A presença dos animais de estimação nas famílias brasileiras já começa a ultrapassar os limites das casas e influenciar a maneira como os espaços são projetados.
Se antes cães e gatos eram considerados apenas na etapa final de um projeto, com a inclusão de uma caminha ou de um espaço específico para alimentação, hoje a discussão avança para a arquitetura, os condomínios e até o planejamento das cidades.
Para a arquiteta e urbanista Natália Lima, essa transformação está diretamente relacionada à mudança na forma como os animais são reconhecidos dentro das famílias e na dinâmica dos espaços.
“Com a crescente demanda por ambientes que também considerem as necessidades dos pets, passei a desenvolver e defender uma arquitetura que reconheça cães e gatos como parte efetiva da dinâmica da casa, considerando seus hábitos, comportamentos e necessidades no processo de projeto”, afirma.
A discussão ganha relevância diante da presença dos animais nos domicílios brasileiros.
Segundo dados do IBGE citados pela arquiteta, quase metade dos domicílios possuem cães e cerca de 20% têm gatos. Conforme diz Natália, esse cenário evidencia a necessidade de desenvolver soluções capazes de proporcionar bem-estar aos animais e, ao mesmo tempo, responder às demandas da rotina de quem vive com eles.
Esse movimento começa na escala mais íntima da residência, mas se amplia progressivamente para os condomínios e os espaços urbanos.
“Não é mais suficiente considerar apenas uma visão antropocêntrica ao produzir os espaços públicos”, observa a arquiteta.
A casa também precisa ser pensada para os pets
Uma das transformações mais visíveis está dentro das residências. Novos ambientes e soluções vêm sendo incorporados aos projetos para atender às necessidades específicas dos animais que vivem ali.
Entre as tendências observadas pela arquiteta está a criação do chamado “quarto pet”, destinado ao descanso dos cães e ao armazenamento de ração, brinquedos e acessórios.
Áreas voltadas ao banho e à higiene também têm ganhado espaço, especialmente nas lavanderias, facilitando a limpeza após os passeios ou o acesso às áreas externas.
A segurança é outro ponto fundamental. Portas, portões, janelas e varandas precisam ser avaliados de acordo com os comportamentos e os riscos relacionados a cada animal.
Quando o projeto envolve gatos, as adaptações podem ser ainda mais amplas. Além dos espaços destinados à alimentação e às caixas de areia, a arquitetura precisa considerar comportamentos naturais da espécie, como a necessidade de explorar diferentes alturas e observar o ambiente.
“Também é necessário trabalhar a verticalização, devido aos comportamentos instintivos da espécie”, esclarece Natália.
Nesse contexto, recursos como prateleiras, percursos, esconderijos, pontos de observação e estímulos sensoriais podem contribuir para tornar o ambiente mais adequado aos felinos.
Mas a arquiteta faz um alerta: não existe uma solução universal. Assim como as pessoas, os animais possuem características individuais que devem ser consideradas durante a elaboração de um projeto.
“Um cão de alta energia que passa o dia sozinho possui uma necessidade espacial diferente da de um cão idoso”, exemplifica.

