridas, algumas condições neurológicas e recuperação pós-operatória.
Na osteoartrite, por exemplo, a FBM pode ser utilizada como componente multimodal para redução da dor e melhora funcional.
Um ensaio clínico randomizado e duplo-cego realizado em cães com osteoartrite coxofemoral demonstrou redução de escores de dor e melhora de parâmetros funcionais após tratamento, com efeitos observados durante o acompanhamento.
Entretanto, evidências mais recentes ainda classificam a força global dessa recomendação como limitada, reforçando que o laser não deve ser apresentado como superior aos anti-inflamatórios ou demais estratégias terapêuticas.
Em feridas e cicatrização, a situação é ainda mais interessante — e complexa. Há estudos experimentais demonstrando potencial benefício, mas também ensaios controlados nos quais não foram observadas diferenças relevantes na velocidade ou qualidade da cicatrização.
Portanto, a indicação deve considerar tipo de ferida, vascularização, infecção, condição sistêmica, nutrição e tratamento primário.
Na prática cirúrgica, a FBM pode ser empregada como complemento para controle da dor, edema e recuperação funcional. Entretanto, seu benefício não elimina a necessidade de técnica cirúrgica adequada, controle de infecção, analgesia multimodal e acompanhamento pós-operatório.
Revisões atuais destacam seu potencial particularmente como terapia complementar, e não substitutiva.
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