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Cães em terapias de saúde mental: entre o encantamento e a evidência

Como programas com animais, do NHS britânico à realidade brasileira, estão entrando em hospitais e serviços de saúde mental, e por que isso exige responsabilidade com pacientes, equipe e com os próprios animais

Cães em terapias de saúde mental: entre o encantamento e a evidência
Por Marcelo Müller
2 de junho de 2026

“Cachorros não julgam.” A frase que abre a reportagem da BBC sobre o uso de cães em serviços de saúde mental do NHS chama atenção porque toca num ponto essencial. Em contextos em que pessoas se sentem observadas, avaliadas e frequentemente estigmatizadas, a presença de um animal que não interpreta roupa, diagnóstico ou histórico funciona como uma zona neutra emocional.

Desde 2023, um dos maiores trusts de saúde mental de Londres oferece sessões com cães, gatos e outros animais para pacientes em acompanhamento psiquiátrico, e em 2026 o programa foi ampliado para 16 unidades. O que era projeto pontual começa a virar rotina em um sistema de saúde conhecido pela cautela com novidades. Pacientes relatam sentir mais calma, menos solidão e maior disposição para falar depois das sessões com os animais.

O que acontece quando o cão entra na sala

Do ponto de vista fisiológico, aquela cena que parece apenas “carinho no cachorro” tem efeitos mensuráveis. Estudos sobre interação humano animal em contextos clínicos mostram:

  • Queda de frequência cardíaca e pressão arterial;
  • Redução de marcadores de estresse, como cortisol;
  • Aumento de mediadores ligados a vínculo e recompensa, como oxitocina e serotonina.

Esses efeitos aparecem durante e logo após o contato positivo com cães de terapia. O corpo lê o animal como estímulo seguro e aproveita para desligar, por alguns minutos, sistemas que passam o dia em alerta.

Na prática, em serviços de saúde mental, isso se traduz em três resultados que aparecem com frequência em relatos do NHS e de revisões científicas:

  • Sensação subjetiva de calma e de “aterrissagem” emocional após a interação;
  • Maior disposição para permanecer no serviço e participar de outras atividades;
  • Redução de episódios de agitação ou conflito em enfermarias, em parte pela mudança do clima geral do ambiente.

O cão não “cura” depressão nem resolve sozinho um quadro grave. Ele abre uma fresta em que o paciente consegue respirar melhor por alguns minutos, e a partir disso se relacionar com o tratamento com mais recurso interno.

Cães de terapia
Cães de terapia ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade de pacientes em serviços de saúde mental (Foto: Reprodução)

O que a ciência já sabe, e o que ainda não sabe

A literatura sobre intervenções assistidas por cães aponta uma sequência coerente de benefícios em grupos muito diferentes entre si: crianças com ansiedade, adolescentes com transtornos do neurodesenvolvimento, adultos com depressão, idosos com demência, usuários de serviços de saúde mental de longa permanência. Entre os efeitos mais descritos estão:

  • Redução de sintomas subjetivos de ansiedade e sensação de solidão;
  • Melhora temporária de humor;
  • Aumento do engajamento em terapias e atividades propostas;
  • Percepção ampliada de suporte emocional;

Ao mesmo tempo, pesquisadoras que trabalham exatamente nessa interseção, como Elena Ratschen, na Universidade de York, lembram que os dados ainda não permitem tratar o animal como “tratamento milagroso”. Estudos com pessoas com transtornos mentais graves mostram que apenas possuir um pet não produz, por si só, melhora significativa de sintomas em comparação a quem não tem, e pode inclusive adicionar peso emocional e financeiro em contextos vulneráveis.

A síntese honesta, hoje, é:

  • Interagir com animais em contexto terapêutico estruturado traz benefícios reais de bem-estar e engajamento;
  • Esses benefícios são importantes, mas não substituem tratamentos baseados em evidência para transtornos psiquiátricos;
  • Precisamos de estudos com amostras maiores, seguimento de longo prazo e protocolos padronizados para quantificar “quanto” ajuda, “em quem” e “como”;

Nem todo cão é terapeuta

O encantamento com “cachorros que ajudam pacientes” pode esconder um ponto crítico: o nível de exigência que recai sobre o animal. Programas sérios de terapia assistida por animais, tanto no NHS quanto em organizações especializadas, descrevem um perfil específico:

  • Temperamento estável e previsível, com baixa reatividade a barulhos, equipamentos hospitalares, cheiros fortes e movimentos bruscos;
  • Conforto em ser tocado por pessoas desconhecidas, às vezes com coordenação motora alterada, em uso de aventais e dispositivos médicos;
  • Capacidade de permanecer calmo em ambientes cheios sem apresentar medo ou irritação;
  • Obediência confiável ao condutor, que é responsável pela segurança de todos;
  • Saúde rigorosamente monitorada, com vacinação, controle parasitário e higiene adaptada ao contexto hospitalar.