Condomínios precisam ir além do simples espaço pet
A valorização do metro quadrado e a redução do tamanho das unidades residenciais, especialmente nos grandes centros urbanos, também ajudaram a impulsionar a criação de áreas destinadas aos animais nos condomínios.
O chamado “espaço pet” passou a integrar o padrão de alguns empreendimentos, mas, para Natália, simplesmente reservar uma área para os animais não é suficiente.
“Não basta apenas criar um ‘espaço pet’”, destaca.
Para que esses locais realmente atendam às demandas dos animais e das pessoas, é preciso considerar fatores como percursos de acesso, áreas de higiene, espaços de permanência, presença de áreas verdes e condições adequadas de limpeza.
A convivência entre diferentes públicos também precisa fazer parte do planejamento. Crianças, idosos, pessoas sem animais e responsáveis por pets compartilham esses espaços e possuem necessidades distintas, exigindo soluções que ajudem a reduzir possíveis conflitos.
Essa mudança de perspectiva representa um dos principais desafios da arquitetura voltada aos animais de companhia.
“O principal erro, tanto nos projetos privados quanto nos espaços públicos, é pensar no animal como um equipamento a ser acrescentado ao projeto, e não como um usuário do espaço”, garante.
Cães e gatos possuem demandas relacionadas ao movimento, descanso, segurança, exploração e estímulos sensoriais. Ignorar essas particularidades pode resultar em soluções visualmente atraentes, mas pouco funcionais para os animais e para a rotina das famílias.
“Existem soluções genéricas, pensadas somente pela estética e desalinhadas com as necessidades naturais e de bem-estar dos animais”, pontua.
Espaços urbanos ainda caminham lentamente
Se dentro das casas e dos condomínios as mudanças já são perceptíveis, a transformação dos espaços urbanos ainda ocorre de forma mais lenta e, muitas vezes, experimental.
Segundo Natália, grande parte das cidades brasileiras ainda não oferece uma infraestrutura adequada para as atividades cotidianas realizadas com os animais, como as caminhadas.
“É importante pensar em uma infraestrutura verde conectada, acessível e diversificada para favorecer atividades cotidianas e o bem-estar de pessoas e animais”, defende.
Entre as dificuldades estão a criação de calçadas mais caminháveis e com conforto térmico, capazes de garantir um deslocamento seguro até parques e praças. A distribuição de áreas verdes pela cidade também merece atenção, evitando que esses espaços fiquem concentrados apenas em grandes parques distantes das áreas residenciais.
Outros elementos aparentemente simples podem fazer diferença na convivência urbana, como pontos de água e lixeiras adequadas para o descarte de dejetos.
A organização dos espaços também pode contribuir para reduzir conflitos. A delimitação de determinadas áreas destinadas aos animais em parques e praças, por exemplo, pode ser feita por meio de diferentes tipos de pisos e vegetação.
O desafio, no entanto, vai além de criar locais exclusivos para cães. Uma cidade mais preparada para essa realidade precisa equilibrar as necessidades dos responsáveis, dos animais e de toda a população que utiliza os espaços públicos.

Do projeto pontual a uma nova forma de pensar as cidades
Para a arquiteta, o Brasil vive atualmente um período de transição.
“Estamos no meio de uma transição. Já existem iniciativas muito concretas, mas ainda são, em grande parte, respostas pontuais e não estão totalmente incorporadas ao planejamento urbano”, analisa.
Ainda de acordo com ela, também há sinais de uma maior institucionalização dessa discussão. O Decreto Federal nº 12.439/2025, por exemplo, criou o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos e o Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Entre seus objetivos está a promoção da convivência harmoniosa entre os animais e a comunidade.
Na esfera municipal, algumas iniciativas também começam a ganhar espaço. A cidade de São Paulo, segundo a profissional, possui áreas específicas para cães em parques e vem regulamentando a entrada e a circulação de pets nesses espaços. Em 2025, a capital também anunciou oito novos cachorródromos em parques municipais.
Apesar dos avanços, a Natália acredita que a principal transformação ainda precisa acontecer na forma como os animais são considerados durante o planejamento dos espaços.
“O próximo passo é deixar de pensar no pet como uma demanda adicional e começar a incorporá-lo como um dos usuários que fazem parte da cidade”, confirma.
Para que essa mudança se consolide, será necessário ampliar o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento.
Arquitetura, urbanismo, paisagismo, Medicina Veterinária, comportamento animal e políticas públicas podem contribuir para a construção de espaços mais adequados à convivência.
Afinal, se a presença dos pets já transformou a dinâmica das famílias e dos lares, a próxima fronteira pode estar justamente do lado de fora: na maneira como casas, condomínios, ruas, praças e cidades são planejados para todos os seus habitantes.

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