Esses animais não nascem prontos para isso. São selecionados e treinados com critério, e precisam ser reavaliados continuamente para que o trabalho não se transforme, para eles, em fonte de estresse crônico.

No Brasil, atuo como médico-veterinário responsável em programas de Serviços Assistidos por Animais da PATAE Academy, que seguem essa mesma lógica. Cães e condutores são preparados para atuar em contextos de saúde, educação e inclusão com protocolos claros, foco em bem-estar animal e supervisão permanente. A experiência diária confirma o que a literatura sugere. O cão entra como mediador de vínculo, não como protagonista mágico. Ele facilita encontros humanos.

ambientes hospitalares
Presença de animais em ambientes hospitalares acalma o corpo e facilita o vínculo terapêutico com paciente (Foto: Reprodução)

Benefício também para equipes e familiares

Um efeito que aparece com frequência em relatos de hospitais britânicos é o impacto da presença dos cães sobre profissionais de saúde e familiares, não apenas sobre pacientes. Em ambientes de alta tensão emocional, alguns minutos com um animal calmo funcionam como pequena pausa fisiológica, baixando um pouco a maré de estresse que equipe e acompanhantes carregam.

Serviços relatam:

  • Melhora do clima em enfermarias;
  • Percepção de ambiente mais “humano”;
  • Maior sensação de apoio entre profissionais em dias particularmente difíceis.

Não é solução estrutural para problemas de gestão ou de carga de trabalho, mas é um recurso adicional de cuidado para quem cuida.

Os limites que não podem ser ignorados

Falar de terapia assistida por animais com responsabilidade significa encarar alguns limites com clareza.

  • Nem todo paciente se beneficia: há alergias, medos reais, crenças culturais e experiências prévias que tornam a presença de animais indesejada para algumas pessoas. Respeitar isso é parte do cuidado;
  • O risco de zoonoses existe: pode ser bastante reduzido com protocolos bem desenhados, mas nunca é zero. Controle sanitário, higiene rigorosa e critérios de exclusão de ambientes e pacientes são obrigatórios, não opcionais;
  • O bem-estar do animal é tão importante quanto o do paciente: cães que demonstram sinais de estresse persistente, cansaço ou desconforto não devem permanecer em programa algum. É preciso limite de atendimentos por sessão, períodos de descanso, possibilidade real de aposentadoria.

A pergunta central não é apenas “isso ajuda o paciente?”. É também “isso é justo com o animal?”.

Para onde esse caminho aponta

Quando juntamos o que vem acontecendo no NHS, a literatura sobre interação humano animal e a experiência prática de programas estruturados no Brasil, o quadro que aparece não é o da solução mágica, e sim o de uma ferramenta complementar valiosa.

Animais de terapia não substituem psicoterapia, medicação ou políticas públicas. Eles oferecem, dentro de um conjunto de estratégias, algo que nenhum outro recurso oferece da mesma maneira: a presença de um outro ser vivo, sensível, que não julga, não exige narrativa perfeita e mesmo assim consegue tranquilizar o corpo a ponto de permitir que a palavra volte a aparecer.

O desafio, agora, é crescer sem perder o rigor. Expandir programas sociais, educacionais e de saúde mental com cães, gatos e outros animais, mantendo em primeiro plano uma tríade que deveria orientar qualquer intervenção desse tipo: evidência, ética e respeito absoluto pelo bem-estar de quem está do outro lado da guia.

FAQ sobre cães de terapia na saúde mental

Como os animais ajudam pacientes em tratamento psiquiátrico?

Os animais oferecem afeto sem julgamentos ou diagnósticos, funcionando como uma zona neutra emocional. Fisiologicamente, o contato reduz a frequência cardíaca e o cortisol (estresse), além de liberar oxitocina e serotonina. Isso gera calma imediata, diminui a solidão e deixa o paciente mais disposto a participar das terapias.

Qualquer animal de estimação pode atuar como cão de terapia?

Não. Animais de terapia precisam de perfil específico e treinamento rigoroso. Eles devem ter temperamento dócil e estável, baixa reatividade a barulhos ou movimentos bruscos e total conforto ao serem tocados por desconhecidos. A saúde também é monitorada continuamente para garantir a segurança sanitária no ambiente hospitalar.

Os animais de terapia substituem os tratamentos tradicionais?

Não, eles são ferramentas complementares valiosas. A presença do animal não substitui a psicoterapia, os medicamentos ou os cuidados médicos estruturados. O papel do cão é ser um mediador que reduz a ansiedade e melhora o bem-estar temporário, ajudando o paciente a responder melhor ao tratamento principal.